Mostra fotográfica reúne imagens produzidas ao longo de 35 anos de convivência com comunidades indígenas de diferentes regiões da Amazônia e do Brasil
O Restaurante Tio Armênio, no Manauara Shopping, recebe a exposição fotográfica do indigenista e fotógrafo Renato Soares, um convite para mergulhar na diversidade cultural e na ancestralidade dos povos originários do Brasil. A mostra reúne imagens registradas ao longo de 35 anos de convivência do fotógrafo com etnias do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, com os Kayapó, no Pará, os Yanomami, no Amazonas, entre outros povos que preservam saberes fundamentais para a história e a identidade brasileira.
As fotografias retratam momentos do cotidiano, tradições, expressões culturais e modos de vida que resistem ao tempo e às transformações da sociedade contemporânea. Produzidas em aldeias localizadas em regiões remotas do país, as imagens revelam aspectos pouco conhecidos da realidade indígena e aproximam o público urbano de culturas frequentemente retratadas de forma superficial.


A filósofa, socióloga e advogada Núbia Pinheiro destaca que a exposição também contribui para desconstruir estereótipos sobre os povos indígenas, especialmente aqueles que vivem em contextos urbanos.
“O indígena que vive na cidade não deixa de ser indígena. Ele continua pertencendo ao seu povo, à sua cultura e à sua ancestralidade. O que acontece é que ele aprende a dialogar com outros espaços e outras realidades, mas sua identidade permanece. A ancestralidade não se perde, ela acompanha a pessoa onde quer que ela esteja”, afirma.
Segundo Núbia, compreender essa permanência cultural é fundamental para ampliar o respeito à diversidade dos povos originários e reconhecer que identidade não está limitada a um território específico.


Para a estilista e pesquisadora da cultura indígena Eva Mura, a exposição oferece uma oportunidade rara de contato com uma realidade muitas vezes distante da vida cotidiana das cidades.
“É muito importante quando um fotógrafo consegue trazer para nós a realidade vivida dentro das comunidades. Muitas vezes vemos apenas uma visão superficial dos povos indígenas. As fotografias nos permitem enxergar a riqueza da ancestralidade, da cultura e das experiências que continuam vivas nesses territórios”, observa.
Eva ressalta que as imagens também despertam reflexões sobre conhecimentos e valores que foram sendo perdidos ao longo do processo de urbanização da sociedade brasileira.


A relação entre a identidade visual do restaurante e os elementos culturais da região também chamou a atenção dos visitantes. A maitre Karen Barbosa, que acompanhou a montagem da exposição, explica que a valorização da cultura amazônica faz parte da proposta do espaço.
“O restaurante procura dialogar com a cultura local. Embora tenha origem nordestina, cada unidade incorpora características da região onde está instalada. Aqui no Norte, buscamos valorizar elementos da nossa identidade, da nossa culinária e também referências ligadas aos povos indígenas e à cultura amazônica”, explica.


A cuidadora de animais Josieli Nascimento, que visitou a mostra, destaca a importância da presença de representações indígenas nos espaços urbanos.
“Muitas pessoas vivem nas cidades sem conhecer a verdadeira história dos povos indígenas ou a importância deles para a formação do nosso país. Ver essa exposição em um local de grande circulação ajuda a aproximar as pessoas dessa realidade e reforça que os povos originários continuam presentes, contribuindo para a sociedade e preservando conhecimentos fundamentais para o futuro”, afirma.

A mostra também presta homenagem ao cacique Afukaka Kuikuro, uma das mais importantes lideranças indígenas do Alto Xingu, falecido em 15 de junho. Reconhecido por sua sabedoria, dedicação à preservação cultural e defesa dos povos originários, Afukaka integrou a geração de lideranças que conviveu com os irmãos Villas-Bôas e contribuiu para a consolidação da proteção dos povos do Parque Indígena do Xingu. Sua trajetória inspira gerações e reforça a importância da memória, da resistência e da continuidade dos saberes ancestrais.
Reconhecido por seu trabalho junto aos povos indígenas, Renato Soares apresenta, por meio da fotografia, um olhar construído a partir da convivência, do respeito e da escuta. As imagens expostas revelam não apenas rostos e paisagens, mas histórias, memórias e formas de viver que seguem resistindo em meio aos desafios enfrentados pelos povos originários.

Após receber mais de 50 mil visitantes durante a COP30, em Belém, a exposição chega a Manaus levando ao público a oportunidade de conhecer um Brasil profundo, ancestral e ainda pouco compreendido por grande parte da sociedade.
A exposição permanece em cartaz até o dia 1º de julho, no Restaurante Tio Armênio, no Manauara Shopping. A expectativa é que o público manauara tenha a oportunidade de conhecer, por meio das lentes de Renato Soares, a riqueza cultural, a ancestralidade e a diversidade dos povos originários que ajudam a construir a história do Brasil.
Texto e fotos: Beatriz Costa

