Avanço dos incêndios e aumento dos extremos climáticos pressionam a floresta, enquanto Manaus volta a enfrentar episódios de forte poluição do ar provocada pela fumaça
A combinação entre queimadas, temperaturas elevadas, déficit hídrico e irregularidade das chuvas voltou a colocar a Amazônia no centro das preocupações ambientais. No Amazonas, o avanço dos focos de calor já provoca efeitos que ultrapassam as áreas atingidas pelo fogo e chegam à capital, onde a fumaça tem comprometido a qualidade do ar.
Em Manaus, episódios de forte concentração de material particulado foram registrados ao longo de setembro. No dia 17, a Defesa Civil Municipal informou que a concentração média de partículas finas MP2,5 chegou a 94,7 microgramas por metro cúbico, nível classificado como muito ruim. Na ocasião, a fumaça estava associada principalmente a queimadas em municípios da Região Metropolitana, entre eles Itacoatiara, Careiro da Várzea, Iranduba e Manacapuru.
Dias antes, em 9 de setembro, o monitoramento havia registrado concentração de MP2,5 de 87,6 microgramas por metro cúbico. Segundo a Defesa Civil, naquele episódio a fumaça era transportada de áreas de queimadas localizadas no sul do Amazonas, norte de Mato Grosso e Rondônia.
A situação levou a Secretaria Municipal de Saúde a recomendar cuidados adicionais, principalmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares. A exposição à fumaça, combinada às altas temperaturas, pode provocar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, além de agravar problemas pulmonares e cardíacos.
Queimadas avançam no Amazonas
O aumento dos incêndios também provocou uma reação dos órgãos de controle. Em 15 de setembro, o Ministério Público de Contas do Amazonas encaminhou representação à Procuradoria-Geral da República solicitando avaliação de medidas diante do avanço das queimadas e dos impactos sobre a qualidade do ar.
Dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais citados pelo MPC mostram que o Amazonas registrou 3.908 focos entre 1º de janeiro e 9 de setembro deste ano. No mesmo período de 2025 foram 2.643, o que representa crescimento de aproximadamente 47%.
A concentração das ocorrências no início deste mês também chamou a atenção. Somente entre os dias 1º e 9 de setembro foram identificados 1.377 focos, número 46% superior ao registrado durante todo o mês de setembro de 2025. Municípios como Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré e Lábrea estão entre as áreas apontadas como mais preocupantes.
Floresta enfrenta aumento dos extremos climáticos
O avanço do fogo ocorre simultaneamente a mudanças nas condições climáticas da Amazônia.
Um estudo internacional com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais identificou aumento acelerado das temperaturas extremas e do déficit hídrico, principalmente na região centro-norte do bioma. O trabalho reuniu 53 cientistas e analisou as transformações ocorridas entre 1981 e 2023. Os resultados foram publicados em setembro na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature Portfolio.
Os pesquisadores observaram que as mudanças não se limitam ao aumento da temperatura média. Eventos extremos estão se tornando mais frequentes e intensos, ampliando a pressão sobre ecossistemas que dependem da disponibilidade de água e de padrões relativamente regulares de precipitação.
A seca dos rios também preocupa. O Ministério da Saúde informou neste mês que o El Niño está em nível forte e que os modelos climáticos apontam alta probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte. Para a Região Norte, um dos principais impactos é a redução dos níveis dos rios, situação que pode dificultar inclusive o acesso de comunidades amazônicas aos serviços de saúde.
O alerta sobre o ponto de não retorno
Nesse cenário, ganha força uma discussão que há anos mobiliza pesquisadores da Amazônia. O chamado ponto de não retorno descreve uma situação em que alterações provocadas pelo desmatamento, aquecimento, fogo e mudanças no regime de chuvas poderiam reduzir profundamente a capacidade de recuperação de partes da floresta.
Isso não significa que toda a Amazônia esteja prestes a desaparecer de forma repentina. O conceito está relacionado à possibilidade de determinados mecanismos que sustentam o funcionamento da floresta perderem força progressivamente.
A preocupação envolve um ciclo de retroalimentação. A floresta libera grandes quantidades de água para a atmosfera por meio da evapotranspiração, contribuindo para a formação de chuvas. Com a perda de vegetação e o aumento das temperaturas, esse transporte de umidade pode ser afetado. Menos chuva favorece períodos secos mais intensos, que tornam a vegetação mais vulnerável ao fogo e à mortalidade de árvores.
Incêndios recorrentes acrescentam pressão a esse sistema. Áreas queimadas podem perder árvores e biomassa, tornando-se mais suscetíveis a novos episódios de fogo e reduzindo sua capacidade de armazenar carbono.
A ciência, entretanto, ainda trabalha com diferentes cenários sobre a extensão, a velocidade e os limites desse processo. Por isso, o ponto de não retorno não deve ser interpretado como uma data determinada para um colapso de toda a floresta.
Fumaça torna crise ambiental visível na capital
Para quem vive em Manaus, parte dos efeitos dessa combinação de fatores já pode ser percebida no cotidiano.
No dia 17 de setembro, medições do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas, registraram concentrações de material particulado superiores a 120 microgramas por metro cúbico em pontos da cidade. Moradores relataram cheiro intenso de fumaça, dores de cabeça, cansaço e ressecamento das vias respiratórias.
A fumaça transforma um problema que muitas vezes ocorre a centenas de quilômetros dos grandes centros urbanos em uma questão diretamente relacionada à saúde pública.
O cenário observado em setembro reforça a conexão entre clima, floresta, rios, queimadas e qualidade de vida na Amazônia. Mais do que um problema restrito às áreas onde o fogo avança, a intensificação dos extremos climáticos mostra que alterações no funcionamento do bioma podem produzir consequências ambientais, econômicas e sociais em diferentes escalas.

