Secas prolongadas, queimadas e degradação florestal estão comprometendo o papel da floresta amazônica no equilíbrio climático. Pesquisas apontam que áreas do sudeste da região já apresentam comportamento de fonte de carbono, reforçando a preocupação científica às vésperas da COP31.
O alerta ganhou novos elementos com um estudo liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), publicado em 21 de outubro de 2026 na revista científica Nature.
A pesquisa analisou 15 anos de medições atmosféricas, entre 2010 e 2024, realizadas em quatro localidades da Amazônia brasileira. Os resultados mostram que o bioma apresentou um balanço médio de emissões de aproximadamente 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, considerando a diferença entre o carbono liberado e o absorvido.
As queimadas foram identificadas como a principal fonte de emissões, com aproximadamente 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ anuais. Em contrapartida, a absorção pela vegetação foi estimada em cerca de 300 milhões de toneladas por ano.
O resultado indica que a floresta já não consegue compensar o carbono liberado pelas atividades humanas, especialmente pelo desmatamento, pela degradação e pelo uso do fogo.
Sudeste da Amazônia concentra sinais de maior vulnerabilidade
Uma das regiões que mais preocupam os pesquisadores é o sudeste amazônico, onde a combinação de desmatamento, queimadas e alterações no regime de chuvas tem provocado mudanças significativas nas condições ambientais.
Segundo o estudo publicado na Nature, entre 1979 e 2024, essa região registrou aumento de 2,19 °C na temperatura durante o período mais intenso da estação seca. A elevação da temperatura média anual chegou a 1,37 °C.
Outro dado preocupante é a perda de cobertura florestal. Entre 2018 e 2024, o sudeste amazônico perdeu aproximadamente 37.930 quilômetros quadrados de floresta primária, o equivalente a 62% do desmatamento registrado na Amazônia brasileira no período analisado.
O aquecimento e a redução da cobertura vegetal tornam a floresta remanescente mais vulnerável ao estresse hídrico, à mortalidade de árvores e à propagação do fogo.
É importante distinguir os resultados regionais: o estudo identifica o sudeste como uma das áreas de maior aquecimento e pressão ambiental, enquanto o balanço de emissões de 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ corresponde à Amazônia brasileira analisada como um todo.
Secas e queimadas criam ciclo de degradação
A pesquisa também demonstra que o estresse climático e a ação humana atuam conjuntamente, ampliando os danos à floresta.
Os cientistas identificaram três cenários distintos durante os 15 anos de observação:
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Anos mais chuvosos (2011 a 2018): apresentaram menores níveis de desmatamento e queimadas, com impacto mais reduzido no balanço de carbono.
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Período de 2019 a 2022: mesmo sem condições extremas de seca, o aumento do desmatamento e das queimadas elevou significativamente as emissões.
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Anos de 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024: marcados por temperaturas elevadas e condições de seca, registraram os maiores níveis de emissões, agravados por fenômenos como El Niño e o aquecimento do Atlântico Tropical Norte.
O levantamento também identificou que, ao longo de 46 anos, o desmatamento e a degradação reduziram em 8% a precipitação anual da Amazônia. Durante o auge da estação seca, entre agosto e outubro, a redução chegou a 20%.
Esse processo cria um ciclo de retroalimentação: menos árvores significam menor evapotranspiração, redução da umidade atmosférica e alterações no regime de chuvas. Com temperaturas mais elevadas e períodos secos prolongados, aumenta o risco de incêndios, que provocam novas perdas de vegetação e liberam ainda mais carbono.
Consequências ultrapassam os limites da floresta
A perda da capacidade de absorção de carbono da Amazônia representa um risco que vai além da conservação da biodiversidade. A floresta exerce influência sobre o clima regional e global, participa da regulação do ciclo hidrológico e contribui para o armazenamento de grandes quantidades de carbono.
Quando a vegetação perde sua capacidade de absorção, uma parcela maior do CO₂ permanece na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global.
As alterações no regime de chuvas também podem afetar a agricultura, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento de água e as condições de vida das populações amazônicas.
A degradação florestal, portanto, representa simultaneamente um problema ambiental, econômico e social, especialmente para comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais.
Alerta científico aumenta pressão sobre a agenda da COP31
Os resultados chegam em um momento importante para as negociações climáticas internacionais. Na COP31, em Antália, o Brasil pretende dar continuidade à agenda de implementação iniciada em Belém, com destaque para o financiamento climático, a transição energética e a proteção das florestas.
O enfraquecimento da capacidade de absorção de carbono da Amazônia reforça a necessidade de transformar compromissos de conservação em medidas concretas.
Entre as prioridades apontadas pela pesquisa estão o desmatamento zero, o controle rigoroso das queimadas e a restauração de áreas degradadas. Os pesquisadores também destacam a importância de manter investimentos em monitoramento científico e em políticas públicas de longo prazo.
O estudo ressalta que a redução drástica do fogo é essencial para evitar mudanças potencialmente irreversíveis no funcionamento da floresta.
O desafio colocado para a COP31 é ampliar a cooperação internacional e garantir recursos para ações de proteção florestal, especialmente em regiões que apresentam maior vulnerabilidade climática.
A Amazônia não é apenas uma área de conservação ambiental: seu funcionamento está diretamente relacionado ao equilíbrio climático do planeta. A perda de sua capacidade de absorver carbono representa, portanto, um sinal de alerta sobre os limites de degradação que o maior bioma tropical do mundo pode suportar.

