A possibilidade de um novo episódio do fenômeno El Niño atingir o Brasil reacendeu o alerta sobre os riscos de uma nova crise climática na Amazônia. Após as secas extremas registradas em 2023 e 2024, consideradas entre as piores da história da região, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, determinou que a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal apresentem medidas emergenciais de prevenção diante das projeções de agravamento da estiagem e dos incêndios florestais.
A decisão do STF acontece em um cenário marcado pelas consequências devastadoras do chamado “super El Niño” que atingiu a Amazônia entre 2023 e 2024. Naquele período, a combinação entre o aquecimento anormal do Oceano Pacífico, altas temperaturas no Atlântico Norte e o avanço do desmatamento provocou uma seca sem precedentes em diversos estados amazônicos.
No Amazonas, rios históricos atingiram níveis recordes de vazante. O Rio Negro chegou à menor marca desde o início das medições, em 1902, registrando apenas 12,70 metros em Manaus. Já o Rio Solimões também alcançou o menor nível da história em Manacapuru, alterando completamente a dinâmica de transporte, abastecimento e sobrevivência das populações ribeirinhas.

A seca isolou comunidades inteiras, dificultou o acesso à água potável, interrompeu aulas escolares e comprometeu o atendimento de saúde em territórios indígenas e ribeirinhos. Em cidades do interior do Amazonas, embarcações deixaram de circular por conta dos bancos de areia formados nos rios. Em Tefé, igarapés secaram completamente e moradores precisaram carregar água por longas distâncias.
Os impactos também atingiram fortemente a biodiversidade amazônica. Em 2023, a morte de centenas de botos no Lago Tefé se tornou símbolo da tragédia climática. As altas temperaturas da água e a redução do oxigênio provocaram mortandade de peixes, jacarés e outras espécies aquáticas. A fumaça das queimadas também cobriu cidades como Manaus, que chegou a registrar uma das piores qualidades do ar do planeta.

Especialistas alertam que os sinais observados para 2026 indicam risco de repetição, ou até agravamento, desse cenário. Em decisão recente, Flávio Dino afirmou que há elevada probabilidade de temperaturas acima da média e persistência de déficit hídrico na Amazônia Legal e no Pantanal, especialmente no segundo semestre, período crítico para incêndios florestais.
O ministro determinou que os governos apresentem, em até 10 dias úteis, informações sobre planejamento, prevenção e combate aos impactos do fenômeno climático. Entre as preocupações estão o aumento das queimadas, colapso hídrico, insegurança alimentar e novas emergências humanitárias em territórios vulneráveis.

Pesquisadores e organizações socioambientais reforçam que os eventos recentes demonstram que a Amazônia já vive os efeitos concretos da crise climática global. Além do El Niño, o avanço do desmatamento, das queimadas e de atividades predatórias contribui para o enfraquecimento da floresta e para a intensificação dos extremos climáticos.
Para lideranças amazônicas, o desafio agora é evitar que as cenas de rios secos, comunidades isoladas, fumaça tóxica e colapso ambiental voltem a se repetir nos próximos meses.

