Combater degradação pode preservar mais biodiversidade do que restaurar florestas, aponta estudo

Pesquisa publicada na Science indica que impedir incêndios, exploração predatória de madeira e outros danos em florestas ainda existentes pode gerar benefícios ambientais superiores aos obtidos apenas com a recuperação de áreas já destruídas

Proteger uma floresta antes que ela seja degradada pode produzir resultados muito maiores para a biodiversidade do que tentar recuperá-la depois. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Science na quinta-feira (17), que compara diferentes estratégias para conservar florestas tropicais e reduzir seus impactos sobre o clima.

A pesquisa avaliou os benefícios de evitar o desmatamento, impedir a degradação e promover a restauração florestal. Os resultados mostram que as políticas ambientais não podem se concentrar apenas no corte raso da vegetação ou no plantio de novas árvores.

Há um processo menos visível que também provoca perdas expressivas. É a degradação de florestas que continuam aparecendo como áreas verdes em imagens e mapas, mas que sofreram incêndios, exploração predatória de madeira e outras perturbações capazes de reduzir sua biodiversidade e seus estoques de carbono.

Na Amazônia, o problema assume dimensão estratégica. Estudos anteriores já mostraram que incêndios, extração seletiva de madeira, secas extremas e efeitos de borda atingem extensas áreas de floresta sem necessariamente provocar sua remoção completa.

Evitar o dano antes de restaurar

Os números apresentados no novo estudo ajudam a dimensionar a diferença entre as estratégias.

Segundo os resultados divulgados, impedir a degradação poderia evitar 68,5% das perdas de biodiversidade consideradas na análise e 46,8% das emissões de dióxido de carbono.

Evitar o desmatamento apresentou outro perfil. A estratégia poderia impedir 28% das perdas de biodiversidade e 60,8% das emissões de CO₂.

Já a restauração de áreas degradadas ou desmatadas apresentou benefícios de 6,5% para biodiversidade e 14,7% para carbono, percentuais inferiores aos observados nas duas estratégias preventivas.

Os resultados não significam que o reflorestamento seja desnecessário. A restauração continua sendo importante para recuperar áreas já alteradas, ampliar a conectividade entre fragmentos florestais e sequestrar carbono.

O estudo indica, porém, que restaurar não deve substituir a conservação da vegetação que ainda existe.

Degradação é uma destruição menos visível

Uma floresta não precisa ser completamente derrubada para perder parte significativa de suas funções ecológicas.

A degradação ocorre quando a vegetação permanece em pé, mas sofre alterações capazes de modificar sua estrutura, biodiversidade e funcionamento.

Na Amazônia, entre os principais fatores estão os incêndios que atingem o interior da mata, a exploração seletiva de madeira, os efeitos provocados pelas bordas abertas pelo desmatamento e as secas extremas.

O fogo rasteiro é particularmente perigoso.

Diferentemente de ecossistemas naturalmente adaptados às queimadas, grande parte da floresta amazônica é sensível ao fogo. As chamas podem avançar lentamente pelo sub-bosque, matar árvores e alterar a composição da vegetação sem produzir imediatamente uma área totalmente desmatada.

A exploração predatória de madeira também deixa consequências que ultrapassam a retirada das árvores comercialmente mais valiosas. A abertura de estradas e clareiras fragmenta a vegetação, modifica o microclima e pode facilitar a entrada de novos agentes de degradação.

Problema pode rivalizar com desmatamento

A importância da degradação já havia sido demonstrada em uma ampla pesquisa sobre a Amazônia publicada anteriormente na própria Science.

O trabalho estimou que, considerando incêndios, efeitos de borda, exploração madeireira e secas extremas, até 38% das florestas amazônicas remanescentes apresentavam algum grau de degradação no período analisado.

A perda de carbono provocada por essas perturbações foi estimada entre 0,05 e 0,20 petagrama de carbono por ano, intervalo comparável ao atribuído ao próprio desmatamento, de 0,06 a 0,21 petagrama por ano.

O levantamento mostrou ainda que florestas degradadas por incêndios e exploração madeireira podem apresentar redução de 2% a 34% na evapotranspiração durante a estação seca.

Essa alteração importa porque a floresta amazônica participa ativamente da reciclagem da água para a atmosfera e da formação de chuvas.

Biodiversidade pode não voltar ao estado original

Outro desafio está na capacidade de recuperação da floresta.

Pesquisas mostram que alguns processos ecológicos podem se recuperar quando as perturbações são interrompidas. Isso, entretanto, não significa necessariamente que a floresta volte à condição anterior.

Um estudo divulgado neste ano acompanhou áreas amazônicas afetadas pelo fogo e encontrou recuperação relativamente rápida de aspectos estruturais e funcionais no interior da floresta depois da interrupção das queimadas.

Nas bordas, porém, a recuperação foi mais lenta. A riqueza de espécies caiu entre 20% e 46% no período analisado, e a composição original não retornou mesmo após 14 anos. Espécies mais especializadas deram lugar, em parte, a organismos mais generalistas e tolerantes à seca.

Isso ajuda a explicar por que impedir a degradação aparece como uma estratégia tão relevante para a biodiversidade.

Uma floresta recuperada pode voltar a armazenar carbono e desenvolver cobertura vegetal sem necessariamente reconstruir rapidamente toda a complexidade ecológica perdida.

Prevenção e restauração precisam caminhar juntas

Os resultados reforçam uma mudança de perspectiva nas políticas de conservação.

O combate ao desmatamento continua sendo fundamental, especialmente pelo impacto direto sobre as emissões de carbono. A restauração também permanece necessária nas áreas onde a vegetação já foi removida ou profundamente alterada.

Mas a degradação ocupa uma posição intermediária que muitas vezes recebe menos atenção.

É a floresta que ainda existe, porém está sendo progressivamente empobrecida.

Nesse cenário, ações de fiscalização contra exploração ilegal de madeira, prevenção e combate a incêndios, redução da fragmentação e proteção de áreas vulneráveis podem impedir que florestas parcialmente afetadas atravessem novos estágios de deterioração.

Os resultados publicados na Science apontam que a estratégia de maior alcance não é escolher entre conservar ou restaurar. É impedir simultaneamente o desmatamento e a degradação e utilizar a restauração onde o dano já ocorreu.

Para a Amazônia, essa abordagem amplia o desafio das políticas ambientais. Manter a floresta em pé é fundamental, mas já não basta apenas identificar se uma área continua coberta por árvores.

É necessário saber em que condições essa floresta permanece em pé.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *