Símbolo da fauna amazônica e uma das espécies mais emblemáticas da região, o peixe-boi-da-Amazônia (Trichechus inunguis) desenvolveu, ao longo de milhares de anos, adaptações que lhe permitem sobreviver às intensas mudanças provocadas pelo ciclo anual de cheia e seca dos rios. As estratégias envolvem alterações no comportamento, na alimentação e até na forma como o mamífero controla sua flutuabilidade.
Durante o período de cheia, quando extensas áreas de floresta ficam alagadas, o peixe-boi encontra grande oferta de alimento. Nessa fase, desloca-se para várzeas e igapós em busca de plantas aquáticas e semiaquáticas, base de sua alimentação. Já na estiagem, com a redução do nível dos rios, migra para lagos e canais mais profundos, onde permanece até o retorno das chuvas.
Uma característica que chama a atenção dos pesquisadores é a forma como o animal regula sua posição na água. Diferentemente dos peixes, o peixe-boi é um mamífero e não possui bexiga natatória. Para subir ou descer na coluna d’água, utiliza o controle da respiração e da quantidade de gases produzidos durante a digestão, ajustando naturalmente sua flutuabilidade.
A alimentação também acompanha as mudanças do ambiente. O peixe-boi consome dezenas de espécies de plantas aquáticas e precisa ingerir diariamente uma quantidade significativa de vegetação para manter suas reservas energéticas. Esse comportamento é essencial para enfrentar os períodos em que a oferta de alimento diminui durante a seca.
Além de contribuir para o equilíbrio ecológico dos rios amazônicos, a espécie exerce papel importante na dispersão de sementes. Ao consumir frutos e vegetação das áreas alagadas, o mamífero transporta sementes pelo sistema digestivo e as devolve ao ambiente em diferentes locais, favorecendo a regeneração natural das florestas de várzea. Por esse motivo, pesquisadores o classificam como um dos principais “jardineiros” da Amazônia.
Apesar da capacidade de adaptação ao ciclo natural das águas, o peixe-boi enfrenta desafios crescentes provocados pelas mudanças climáticas. A sucessão de secas extremas registrada nos últimos anos reduz áreas de alimentação, altera rotas de deslocamento e aumenta a vulnerabilidade dos animais à caça ilegal e à captura acidental em redes de pesca.
Considerado vulnerável à extinção, o peixe-boi-da-Amazônia é alvo de programas permanentes de conservação conduzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em parceria com instituições ambientais. Os projetos incluem resgate de filhotes, reabilitação, monitoramento e soltura de animais na natureza, contribuindo para fortalecer as populações da espécie nos rios amazônicos.
Fonte: newenergybrasil.com.br

