Autoridades japonesas fazem checagem de taxas após nova queda da moeda, enquanto rendimentos dos Treasuries superam 5% e aumentam a cautela em Wall Street
O mercado financeiro internacional encerrou a semana sob pressão de duas frentes. No Japão, autoridades elevaram o nível de atenção sobre a desvalorização do iene e realizaram uma checagem das taxas de câmbio com participantes do mercado. Nos Estados Unidos, os rendimentos dos títulos do Tesouro permaneceram elevados e limitaram o avanço das bolsas em Wall Street.
A movimentação japonesa ocorreu na sexta-feira (18), depois de o iene voltar a perder força diante do dólar. A moeda americana chegou a avançar cerca de 1,3%, alcançando 158,05 ienes, maior cotação em aproximadamente duas semanas.
A trajetória mudou parcialmente depois que autoridades japonesas realizaram uma “rate check”, procedimento no qual são solicitadas a instituições financeiras informações sobre as taxas praticadas no mercado.
A medida não significa que o governo tenha efetivamente comprado ienes. No mercado financeiro, porém, esse tipo de consulta é acompanhado com atenção porque pode anteceder uma intervenção direta no câmbio.
Após a notícia, o dólar devolveu parte dos ganhos e o iene chegou à faixa de 156 por dólar.
Banco do Japão eleva juros, mas iene recua
A volatilidade ocorreu no mesmo dia em que o Banco do Japão decidiu elevar sua taxa básica de juros para 1,25%, o maior patamar em 31 anos.
Em condições normais, juros mais altos tendem a aumentar a atratividade de uma moeda. Desta vez, porém, o movimento não foi suficiente para fortalecer imediatamente o iene.
O mercado já esperava a elevação e concentrou a atenção nas indicações sobre os próximos passos da autoridade monetária. Dois integrantes do Banco do Japão divergiram da decisão, o que aumentou as dúvidas sobre o ritmo de futuros aumentos.
A ausência de uma sinalização mais firme contribuiu para a valorização do dólar diante da moeda japonesa.
O comportamento também refletiu a diferença entre as políticas monetárias das duas maiores economias. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou os juros nesta semana e adotou uma comunicação considerada mais rígida em relação à inflação.
A combinação entre juros americanos elevados e dúvidas sobre o ritmo do aperto monetário japonês mantém pressão sobre o câmbio.
Intervenção volta ao radar
O Japão já recorreu diretamente ao mercado cambial neste ano para tentar conter movimentos considerados excessivos.
Dados divulgados pelo governo neste mês mostraram que as reservas internacionais japonesas tiveram em agosto a maior queda já registrada. O estoque passou de US$ 1,287 trilhão para US$ 1,208 trilhão, redução de US$ 79,6 bilhões.
A queda ocorreu após uma intervenção de grande escala realizada para sustentar o iene.
Por isso, a checagem realizada na sexta-feira voltou a alimentar expectativas de que Tóquio poderá agir novamente caso considere que os movimentos da moeda se tornaram excessivamente rápidos ou desordenados.
O governo japonês tem reiterado que acompanha o mercado cambial e mantém comunicação com os Estados Unidos sobre a volatilidade da moeda.
Treasuries acima de 5% pressionam Wall Street
Nos Estados Unidos, o comportamento dos títulos públicos também concentrou as atenções dos investidores.
O rendimento dos Treasuries de referência superou 5% na sexta-feira. A alta dos juros dos títulos públicos aumenta a concorrência por recursos com o mercado acionário e pressiona especialmente empresas cujas avaliações dependem de expectativas de crescimento futuro.
Wall Street terminou a sessão sem uma direção única. O índice Dow Jones recuou 0,18%, enquanto o S&P 500 avançou 0,17% e o Nasdaq ganhou 0,40%.
Apesar dos ganhos modestos de dois dos principais índices, o comportamento dos Treasuries manteve os investidores cautelosos.
O petróleo também entrou nessa equação. As cotações recuaram depois de ganhos anteriores, mas permaneceram acima de US$ 100 por barril, mantendo preocupações sobre os efeitos da energia sobre a inflação.
A combinação de petróleo caro, juros elevados e rendimentos dos títulos públicos acima de 5% aumenta a dificuldade dos bancos centrais para controlar os preços sem provocar uma desaceleração mais forte da atividade econômica.
Mercado acompanha próximos passos do Fed
A atenção dos investidores se volta agora para as próximas sinalizações do Federal Reserve.
O banco central americano realizou nesta semana sua primeira elevação de juros desde 2023 e indicou preocupação persistente com a inflação. O movimento contribuiu para elevar os rendimentos dos Treasuries e fortalecer o dólar.
Na próxima semana, investidores deverão acompanhar declarações de dirigentes do Fed, indicadores da economia americana e novos sinais sobre a trajetória dos juros.
O comportamento do petróleo e as tensões geopolíticas também permanecem entre os fatores capazes de provocar oscilações nos mercados.
Iene entra em nova semana sob vigilância
No Japão, o comportamento do câmbio deverá continuar no centro das atenções.
A checagem de taxas realizada na sexta-feira não confirma uma nova intervenção, mas funciona como um sinal de que as autoridades estão acompanhando de perto a velocidade dos movimentos da moeda.
A diferença entre as taxas de juros americanas e japonesas continua sendo um dos principais elementos para a cotação do iene. Ao mesmo tempo, a possibilidade de uma intervenção oficial cria um limite de risco para investidores que apostam em uma desvalorização mais acentuada da moeda japonesa.
O resultado é um ambiente de elevada volatilidade no mercado cambial internacional. Enquanto o Japão tenta impedir movimentos considerados excessivos do iene, os juros americanos e os rendimentos dos Treasuries continuam influenciando moedas, bolsas e fluxos globais de capital.

