Crise no STF acende alerta no agronegócio sobre crédito, investimentos e segurança jurídica

Entidades ligadas ao setor produtivo aderiram a manifesto que cobra uma resposta do Supremo diante da instabilidade institucional; preocupação se concentra nos possíveis efeitos sobre contratos, financiamento, câmbio e entrada de novos investimentos

A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal entrou no radar do agronegócio brasileiro e ampliou as preocupações de um setor que já enfrenta restrições de crédito, aumento das recuperações judiciais e maior cautela na concessão de financiamentos.

Mais de 3 mil entidades empresariais aderiram a um manifesto divulgado em 9 de setembro cobrando uma resposta do STF diante das disputas e questionamentos envolvendo integrantes da Corte. Entre as organizações ligadas ao agro estão a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo, Associação Brasileira do Agronegócio, Associação Brasileira de Proteína Animal, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, Sociedade Rural Brasileira, Sistema Famato e União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia.

A mobilização ocorre porque decisões do Judiciário têm reflexos sobre questões fundamentais para o ambiente de negócios. Contratos, garantias, recuperação judicial e disputas relacionadas à propriedade da terra estão entre os temas que dependem de regras consideradas previsíveis pelos agentes econômicos.

Para o agronegócio, essa previsibilidade ganha ainda mais importância pelas características da atividade. O produtor investe antes da colheita, assume compromissos financeiros de médio e longo prazo e depende de crédito para custear diferentes etapas da produção. Uma mudança na percepção de risco pode aumentar a cautela de bancos, fundos e investidores.

Crédito já estava pressionado antes da crise

A instabilidade institucional ocorre em um momento de deterioração das condições de financiamento do setor. Dados da RGF-BIZDOC citados pela CNN Brasil mostram que as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio caíram de uma média mensal de R$ 5,3 bilhões no segundo semestre de 2025 para R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2026. A redução foi de 77%.

As recuperações judiciais também avançaram. O número de empresas do agronegócio com registro de recuperação judicial passou de 313, em março de 2023, para 1.336 em agosto deste ano. Em um período de 12 meses, o crescimento chegou a 66%, enquanto no conjunto das empresas brasileiras o avanço foi de 21%.

Esse cenário ajuda a explicar a atenção dedicada pelo setor à crise institucional. Especialistas ouvidos pela CNN ressaltam, no entanto, que ainda não existem evidências suficientes para atribuir à situação no Supremo o fechamento do crédito rural ou um aumento efetivo do custo dos financiamentos. A preocupação está no risco de que uma nova camada de incerteza torne o mercado ainda mais seletivo.

Segurança jurídica preocupa entidades do setor

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo, Tirso Meirelles, afirmou que a instabilidade institucional pode aumentar a insegurança jurídica e comprometer a atração de investimentos produtivos para o país. A Faesp está entre as entidades que aderiram ao manifesto dirigido ao Supremo.

A segurança jurídica é especialmente relevante na análise das garantias oferecidas nas operações de crédito. Para quem financia a atividade rural, não basta avaliar a capacidade de pagamento do produtor. Também é necessário considerar se uma garantia poderá ser executada e quanto tempo uma eventual disputa judicial levará para ser solucionada.

Quanto maior a incerteza em relação às regras e às decisões judiciais, maior pode ser a cautela de quem disponibiliza recursos. Em um setor que já convive com juros elevados e restrições de financiamento, esse ambiente pode dificultar a entrada de novos recursos.

Câmbio também entra nas preocupações

Outro ponto acompanhado pelo agronegócio é o comportamento do câmbio diante do ambiente político e institucional. A relação, entretanto, não é simples.

Um real valorizado pode reduzir os custos de fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos importados. Ao mesmo tempo, diminui a quantidade de reais recebida pelos produtores que exportam soja, milho, carnes, café, açúcar e outras commodities negociadas internacionalmente em dólar.

Por esse motivo, eventuais movimentos cambiais provocados pela percepção de risco podem produzir efeitos diferentes dentro das cadeias produtivas.

O impacto efetivo da crise institucional sobre investimentos, crédito e câmbio ainda depende da duração e dos desdobramentos do cenário político e jurídico. Para as entidades que se mobilizaram, a cobrança central está relacionada à necessidade de previsibilidade institucional.

Em um setor que movimenta contratos de longo prazo e depende de financiamento para manter a produção, a preocupação é evitar que a instabilidade política acrescente novos riscos a um ambiente econômico que já apresenta dificuldades de acesso ao crédito.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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