Seca e incêndios provocam perdas na produção de mel e ameaçam apicultura em Roraima

Estiagem prolongada reduz a floração, provoca fuga de enxames e agrava prejuízos de produtores rurais. Um apicultor de Boa Vista relata queda de 80% na produção, enquanto incêndios destroem colmeias e propriedades.

A combinação de seca prolongada, temperaturas elevadas e incêndios florestais está provocando prejuízos à apicultura e à agricultura familiar em Roraima. A falta de chuvas compromete a floração da vegetação nativa, reduzindo a disponibilidade de néctar e pólen, alimentos essenciais para a sobrevivência das abelhas e a produção de mel.

Na zona rural de Boa Vista, o apicultor José Pinheiro enfrenta uma redução expressiva na atividade. Segundo o produtor, a produção, que já chegou a cinco toneladas, caiu para aproximadamente uma tonelada, representando uma diminuição de 80%.

A situação também provocou a fuga de parte dos enxames para outras regiões em busca de condições mais favoráveis. Com menos abelhas nos apiários, o produtor precisou retirar caixas de captação, reduzindo ainda mais a capacidade de produção.

Incêndios destroem colmeias e provocam prejuízos

Além da falta de chuva, os incêndios florestais representam uma ameaça direta aos criadores de abelhas. Boa parte dos apiários está localizada no lavrado roraimense, onde a vegetação seca facilita a propagação das chamas.

O apicultor Anderson Freitas perdeu mais de 20 caixas de abelhas depois que um incêndio atingiu uma propriedade de aproximadamente 200 hectares. O fogo teria começado quando o escapamento de um veículo entrou em contato com a vegetação seca.

As chamas destruíram as colmeias, o automóvel e uma carretinha utilizada no transporte de materiais. Diante da intensidade do incêndio, o produtor precisou deixar o local para preservar a própria vida.

Os relatos demonstram como a estiagem e os incêndios estão afetando simultaneamente a produção rural e a preservação dos enxames.

Agricultura familiar também sofre com a estiagem

Os prejuízos não se limitam à produção de mel. Agricultores de diferentes regiões enfrentam dificuldades para conseguir água suficiente para manter as plantações.

Na zona rural da capital, cultivos de tomate, milho e couve também foram atingidos pela falta de chuva.

O agricultor Carlos Pereira investiu aproximadamente R$ 12 mil no cultivo de tomate, mas perdeu grande parte da produção. A continuidade da estiagem ameaça inviabilizar a atividade caso não haja recuperação das condições hídricas.

A situação preocupa produtores que dependem da agricultura familiar como principal fonte de renda.

Governo decreta emergência e reforça combate aos incêndios

Diante do agravamento da situação, o Governo de Roraima decretou situação de emergência em setembro e criou um gabinete para coordenar as ações de enfrentamento à seca e aos incêndios florestais.

Os municípios de Iracema, Cantá e Normandia também decretaram emergência.

Segundo o diretor executivo da Defesa Civil Estadual, coronel Cidinei Lima da Silva, as equipes estaduais estão prestando apoio aos municípios com materiais e equipamentos, incluindo ferramentas, kits de combate e bombas abafadoras.

A Defesa Civil também acompanha as previsões climáticas, especialmente diante da possibilidade de intensificação do fenômeno El Niño entre novembro e dezembro.

Roraima registrou cerca de 360 focos de calor em outubro

O cenário mais preocupante está concentrado na região centro-norte do estado, especialmente nas áreas de lavrado.

Roraima registrou aproximadamente 360 focos de calor durante outubro de 2026. O número se aproxima do recorde histórico para o mês, quando foram identificados mais de 400 focos em 2023.

Como medida preventiva, equipes do governo estão orientando produtores rurais sobre os riscos do uso do fogo para limpeza de terrenos durante o período de estiagem.

A preocupação é evitar que queimadas iniciadas de maneira controlada se transformem em incêndios de grandes proporções, atingindo propriedades, vegetação, animais e estruturas produtivas.

Impactos podem continuar nos próximos meses

A recuperação da apicultura depende do retorno das chuvas, da recomposição da vegetação e da recuperação dos enxames atingidos pela falta de alimento e pelos incêndios.

Além do prejuízo financeiro imediato, a redução das populações de abelhas pode comprometer a polinização de plantas e afetar outras atividades agrícolas.

O cenário reforça a necessidade de medidas de prevenção contra incêndios, investimentos em segurança hídrica e assistência aos produtores rurais.

Em Roraima, a estiagem deixou de ser apenas um problema climático e passou a representar uma ameaça à produção de alimentos, à economia rural e à biodiversidade.

 

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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