Compadres de São José: tradição de 51 anos atravessa gerações e mantém vivo legado no folclore amazonense

À frente da associação, Reginella Paes dá continuidade à história iniciada na comunidade de São José e ligada à trajetória do pai, Luiz Marques Paes; em 2026, quadrilha leva à arena o tema “Guardiões da Floresta – Vozes da Resistência”

 

Por Antonio Ximenes e Beatriz Costa

Há histórias que começam como uma brincadeira entre vizinhos e, com o passar dos anos, tornam-se patrimônio afetivo de uma comunidade. Foi assim com a Associação Folclórica Os Compadres de São José, quadrilha que completa 51 anos de trajetória em 2026 e mantém viva uma tradição iniciada em 1975, quando os festejos juninos ainda aconteciam de maneira simples, nos arraiais da comunidade de São José, em Urucará – Amazonas.

Hoje, à frente da associação está Reginella Augusta dos Santos Paes, filha de Luiz Marques Paes, um dos nomes que ajudaram a construir a história dos Compadres. Para ela, presidir a quadrilha significa muito mais do que ocupar uma função administrativa: representa dar continuidade a uma história que acompanha sua família e sua própria vida desde a infância.

“Ser presidente representa muito para mim, porque eu cresci no meio de tudo isso, por causa do meu pai. Já fui costureira, já fui modelo, fiz de tudo. Fazer parte e hoje ser presidente é motivo de muito orgulho”, conta.

A trajetória dos Compadres de São José começou em 1975 e foi construída por muitas mãos. Nos primeiros anos, a quadrilha surgiu no ambiente comunitário, a partir dos pequenos arraiais realizados no bairro. Aos poucos, novos participantes foram chegando e a brincadeira ganhou organização e dimensão.

Foi nesse período que Luiz Marques Paes passou a integrar o grupo como marcador, função que exerceu durante muitos anos. Uma característica curiosa daqueles primeiros tempos acabaria ajudando a definir a identidade da quadrilha: muitos dos participantes eram compadres uns dos outros. A relação inspirou Luiz a propor o nome que atravessaria décadas.

Assim nasceram Os Compadres de São José.

Uma história que passou de pai para filha

Reginella cresceu acompanhando ensaios, figurinos, apresentações e os bastidores da quadrilha. Antes de chegar à presidência, passou por diferentes funções e conheceu de perto o trabalho necessário para colocar o espetáculo na arena.

Formada em Pedagogia e atuante profissionalmente como técnica em saúde bucal, ela assumiu a presidência da Associação Folclórica Os Compadres de São José em 16 de maio de 2022. A escolha ocorreu em assembleia, após convite da comissão e votação com participação dos integrantes.

O mandato da presidência é de quatro anos. Reginella foi posteriormente reeleita e segue à frente da associação. Embora outras mulheres já tenham comandado a quadrilha, ela destaca um marco particular: é a primeira mulher a ocupar a presidência depois da legalização dos Compadres de São José como associação.

“Ser presidente não é apenas ocupar um cargo. É amar, lutar, acreditar e fazer de tudo para manter viva a história e o legado que meu pai ajudou a construir”, afirma.

A ligação com o pai aparece em cada lembrança. Luiz Marques Paes formou família com Aires dos Santos Paes e, segundo Reginella, era conhecido também pela generosidade com que acolhia as pessoas.

“Meu pai tinha um coração enorme”, resume.

É justamente a memória dele que acompanha a presidente diante da responsabilidade de conduzir uma manifestação cultural com mais de meio século de existência.

“Tenho certeza de que, lá do céu, ele está olhando por mim, acompanhando cada passo e se orgulhando da filha que deu continuidade a esse sonho.”

Onde tudo começou, hoje funciona o QG

O vínculo entre passado e presente também tem endereço. O QG dos Compadres de São José funciona na casa que pertenceu ao pai de Reginella, o mesmo espaço associado aos primeiros capítulos dessa história.

A residência tornou-se o centro da intensa preparação da quadrilha. É onde integrantes se encontram, decisões são tomadas e boa parte dos problemas cotidianos precisa ser resolvida rapidamente durante a temporada.

“O QG da quadrilha ser na minha casa representa muito para mim. Aqui fica mais fácil e mais rápido resolver as coisas, porque estamos sempre juntos na correria. E tem um significado ainda maior: foi na casa do meu pai que tudo começou”, relata.

Segundo Reginella, os Compadres também tiveram papel importante nas transformações visuais das apresentações ao longo de sua trajetória.

“Fomos a primeira quadrilha a levar adereços para as apresentações e, desde então, fomos crescendo, evoluindo e fazendo história.”

Por isso, ela define o QG não simplesmente como local de produção, mas como extensão da própria família.

“Hoje, o nosso QG é muito mais que um lugar de trabalho. É a nossa segunda casa. Aqui somos uma família, e todos que chegam são recebidos com carinho e respeito.”

“Guardiões da Floresta: Vozes da Resistência”

Para a temporada de 2026, os Compadres de São José levam à arena o tema “Guardiões da Floresta – Vozes da Resistência”.

A proposta orienta também a concepção visual do grupo. Figurinos e demais elementos apresentados pela comissão são desenvolvidos de acordo com o tema escolhido, buscando construir uma narrativa que una o universo junino à mensagem apresentada naquele ano.

A dimensão do trabalho aparece nos números. A apresentação reúne 78 brincantes, além de 10 integrantes da equipe cênica, 16 componentes da comissão e quatro pessoas no apoio, totalizando 108 pessoas diretamente envolvidas na entrada em quadra.

Entre os itens de destaque estão o casal de noivos, Larissa Cordovil e Ernan Martins, e o casal realeza, Ronne Ícaro e Sabrina Andrade. A apresentação fica sob responsabilidade de Maurício Ritchelly.

Por trás de cada personagem, traje e movimento existe uma preparação que se estende muito além dos minutos de espetáculo vistos pelo público. É justamente nesse trabalho coletivo que Reginella identifica uma das principais forças dos Compadres.

“Quando olho para trás, vejo o quanto nós evoluímos. Foram muitos desafios, muito trabalho e dedicação, mas também muitas conquistas. Tenho muito orgulho de tudo que construímos juntos e de ver a nossa quadrilha crescendo cada vez mais.”

51 anos de uma história construída coletivamente

Ao completar 51 anos, os Compadres de São José carregam uma trajetória que atravessou diferentes gerações e acompanhou as próprias transformações das quadrilhas juninas amazonenses. O que começou nos arraiais comunitários ganhou estrutura, personagens, cenografia, figurinos elaborados e uma organização formal, sem abandonar as relações afetivas que deram origem ao grupo.

Na história de Reginella, essa transformação ganha um significado ainda mais particular. A menina que cresceu acompanhando o pai, passou pela costura, vestiu figurinos e participou de diferentes etapas da construção da quadrilha é hoje responsável por conduzir a associação.

E faz isso justamente no lugar onde parte dessa história nasceu.

“Para mim, é um orgulho enorme ter o QG dos Compadres de São José na casa do meu pai e poder continuar essa história que começou com ele.”

Entre as lembranças de Luiz Marques Paes, a movimentação dos brincantes e os preparativos para mais uma apresentação, passado e presente continuam dividindo o mesmo espaço. Aos 51 anos, os Compadres de São José mostram que uma tradição permanece viva quando encontra novas gerações dispostas não apenas a preservá-la, mas também a fazê-la seguir em frente.

 

Fotos: Divulgação (Arquivo Pessoal)

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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