SUS reforça assistência na Amazônia diante de seca dos rios e calor extremo

Ministério da Saúde prepara envio de medicamentos e insumos para purificação de água e amplia estrutura para manter atendimento de comunidades indígenas e ribeirinhas durante o período crítico

A seca dos rios amazônicos e o calor intenso levaram o Sistema Único de Saúde a reforçar a preparação da rede de atendimento na Região Norte. As medidas buscam garantir assistência principalmente às populações indígenas, ribeirinhas e moradores de áreas remotas, onde a redução dos níveis dos rios pode dificultar o deslocamento de equipes, pacientes, medicamentos e insumos.

O Ministério da Saúde mantém uma estratégia de monitoramento, preparação e resposta emergencial para o período crítico, com participação da Força Nacional do SUS e dos Centros de Informação em Saúde e Clima.

O alerta ganha força diante das condições previstas para os próximos meses. Segundo a pasta, o El Niño está em nível forte e os modelos climáticos indicam possibilidade de alcançar intensidade muito forte. Para a Região Norte, o cenário inclui risco de seca severa, estiagem prolongada, redução das chuvas e aumento das queimadas.

A preocupação não se limita à disponibilidade de água. A seca pode dificultar o acesso aos serviços de saúde, enquanto calor, fumaça e água de qualidade inadequada ampliam diferentes riscos sanitários.

Kits de medicamentos e purificação de água

Uma das medidas previstas é a manutenção de uma logística para envio de kits de medicamentos de urgência e insumos destinados à purificação de água.

A operação será coordenada com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a Defesa Civil, permitindo direcionar os recursos conforme as necessidades identificadas nos territórios.

Na Região Norte, 587 soluções para acesso à água potável já foram destinadas a áreas indígenas. A estrutura ganha importância durante períodos de seca, quando a redução dos rios pode comprometer fontes utilizadas pelas comunidades.

O Ministério também estabeleceu protocolos para situações que exijam a instalação de abrigos coletivos temporários.

As orientações concentram-se em seis pontos considerados críticos, entre eles garantia de água potável, condições adequadas de saneamento, ventilação para reduzir a transmissão de vírus respiratórios, identificação de casos graves, vacinação emergencial e atendimento psicossocial.

Quando uma estrutura de saúde deixa de funcionar em razão de um desastre, a Força Nacional do SUS pode substituir temporariamente o atendimento com unidades móveis e modulares.

Seca pode dificultar acesso às comunidades

A geografia amazônica torna a assistência especialmente vulnerável às grandes secas.

Em diversas localidades, os rios funcionam como as principais vias de transporte. Quando o nível da água cai, embarcações maiores deixam de alcançar determinadas comunidades e viagens podem se tornar mais demoradas ou até inviáveis.

O problema interfere no deslocamento de profissionais, no transporte de pacientes e no abastecimento de medicamentos, vacinas e outros materiais utilizados pela rede pública.

Para ampliar a capacidade de atendimento em áreas remotas, a frota de Unidades Básicas de Saúde Fluviais chegou a 71 embarcações. O número representa crescimento de 24,6% entre 2023 e 2026.

No mesmo período, segundo o Ministério da Saúde, houve expansão de 24,9% no número de equipes de saúde considerado pela pasta nesse levantamento, passando de 261 para 326. Atualmente, 95% da população da região está vinculada à Saúde da Família e à Saúde da Família Ribeirinha.

Amazonas terá base da Força Nacional do SUS

Manaus está entre as cidades escolhidas para receber uma base regional da Força Nacional do SUS.

Também estão em implantação bases em Porto Velho, em Rondônia, e Belém, no Pará. A estrutura busca diminuir o tempo necessário para mobilizar profissionais, equipamentos e insumos quando ocorrer uma emergência sanitária ou desastre na Amazônia.

Ao todo, estão previstas nove bases regionais da Força Nacional do SUS nas cinco regiões brasileiras.

As três primeiras foram abertas no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia. Segundo o Ministério da Saúde, essa estrutura permite iniciar respostas a emergências em até 12 horas.

Entre os dias 15 e 16 de setembro, uma equipe da Força Nacional do SUS também esteve em Roraima para preparar a rede estadual diante dos efeitos da seca e do El Niño. A missão resultou na elaboração de um plano de ação conjunto, e a força permanece em prontidão para eventual resposta.

Calor, fumaça e falta de água ampliam riscos

Os impactos esperados sobre a saúde vão além das dificuldades logísticas.

O Ministério da Saúde alerta para riscos de insegurança hídrica e alimentar, desnutrição, doenças relacionadas à água contaminada e problemas cardiorrespiratórios associados à fumaça das queimadas.

O cenário climático também pode favorecer determinadas doenças transmitidas por vetores.

Para antecipar esses efeitos, os Centros de Informação em Saúde e Clima de Belém e Santarém, no Pará, acompanham eventos climáticos e produzem informações destinadas aos gestores da rede.

Entre as ações estão a elaboração de mapas de calor extremo, identificação de locais para instalação de pontos de hidratação e zonas de resfriamento, desenvolvimento de protocolos específicos e qualificação das equipes de saúde.

UBS são adaptadas para eventos extremos

A estratégia inclui mudanças na própria infraestrutura da rede pública.

Na Região Norte, 273 Unidades Básicas de Saúde consideradas resilientes já foram entregues ou estão em construção por meio do Novo PAC.

As unidades são projetadas para continuar funcionando diante de eventos climáticos extremos. Os projetos incluem implantação em terrenos considerados seguros, sistemas de energia solar, geradores e capacidade de reserva de água para até 72 horas.

A região também recebeu 377 ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

As medidas integram o AdaptaSUS, estratégia federal apresentada durante a COP30 para aumentar a capacidade da rede pública de responder às mudanças do clima.

O plano reúne 27 metas e 93 ações, com previsão de R$ 9,8 bilhões em investimentos e planejamento até 2035.

Saúde entra na linha de frente da crise climática

A preparação do SUS evidencia uma dimensão da seca amazônica que ultrapassa os impactos ambientais.

Quando rios atingem níveis muito baixos, o problema alcança diretamente o funcionamento de serviços essenciais. Comunidades podem enfrentar simultaneamente dificuldade de locomoção, redução do acesso à água potável, fumaça de queimadas e obstáculos para chegar às unidades de saúde.

Na Amazônia, onde parte significativa da assistência depende da navegação e de estruturas capazes de alcançar áreas isoladas, a preparação antecipada torna-se especialmente importante.

Neste mês de setembro, a estratégia federal está concentrada em manter a rede em prontidão, acompanhar as condições climáticas e hidrológicas e preparar recursos que possam ser deslocados rapidamente caso a situação se agrave.

Com a previsão de seca severa e estiagem prolongada na Região Norte, a capacidade de garantir água segura, medicamentos, transporte e atendimento em comunidades remotas passa a integrar a resposta de saúde pública aos extremos climáticos.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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