Análise inédita aponta elevação média do nível do mar entre 1995 e 2025. Erosão, marés mais duradouras e salinização já afetam pescadores, moradores e ecossistemas do litoral amazônico
O Oceano Atlântico avançou sobre uma das regiões ambientalmente mais sensíveis da Amazônia. Uma análise inédita aponta que o nível do mar na área da foz do rio Amazonas aumentou, em média, 12,4 centímetros entre 1995 e 2025, mudança que já pode ser percebida na erosão da costa, nas inundações e na salinização de áreas próximas ao litoral.
O levantamento foi produzido pelo pesquisador Guilherme Couto, mestre em Modelagem Computacional pela Universidade Federal de Juiz de Fora e integrante do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira. A análise utiliza um modelo do Serviço do Ambiente Marinho Copernicus, da União Europeia, que combina simulações numéricas com observações de satélite.
Os dados apontam uma tendência média de elevação de 4,13 milímetros por ano. Em 31 anos, o avanço acumulado corresponde a aproximadamente 12,4 centímetros na região da desembocadura do Amazonas.
O fenômeno ganha relevância pelas características da costa amazônica. Na região, o maior rio do planeta em volume de água encontra o Atlântico e forma um ambiente no qual água doce, água salgada, sedimentos e nutrientes sustentam manguezais, comunidades pesqueiras e uma ampla diversidade de espécies.
Marés ficam mais altas e duradouras
A análise mostra que a transformação não se resume à elevação média do nível do mar.
Entre 1995 e 2025, mais da metade dos anos apresentou nível do mar acima da média histórica considerada pelo levantamento. Em 2025, o nível permaneceu acima desse parâmetro durante todo o período analisado.
Outro indicador mostra que os episódios considerados críticos também estão ficando mais prolongados. Segundo a análise, o tempo de inundação costeira crítica aumenta cerca de 3,8 meses a cada década.
Nos anos mais recentes, houve períodos de até 12 meses consecutivos acima da linha utilizada para identificar situações críticas de inundação costeira.
A mudança aparece também no cotidiano das comunidades.
Moradores relatam que as chamadas “marés lançantes”, conhecidas localmente como períodos de “água grande”, tornaram-se mais frequentes. Antes associadas principalmente a determinados ciclos lunares, elas passaram a ser percebidas com maior frequência tanto na lua cheia quanto na lua nova.
Goiabal sente avanço do oceano
Na praia do Goiabal, em Calçoene, no Amapá, o avanço das águas já modificou a ocupação da costa.
A região é particularmente vulnerável porque apresenta terreno extremamente plano. Em determinados momentos, a maré pode avançar e recuar entre três e quatro quilômetros em um único dia.
Casas, pousadas e estruturas utilizadas pelo turismo foram atingidas ou destruídas pelas águas. Muitos moradores deixaram o local e a comunidade atualmente reúne principalmente famílias ligadas à pesca.
O pescador Osiel Barbosa Balieiro, conhecido como Bicudinho, vive há mais de três décadas no Goiabal e acompanha as transformações da praia.
“O salgado vai empurrando.”
A frase utilizada pelo pescador sintetiza uma mudança complexa na relação entre o Amazonas e o Atlântico.
Durante o período de maior vazão do rio, a água doce avança mar adentro e forma uma extensa pluma. Na estação seca, a influência oceânica aumenta e a água salgada consegue penetrar com maior força na região costeira.
Com mudanças na intensidade das secas e das chuvas e com a elevação do nível do mar, esse equilíbrio passa por alterações.
Salinização muda a dinâmica ambiental
O avanço do Atlântico produz consequências que vão além da erosão.
A entrada de água salgada pode aumentar a salinização de terrenos, igarapés e ambientes próximos à costa. Ao mesmo tempo, áreas passam a permanecer alagadas durante períodos maiores.
Essas transformações atingem diretamente populações que dependem da pesca e do extrativismo.
A própria composição das capturas ajuda os pescadores a perceber as mudanças. A presença de espécies marinhas, como pescada-amarela, sarda e tainha, indica maior influência da água salgada. Já espécies associadas às águas do Amazonas, como gurijuba, dourada e piramutaba, aparecem quando a força do rio prevalece.
A alteração desse equilíbrio pode mudar a distribuição das espécies e, consequentemente, afetar tanto pescadores artesanais quanto embarcações e empresas ligadas à pesca comercial.
Foz sustenta biodiversidade única
A dimensão ecológica da mudança é significativa.
O Amazonas responde por cerca de 17% da descarga de água doce que chega aos oceanos no planeta. Quando essa enorme quantidade de água alcança o Atlântico, transporta sedimentos e nutrientes fundamentais para diferentes ecossistemas.
No período de maior descarga, entre fevereiro e abril, a pluma formada pelo rio pode alcançar cerca de mil quilômetros dentro do Atlântico.
Influenciada pela Corrente Norte do Brasil, essa água rica em nutrientes se desloca em direção ao Caribe e participa da dinâmica de ecossistemas marinhos ao longo de seu percurso.
Na própria costa amazônica encontra-se ainda uma das maiores faixas contínuas de manguezais do mundo.
Essa combinação faz da foz uma área importante tanto para a biodiversidade quanto para a economia das populações que dependem dos recursos pesqueiros.
Secas e cheias interferem no encontro entre rio e mar
A elevação do nível do oceano ocorre ao mesmo tempo em que a Amazônia enfrenta alterações no seu ciclo hidrológico.
Períodos de seca e de chuva mais intensos modificam a quantidade e o momento em que a água do Amazonas alcança o Atlântico. Isso interfere diretamente na disputa natural entre a descarga do rio e a entrada da água salgada.
A geógrafa Valdenira Ferreira Santos, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), destaca que existem ciclos associados a fenômenos como El Niño e La Niña, mas chama atenção para o aumento da intensidade desses episódios.
Para os pesquisadores, manter séries contínuas de observação será fundamental para compreender a velocidade das mudanças e projetar seus efeitos sobre comunidades, atividades econômicas e biodiversidade.
Desmatamento pode enfraquecer pluma do Amazonas
Há ainda uma conexão entre o que acontece no interior da floresta e a dinâmica observada no oceano.
A quantidade de água despejada pelo Amazonas no Atlântico depende do ciclo hidrológico de uma bacia que cobre milhões de quilômetros quadrados. Mudanças na cobertura florestal podem alterar a circulação de umidade e o regime de chuvas.
A investigação publicada pela InfoAmazonia aponta que cenários de perda significativa da floresta podem reduzir a força da pluma amazônica no oceano. Uma redução de 45% da cobertura florestal até 2050 poderia fazer com que essa influência do rio alcançasse o Atlântico com menor intensidade.
Isso acrescenta uma nova dimensão aos efeitos do desmatamento. As consequências podem ultrapassar o território continental e alcançar ambientes costeiros e marinhos dependentes da descarga do Amazonas.
Mudança já faz parte da vida na costa
Os 12,4 centímetros registrados pela análise podem parecer pequenos quando observados isoladamente, mas seus efeitos são ampliados pelas características geográficas da costa do Amapá.
Em áreas extremamente planas, pequenas variações verticais do nível do mar podem permitir que a água avance por distâncias consideráveis sobre o território.
É essa realidade que moradores da foz já percebem por meio das marés mais altas, da erosão, da perda de estruturas e das mudanças na pesca.
O avanço do Atlântico sobre a foz do Amazonas mostra, assim, que os efeitos das mudanças climáticas na região não estão restritos às secas, às queimadas ou às alterações dos rios no interior da floresta. Eles também chegam à costa, onde a transformação do encontro entre o maior rio do mundo e o oceano começa a redesenhar paisagens, atividades econômicas e modos de vida.

