Em estado de alerta, meteorologistas acompanham avanço do El Niño na Amazônia

O aquecimento das águas do Oceano Pacífico colocou meteorologistas em estado de alerta para a possível formação de um novo episódio do El Niño nos próximos meses. Embora o fenômeno ainda não esteja oficialmente configurado, os modelos climáticos indicam alta probabilidade de desenvolvimento ao longo do segundo semestre de 2026, o que mantém especialistas atentos aos possíveis impactos sobre a Amazônia e outras regiões do Brasil.

Segundo o meteorologista e subcoordenador de Hidrologia do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LABCLIM) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Leonardo Vergasta, a região do Niño 3.4, principal área de monitoramento do Pacífico Equatorial para avaliação dos impactos climáticos globais, permanece em condição de neutralidade, com anomalias próximas de +0,7°C desde esta segunda-feira (08) – esteve em +0,5°C nas duas semanas anteriores. Apesar disso, já há um aquecimento significativo das águas superficiais do oceano.

De acordo com projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe alta probabilidade de transição para um evento de El Niño durante o trimestre junho-julho-agosto. Inicialmente, a expectativa é de um fenômeno entre fraco e moderado, com possibilidade de fortalecimento gradual ao longo do segundo semestre deste ano e início de 2027.

Vergasta ressalta que ainda existem muitas incertezas sobre a intensidade máxima que o fenômeno poderá atingir. Isso ocorre porque sua evolução depende de diversos fatores oceânicos e atmosféricos, entre eles o comportamento dos ventos alísios, da circulação atmosférica tropical e das condições térmicas do oceano Atlântico Tropical, que exercem influência direta sobre o regime de chuvas na Amazônia.

Em escala continental, os impactos do El Niño costumam ser amplos na América do Sul. O fenômeno geralmente favorece a redução das chuvas e o aumento das temperaturas no Norte do continente e em parte da Amazônia. Em contrapartida, o Sul do Brasil, o Uruguai e o norte da Argentina tendem a registrar precipitações acima da média. Já na costa oeste sul-americana, especialmente no Peru e no Equador, eventos mais intensos podem provocar chuvas excessivas, alagamentos e enchentes.

Na Amazônia, entretanto, os efeitos não seguem um padrão uniforme. O meteorologista lembra que nem todo El Niño forte resulta necessariamente em uma seca extrema em toda a região. Como exemplo, cita o super El Niño de 2015/2016, quando o oeste amazônico registrou cheias expressivas, enquanto áreas do leste da Amazônia, especialmente no Pará e no leste do Amazonas, enfrentaram condições mais secas.

Essa diferença de comportamento evidencia a complexidade climática da região amazônica, onde os impactos dependem não apenas do Pacífico, mas também da interação com o Atlântico Tropical e os sistemas atmosféricos regionais.

Apesar da atenção dos especialistas, as análises e projeções mais recentes do Labclim/UEA indicam que, neste momento, não há sinais de uma estiagem tão severa quanto a observada em 2023 e 2024, quando a Amazônia enfrentou uma das secas mais intensas de sua história recente. Ainda assim, os pesquisadores mantêm o monitoramento permanente das condições oceânicas e atmosféricas.

“O sinal mais consistente hoje é o aumento da probabilidade de formação do El Niño. No entanto, ainda não é possível determinar com segurança a intensidade do fenômeno nem a magnitude dos impactos que poderá causar na Amazônia”, destaca Vergasta.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que os próximos meses serão decisivos para confirmar a consolidação do fenômeno e avaliar seus possíveis reflexos sobre os rios, a disponibilidade hídrica, a ocorrência de queimadas e o regime de chuvas na maior floresta tropical do planeta.

Variação 

A meteorologista e consultora climática Andrea Ramos também observa que os efeitos do El Niño costumam variar significativamente entre as regiões brasileiras. Segundo ela, o Sul do país tende a registrar chuvas acima da média, com maior risco de temporais, enchentes e deslizamentos, enquanto o Norte e partes do Nordeste geralmente enfrentam redução das chuvas, estiagens mais severas e aumento do risco de queimadas. No Centro-Oeste e no Sudeste, o fenômeno pode favorecer temperaturas mais elevadas e enfraquecer parte da estação chuvosa.

Ramos destaca que o episódio de El Niño de 2023/2024 esteve associado a secas importantes em áreas da Amazônia e do Nordeste. No entanto, ela ressalta que ainda não é possível afirmar se o próximo evento produzirá impactos semelhantes. “Existe risco de agravamento da estiagem, mas a evolução desse cenário dependerá da intensidade efetiva do fenômeno e do grau de acoplamento entre oceano e atmosfera, algo que ainda permanece em aberto nos principais centros de monitoramento climático”, afirma.

Post Author: Michelle Portela

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