ONS avalia possibilidade de acionar todas as termelétricas em cenário desfavorável; previsões de chuva exigem atenção também do setor agropecuário
O avanço do El Niño e seus possíveis efeitos sobre o regime de chuvas colocaram o setor elétrico brasileiro em cenário de atenção. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) avalia que, diante de condições hidrológicas desfavoráveis combinadas ao aumento da demanda por energia, poderá ser necessário acionar a totalidade dos recursos termelétricos e utilizar a reserva de potência operativa a partir de setembro de 2026. A medida é uma possibilidade considerada no planejamento, e não uma decisão de acionamento integral já confirmada.
O alerta foi apresentado ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que acompanha as condições de abastecimento do país. A preocupação está concentrada especialmente nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Norte, onde a evolução das chuvas e das vazões poderá influenciar a capacidade de geração hidrelétrica nos próximos meses.
Chuvas devem apresentar diferenças regionais
As projeções do ONS indicam que setembro poderá registrar precipitações acima da média nas bacias do Sul e próximas da média histórica no Sudeste/Centro-Oeste. No Norte, entretanto, as vazões apresentam perspectivas mais moderadas. O cenário reforça que os impactos do El Niño não são uniformes em todo o território brasileiro.
O boletim mensal da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), divulgado em 1º de setembro, aponta previsão de chuvas acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país durante o trimestre de setembro a novembro. Associadas às temperaturas elevadas, essas condições podem intensificar o déficit hídrico em parte do território.
Reservatórios e geração hidrelétrica
A redução das afluências, isto é, da quantidade de água que chega aos reservatórios, pode limitar a disponibilidade de energia hidrelétrica. Por isso, o ONS trabalha com diferentes cenários para definir a necessidade de geração complementar e preservar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Segundo a ANA, os reservatórios do SIN apresentavam, em 26 de agosto, armazenamento equivalente a 69,5% da capacidade útil. O volume era 5,7 pontos percentuais inferior ao registrado em julho, mas ainda representava o segundo maior nível observado para aquela data desde 2015. O dado mostra que existe atenção à trajetória de redução, sem caracterizar, por si só, uma situação generalizada de escassez.
Nas simulações do ONS para o período entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, as afluências do sistema podem variar de 111% a 80% da média histórica, conforme os cenários mais favorável e menos otimista. A amplitude das projeções evidencia a incerteza climática e a necessidade de acompanhamento contínuo.
Reflexos para o agronegócio
A irregularidade das chuvas também exige atenção do setor agropecuário, especialmente em regiões onde o calendário de plantio e a disponibilidade de água dependem da regularização do período úmido. A distribuição das precipitações poderá influenciar decisões sobre semeadura, manejo de culturas e planejamento da irrigação.
Em áreas irrigadas, a redução da disponibilidade hídrica pode exigir maior controle do uso da água e revisão do planejamento operacional. Esses efeitos, contudo, dependem das condições de cada bacia, dos reservatórios utilizados e da evolução local das chuvas. O alerta do ONS não significa que haja restrição generalizada à irrigação ou risco confirmado de desabastecimento no campo.
A ANA recomenda que estados e municípios atualizem seus planos de contingência, fortaleçam o monitoramento e ampliem a articulação entre os setores responsáveis por recursos hídricos, meio ambiente e outras áreas afetadas por eventos climáticos extremos.
Monitoramento seguirá até 2027
O ONS deverá acompanhar mensalmente a transição entre os períodos seco e úmido, atualizando as recomendações ao CMSE conforme a evolução do fenômeno. O planejamento considera tanto a disponibilidade de água quanto o crescimento da demanda por energia e a necessidade de preservar a segurança operacional do sistema.
Para o agronegócio, o período reforça a importância do acompanhamento das previsões meteorológicas e hidrológicas regionais. A combinação entre clima, disponibilidade de água e demanda energética deverá permanecer no centro das decisões de planejamento da safra 2026/27.

