Conheça uma história inusitada que aconteceu na Ponte Internacional de Uruguaiana -RS, brasileiros contra argentinos

Uma história contada por Getúlio Vargas Valls, hoje aposentado morando em Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, fato que aconteceu por volta de 1948 que envolveu seu pai Iris Ferrari Valls, na qual era prefeito Municipal de Uruguaiana no Estado gaúcho, isso tudo aconteceu na ponte Internacional que separa o Brasil da Argentina.

A Ponte Internacional Getúlio Vargas – Agustín Pedro Justo conecta Uruguaiana (Brasil) a Paso de los Libres (Argentina) sobre o rio Uruguai, sendo inaugurada oficialmente em 1947. Com mais de 1.400 metros, é um marco histórico de engenharia, servindo como uma rota crucial para o transporte de cargas e turismo.

…”O que posso contar sobre a ponte é o episódio onde o meu pai Iris ferrari Valls, com um rolo de arame farpado, na qual fechou a ponte internacional, isto foi em 1948, quando era prefeito de Uruguaiana.

Tudo começou em um dia comum, tudo fluía em Uruguaiana e Passo de Los Libres com a normalidade dos dias pachorrentos do interior.

Uma “chibeira” vinha de Libres com suas compras diárias. Nada de mais, alguns quilos de farinha, óleo de soja e alguns outros ítens de fácil venda em Uruguaiana.

Ao chegar na ponte, um gendarme resolveu vistoriar suas compras e entendeu que ela trazia um quilo de farinha além do permitido. Rasgou todos seus pacotes, quebrou as garrafas de azeite no chão e, não satisfeito, chicoteou a chibeira até cansar o braço.

Formou-se um “diz que me disse” na ponte e alguém correu na prefeitura para avisar o pai.

 

Ao saber do ocorrido, ele chamou o General (o velho Aymone) que era seu motorista e mandou ele tocar o carro para a Casa Jaques, onde comprou dois rolos de arame farpado e pôs no carro. Mandou o General tocar em direção à ponte e, lá chegando disse para ir até o meio, bem na divisa.

Ali, calmamente os dois enrolaram o arame de ponta a ponta impedindo a passagem de quem quer que fosse. Deixou o General com ordens expressas para ninguém passar e, para o fiel cumprimento da ordem, deixou seu revólver 38 com ele dizendo que usasse se necessário.

Dirigiu-se, então, até o QG do Exército e mandou um Coronel que estava respondendo pelo comando, colocar a tropa na rua com a ordem expressa de prenderem todo e qualquer argentino que encontrassem na rua, fosse quem fosse. Alguns foram render o “General” que, como o pai, voltou para a prefeitura.

 

Foram presos 36 argentinos no 8° RCMec a pão e água. O Intendente de Libres avisou o Presidente argentino Juan Domingos Perón, dizendo apenas que os brasileiros estavam loucos pois prenderam todos os argentinos em Uruguaiana que estavam a passeio.

Perón, o senhor da América do Sul, mandou, imediatamente, pôr em marcha os tanques “panzers” que ele tinha ganho de Hitler, para adentrar em Uruguaiana e salvar seus compatriotas, avisando ao presidente Getúlio Vargas que iria invadir. Getúlio pediu que ele esperasse pois estava embarcando de urgência para Uruguaiana.

Chegando em Libres, Perón ligou para o pai, convidando-o a ir ao país vizinho para conversarem. O pai respondeu que atendia na prefeitura em horário comercial, o que deixou Perón furioso. Era um homem que não estava acostumado a ser desobedecido.

Nisso chega Getúlio Vargas à Uruguaiana, conversa com o pai e com Perón combinando com este último de se encontrarem no meio da ponte, junto ao arame farpado

Um dia quente, parece que era outubro, não sei direito, os três se encontram na ponte e o pai deixou o General de sobreaviso: ” Se esse Correntino der uma mexida errada, descarrega o 38 nele”.

Eram por volta das 11 da manhã. Aquela turma de curiosos começou a rir de maneira muito alta, dizendo que o pai encima do Getúlio, não dava a altura do Perón.

Chegaram por volta das 15 horas com a seguinte pauta:

-Os argentinos seriam libertados assim que a “chibeira” estivesse a salvo do lado brasileiro;

-Perón emitiu uma ordem onde os brasileiros pudessem comprar o que quisessem em Libres, desde que autorizados pela prefeitura;

– Meu pai ganhou do Perón o cargo de General na Argentina, com seus respectivos vencimentos, o que, de imediato recusou afirmando que “quem servia a duas Pátrias não prestava para nenhuma.

-Dois dias depois, ao reunirem-se na prefeitura de Uruguaiana, Perón presenteou o pai, pela sua coragem e alto grau de civismo para com os seus, com a Espada de San Martín, o proclamador da independência Argentina, espada esta que se encontra conosco até hoje.

A ordem do Perón para a passagem livre de mercadorias também está conosco e a guardo com muito zelo e, quando tenho algum medo da vida, olho para ela e enfrento o que for necessário.

Esta foi a famosa passagem da ponte internacional de Uruguaiana.”…

 

Escritora

Márcia Ximenes Nunes

Post Author: Márcia Ximenes Nunes

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