Produtoras mostram como frutas, verduras, plantas e alimentos cultivados nas comunidades rurais ajudam a gerar renda e abastecer as cidades; participação em grandes feiras amplia a visibilidade e a comercialização
A agricultura familiar ocupa uma posição que vai muito além da pequena propriedade. É nas comunidades rurais que agricultores plantam, colhem, organizam a produção e fazem chegar ao consumidor uma diversidade de alimentos que inclui frutas, verduras, raízes e produtos beneficiados. Para muitas famílias, a atividade representa trabalho, sustento e uma relação construída diariamente com a terra.
No Amazonas, as distâncias e as dificuldades de transporte tornam esse caminho ainda mais desafiador. Não basta produzir: é preciso conseguir levar os alimentos das propriedades e comunidades até feiras e outros pontos de comercialização, onde os agricultores possam encontrar diretamente seus consumidores.
Durante a 48ª Expoagro, esse segmento também ganhou espaço. Entre animais de genética selecionada, máquinas agrícolas e grandes empresas do setor, agricultores familiares apresentaram uma produção de escala menor, mas fundamental para mostrar a diversidade existente no campo amazonense.
Waldeângela de Souza Batista, agricultora familiar da comunidade Ariedo, localizada no ramal 26 da BR-174, foi uma das produtoras que participou da feira levando produtos cultivados por ela e também por outros agricultores da comunidade.
“Trouxe plantas, verduras, pitaia, caldo de cana, de tudo um pouco”, contou.
A banca, na verdade, representava um trabalho coletivo. Waldeângela explicou que parte dos produtos era de sua própria produção, enquanto outros haviam sido enviados por agricultores da comunidade Ariedo para serem comercializados durante o evento.
“As plantas e a banana são nossas. As verduras são de outro produtor, a pitaia é de outro produtor e o caldo de cana também. Cada produtor mandou um pouco para eu trazer”, explicou.
Uma banca que representa vários produtores
A experiência de Waldeângela ajuda a revelar uma característica importante da agricultura familiar: muitas vezes, a comercialização de uma única banca envolve o trabalho de diversas famílias.
Nem todos os agricultores conseguem deixar suas propriedades para participar de grandes eventos. Dessa forma, reunir produtos e levá-los coletivamente para um ponto de venda permite ampliar as possibilidades de comercialização.
Waldeângela conta que a participação em feiras já faz parte da rotina de sua comunidade e que os produtores costumam ser convidados para esses espaços.
Para ela, estar diante de um público maior significa também apresentar uma produção que normalmente permanece mais próxima das comunidades e das feiras locais.
Na Expoagro deste ano, a agricultora percebeu um movimento diferente de outras edições das quais participou, mas avaliou positivamente as vendas realizadas.
“Estou achando este ano um pouco diferente das outras que já participei, mas é assim mesmo. Graças a Deus, estou vendendo”, afirmou.

Da propriedade para a cidade
A dificuldade de fazer a produção chegar ao mercado também aparece na experiência da agricultora familiar Meirijane Ferreira, da comunidade Olhos de Águia, na BR-174, pertencente ao município de Rio Preto da Eva.
Produtora, ela trabalha com diferentes culturas e levou parte dessa produção para apresentar e comercializar na feira.
Na comunidade Olhos de Águia, Meirijane trabalha com diferentes culturas e levou parte dessa produção para apresentar e comercializar na feira. Segundo ela, entre os alimentos produzidos estão macaxeira, abacaxi, banana e verduras, além de outros produtos cultivados na comunidade.
A participação em eventos como a Expoagro representa uma oportunidade de divulgar o trabalho realizado no campo e, principalmente, gerar renda para as famílias envolvidas na produção.
“Estamos aqui divulgando o nosso trabalho de produtor rural”, contou.
Na banca, Meirijane também levou produtos como macaxeira, ovos e abacate.
A diversidade demonstra uma das características da agricultura familiar: uma mesma propriedade pode trabalhar simultaneamente com diferentes culturas e alimentos, diversificando tanto aquilo que chega à mesa do consumidor quanto as fontes de renda da família.

Transporte ainda é parte do desafio
Entre plantar e vender existe uma etapa decisiva: transportar a produção.
No Amazonas, esse processo pode determinar se o produto conseguirá ou não chegar ao consumidor em condições adequadas e por um preço que compense o trabalho do agricultor.
Meirijane destacou justamente a importância de conseguir meios para transportar aquilo que é produzido nas comunidades até os locais de venda.
Para agricultores que trabalham em menor escala, os custos e a disponibilidade de transporte podem pesar significativamente. Frutas, verduras e outros alimentos perecíveis ainda precisam chegar rapidamente ao mercado, o que aumenta a necessidade de organização entre os produtores.
Por isso, feiras e iniciativas coletivas tornam-se importantes não apenas como espaços de venda, mas como pontos de encontro entre produção e consumo.
Visibilidade também gera oportunidade
A presença da agricultura familiar em uma exposição agropecuária ajuda ainda a ampliar a percepção sobre o que compõe o setor rural.
Enquanto animais de alto valor genético e grandes equipamentos naturalmente atraem a atenção do público, a agricultura familiar mostra outra dimensão da atividade: aquela construída diariamente em pequenas propriedades, com participação direta das famílias e produção diversificada.
Para Waldeângela, levar produtos de diferentes agricultores também significa dar visibilidade a quem permaneceu trabalhando na comunidade.
Cada banana, verdura, pitaia ou planta colocada na banca carrega uma cadeia de trabalho que começou muito antes da abertura da feira — no preparo da terra, no plantio, nos cuidados com a cultura e na colheita.
A venda direta permite ainda reduzir a distância entre quem produz e quem consome. O visitante pode conhecer a origem dos alimentos, conversar com o agricultor e compreender melhor a realidade de quem vive da produção rural.
Valorizar quem produz
Fortalecer a agricultura familiar passa por criar condições para que produzir também seja economicamente viável. Isso envolve acesso a assistência técnica, organização dos agricultores e, especialmente, canais de comercialização e condições para escoar a produção.
Para produtoras como Waldeângela e Meirijane, ocupar uma banca em uma grande feira representa justamente uma dessas oportunidades.
São agricultores que chegam carregando aquilo que conseguiram produzir — às vezes não apenas o que saiu de suas próprias terras, mas também a produção dos vizinhos e de outras famílias da comunidade.
Na 48ª Expoagro, entre grandes negócios e diferentes segmentos da pecuária amazonense, as bancas da agricultura familiar lembraram uma parte essencial do campo: antes de chegar à feira, ao mercado ou à mesa do consumidor, cada alimento começa com alguém que planta, cuida, colhe e precisa encontrar condições para viver do próprio trabalho.
Texto e Fotos: Beatriz Costa

