A mulher gaúcha e do campo já é guerreira por natureza, sabe cuidar da lida campeira e faz as mesmas coisas que um homem faz nessa lida diária de cuidar dos animais e do campo na propriedade rural.
Representa a força e a tradição de um povo que segue com seus usos e costumes desde o início da criação do Rio Grande do Sul.

Hoje vamos contar a linda história de Neli da Silveira Severo, uma trabalhadora rural que cuida da sua propriedade, que se chama “Chácara das pedreiras”, e como o nome já diz, é um lugar que tem muitas pedras, no Parové, em Alegrete – RS
Neli tem dois filhos que moram na cidade e trabalham, a Nidiane que vive no Alegrete e o Juliano em São Borja, ela mora com seu marido Vanderlei Garcia, na qual ele trabalha em outra propriedade. Neli diz que ama andar a cavalo e lidar com o gado.
Nos conte como é o seu dia na Chácara das Pedreiras?
…”Pela manhã, levanto cedinho e já vou fazendo o fogo no fogão a lenha no inverno e no verão faço no fogão a gás, e vou preparar o chimarrão. Ficamos tomando o mate eu e meu esposo, proseando, falando de como vai ser nosso dia, antes de ele sair para o seu trabalho em outra propriedade rural. Escuto as notícias no rádio e vou colocar o trabalho em dia, antes de sair ele me ajuda a tirar leite das vacas para tomarmos nosso café, do leite que sobra eu tenho costume de fazer queijo para o nosso consumo.
Depois vou dar comida para as vacas, geralmente é silagem, feno ou milho que plantamos aqui na chácara. Vou alimentar as galinhas, as angolistas, apanhar os ovos, alimentar os porcos e começa a lida do dia. Dou uma arrumada na casa e vou encilhar meu cavalo para fazer a lida campeira, que é camperear, olhar o gado, as cercas, se tiver algum animal machucado, levo para a mangueira, curo ele e depois libero para o campo. Todos os dias a mesma rotina, que eu amo fazer.
Ao meio dia quando retorno do campo, vou fazer um almoço, mais tarde vou pra lavoura, coloco veneno para matar as formigas que teimam em aparecer e carpir minha horta e as horas vão passando, mas sempre tem o que fazer o dia inteiro. Tenho meus cachorros e gatos que me fazem companhia e a noitinha vou matear novamente com meu esposo.
Amanhece e recomeça tudo novamente, mas eu amo tudo o que eu faço no campo.”…
Quando você começou a trabalhar como produtora rural?
…”Eu comecei a trabalhar como produtora rural desde menina, ajudava o meu pai na lavoura, quando ele plantava com arado de boi, eu ajudava ele a plantar, carpir, quebrar milho, trazer para o paiol, trazer na carroça de boi, eu sempre ajudei ele. Ajudava a minha mãe em casa e o pai na lavoura, sempre foi assim, lidando com gado, curando terneiro abichado e vacas, aprendi a tirar leite com sete anos de idade, ia com a canequinha de alumínio para a mangueira ajudar a tirar leite, comecei a ser trabalhadora rural desde que casei.
E sempre fui do serviço bruto, da lida bruta, da enxada, do machado, cortava lenha, carpia, matava formiga, era de tudo um pouco, tanto na lavoura como com o gado. Naquela época tinha que pegar água de balde, não tinha luz, aliás a luz chegou depois que eu tinha casado. “…
Você cria gado de corte, qual a quantidade, como está o preço do gado?
…”O preço do gado varia muito. O quilo do terneiro está em média de 13, 14 reais o quilo do terneiro, depende da raça, se eles são de padrão já pago mais. Se ele é de raça misturada, quando não saem bem puro e bonito, pois os compradores querem raça de pelagem bonita, tipo um colorado puro, um preto puro, um Braford colorado, cara branca, aí eles pagam mais. E assim, eu estou procurando melhorar o padrão do gado, para eu vender melhor e ter melhor negócio para eles.
Eu crio uma média de umas 30 vacas com cria, mais ou menos, 35 por aí, depende.”…
Quem te incentivou na lida campeira?
…”Quem me incentivou a criar gado e trabalhar nas lidas de campo, aqui no trabalho rural, foi meu pai e a minha mãe. Eles me ensinaram desde criancinha que eu andava atrás deles, sempre ajudando nas lidas e a gostar da criação. Eu tenho orgulho deles. O meu pai já faleceu, mas a minha mãe é viva, ela está com 84 anos e vem aqui fora e a gente conversa sobre tudo. Eu amo a lida de campo, gosto dessas atividades rurais no campo, que me motivam todos os dias. Temos que mostrar a força da mulher do campo, porque sem o trabalho no campo a cidade não vive, sem o agro a gente não vive, a gente precisa da planta e da criação também, do agronegócio em geral. E é isso aí, desde criança que eu trabalho aqui, fazem 52 anos que eu moro aqui nessa propriedade, a propriedade aqui era da minha avó materna, da mãe da minha mãe, aí ficou para minha mãe a herança e agora eu sou responsável pela chácara.”…
Deixe uma mensagem para as mulheres que estão começando a vida como produtora rural?
…”Para vocês mulheres batalhadoras do campo, que acordam cedo e trabalham na pecuária, enfrentam sol, chuva, frio e muitos desafios, que cuidam da casa, organizam tudo e ainda encontram tempo para serem mães.
Você é força, exemplo, você é a base da família e do agro. Não deixem ninguém diminuir seu valor, seu trabalho tem muita importância, sua dedicação tem preço e a sua presença faz toda a diferença. E para outras mulheres que estão começando é possível sim, difícil, mas é possível, com coragem, fé e trabalho a gente conquista nosso espaço. Mulher do campo não desiste! Ela persiste! Lugar de mulher é onde ela quiser!”…