Economia ecológica ganha destaque no II SIGAP como caminho para o desenvolvimento sustentável da Amazônia

O debate sobre novos modelos de desenvolvimento marcou o primeiro dia do II Seminário Internacional de Gestão de Áreas Protegidas (SIGAP), realizado em Manaus. Especialistas defenderam a necessidade de repensar a economia a partir da realidade amazônica, integrando conservação ambiental, justiça social e geração de renda.

A professora da Universidade Federal do Pará, Larissa Chermont, destacou que um dos principais desafios ainda é romper com a separação entre economia, meio ambiente e sociedade, uma divisão que, segundo ela, não reflete a realidade da Amazônia.

“Não existe economia isolada. O econômico é social e ambiental ao mesmo tempo. Quando essas áreas não dialogam, as políticas públicas se tornam desconectadas da realidade e pouco eficazes”, explicou.

Diálogo entre ciência, sociedade e políticas públicas

Larissa ressaltou que o desenvolvimento sustentável depende de uma construção coletiva, que envolva academia, governos e as populações locais. Para ela, é essencial que as decisões não sejam centralizadas, mas construídas a partir das demandas da própria Amazônia.

“A gente precisa sair de um modelo em que apenas se responde a políticas externas e passar a protagonizar as decisões, ouvindo quem está na ponta, nas comunidades, nas cidades, nas áreas protegidas”, afirmou.

A professora também destacou o papel da economia ecológica como uma ponte entre diferentes áreas do conhecimento. Segundo ela, essa abordagem busca integrar teoria e prática, promovendo soluções mais adequadas à complexidade da região.

Larissa Chermont, professora de Economia da Universidade Federal do Estado do Pará.

Muito além do PIB

Outro ponto central da discussão foi a limitação dos indicadores econômicos tradicionais, como o Produto Interno Bruto (PIB), para medir o desenvolvimento.

Larissa explicou que muitas atividades consideradas “positivas” para a economia podem, na prática, gerar impactos ambientais e sociais negativos. “Quando se derruba a floresta para expandir a pecuária, por exemplo, o PIB pode crescer. Mas isso não significa desenvolvimento, porque não estamos considerando as perdas ambientais e sociais”, destacou.

Ela também chamou atenção para a importância de reconhecer formas de riqueza que não passam pelo mercado. “Existe uma renda que não é monetária, mas que está ligada à qualidade de vida, à segurança alimentar e ao bem viver das comunidades. Isso também precisa ser considerado”, disse.

Amazônia no centro do debate global

O professor da Universidade de Vermont, Jon Erickson, reforçou que a discussão sobre economia ecológica na Amazônia tem relevância global, especialmente diante dos impactos da globalização.

Segundo ele, o modelo econômico dominante trata o planeta como uma fonte inesgotável de recursos, sem considerar seus limites. “A economia global tem operado como se a Terra fosse infinita, tanto para extrair recursos quanto para absorver resíduos. Esse é um dos principais problemas que enfrentamos hoje”, afirmou.

Erickson destacou que as economias locais, como as da Amazônia, oferecem alternativas importantes, por estarem mais conectadas às culturas, aos territórios e às comunidades.

“Diferentes sociedades constroem diferentes economias, baseadas em seus valores. Na Amazônia, essas economias estão profundamente ligadas à natureza e às formas de vida locais, e isso precisa ser valorizado”, explicou.

Parcerias internacionais e novos caminhos

Durante o seminário, também foi discutida a criação de uma iniciativa internacional voltada ao fortalecimento da economia ecológica na Amazônia, envolvendo instituições como a Universidade Federal do Pará, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Universidade de Vermont.

A proposta busca integrar ensino, pesquisa e extensão, promovendo um intercâmbio de conhecimentos e o desenvolvimento de novas ferramentas para medir e impulsionar o desenvolvimento sustentável.

Para Larissa Chermont, esse tipo de parceria é fundamental para construir soluções inovadoras. “A gente precisa criar novas métricas, novos instrumentos e, principalmente, novas formas de pensar o desenvolvimento. E isso só é possível com diálogo e cooperação”, afirmou.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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