Bachelet retira candidatura ao comando da ONU e sucessão entra em nova fase

Ex-presidente do Chile tinha o apoio do Brasil e do México, mas perdeu força nas consultas do Conselho de Segurança. Sete candidatos permanecem na disputa para suceder António Guterres em 2027

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet retirou, no sábado (19), sua candidatura à Secretaria-Geral das Nações Unidas. A decisão encerrou uma campanha que tinha forte apoio diplomático do Brasil e do México, mas enfrentava dificuldades para conquistar os votos necessários no Conselho de Segurança da ONU.

Bachelet, de 74 anos, comunicou a desistência por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. Ao anunciar a decisão, agradeceu especialmente o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente do México, Claudia Sheinbaum, que sustentaram sua candidatura durante a disputa.

A ex-presidente chilena afirmou que continuará atuando internacionalmente e voltou a defender que a ONU seja comandada por uma mulher latino-americana.

A retirada ocorreu um dia depois de uma nova consulta informal entre os 15 integrantes do Conselho de Segurança. Bachelet recebeu apenas um voto de incentivo, 11 manifestações de desestímulo e três sem opinião, resultado que mostrou a dificuldade de construir consenso em torno de seu nome.

Apoio brasileiro permaneceu após recuo do Chile

A candidatura de Bachelet havia sido lançada inicialmente com o apoio de Chile, Brasil e México. O cenário mudou em março, quando o governo chileno retirou oficialmente o respaldo à ex-presidente.

A decisão ocorreu após José Antonio Kast assumir a Presidência do Chile. O novo governo decidiu não manter o apoio concedido pela administração anterior.

Bachelet, entretanto, permaneceu na disputa com respaldo de Brasil e México. Na ocasião, afirmou que continuaria buscando apoio entre os integrantes das Nações Unidas.

A posição brasileira se manteve mesmo depois da mudança de postura de Santiago. Lula apoiava a candidatura da ex-presidente chilena, que já ocupou diferentes posições de destaque no sistema das Nações Unidas.

Além de governar o Chile em dois períodos, entre 2006 e 2010 e novamente entre 2014 e 2018, Bachelet comandou a ONU Mulheres e foi alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Sua campanha para a Secretaria-Geral tinha entre os principais eixos a defesa do multilateralismo, do direito internacional e dos direitos humanos.

Sete candidatos permanecem na disputa

Com a desistência de Bachelet, sete candidatos permanecem na corrida para suceder António Guterres, que encerra seu segundo mandato em 31 de dezembro deste ano.

A terceira sondagem informal do Conselho de Segurança, realizada na sexta-feira (18), mostrou avanço da candidatura da economista e ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan.

As consultas são utilizadas pelos integrantes do Conselho para medir o nível de apoio aos candidatos antes da escolha formal. Elas não representam a decisão definitiva, mas ajudam a indicar quais nomes têm possibilidade de reunir o consenso necessário.

O processo de escolha do secretário-geral passa obrigatoriamente pelo Conselho de Segurança, formado por 15 países. Cinco possuem assento permanente e poder de veto, Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Os outros dez integrantes ocupam vagas temporárias.

Para avançar, um candidato precisa construir apoio dentro desse grupo e evitar o veto de qualquer um dos cinco membros permanentes.

Depois dessa etapa, o Conselho de Segurança recomenda formalmente um nome à Assembleia Geral da ONU, composta pelos 193 Estados-membros. A Assembleia é responsável pela nomeação.

América Latina busca voltar ao comando da organização

A sucessão de Guterres também reacendeu uma discussão sobre representação regional e de gênero na liderança das Nações Unidas.

Desde a criação da organização, em 1945, nenhuma mulher ocupou a Secretaria-Geral.

A América Latina teve apenas um secretário-geral. O diplomata peruano Javier Pérez de Cuéllar comandou a ONU entre 1982 e 1991.

Bachelet utilizou esses dois elementos como parte de sua campanha. Mesmo ao anunciar a desistência, defendeu que a próxima liderança seja ocupada por uma mulher latino-americana.

A ex-presidente afirmou que sua candidatura contribuiu para colocar essa discussão no processo sucessório, apesar de não ter conquistado apoio suficiente para continuar na disputa.

A saída de Bachelet ocorre justamente quando a sucessão entra em uma fase decisiva. Guterres ocupa o cargo desde janeiro de 2017 e deixará a Secretaria-Geral no final deste ano após completar dois mandatos de cinco anos.

Conselho de Segurança concentra poder de decisão

Embora a escolha termine formalmente na Assembleia Geral, a etapa decisiva ocorre no Conselho de Segurança.

O mecanismo dá aos cinco membros permanentes uma influência determinante sobre a sucessão. Um candidato que enfrente oposição de Estados Unidos, China, Rússia, França ou Reino Unido dificilmente consegue avançar para a indicação formal.

Por isso, as consultas informais funcionam como um processo de filtragem. Candidatos com baixo apoio tendem a abandonar a disputa à medida que as rodadas avançam, enquanto os nomes com maior capacidade de consenso permanecem.

Foi nesse contexto que Bachelet decidiu retirar sua candidatura após o resultado da terceira consulta.

Neste domingo (20), a disputa prossegue com sete candidatos e ainda existe a possibilidade de entrada de novos nomes. O Conselho de Segurança deverá continuar as negociações até chegar a um candidato capaz de reunir o apoio necessário para ser recomendado à Assembleia Geral e assumir a Secretaria-Geral a partir de 2027.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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