Valorização em Chicago e prêmios firmes sustentam os preços no mercado brasileiro, enquanto produtores iniciam a safra 2026/27 pressionados pelos fertilizantes e pelo risco de El Niño
A forte valorização da soja no mercado internacional já se reflete no campo brasileiro. Com a Bolsa de Chicago operando acima dos US$ 13 por bushel, estoques mais curtos e prêmios firmes nos portos, os preços físicos da oleaginosa renovaram máximas dos últimos anos no Brasil, abrindo uma janela favorável para a comercialização.
O movimento ocorre em um momento decisivo para os produtores. Enquanto as cotações oferecem oportunidades de venda, começa o plantio da safra 2026/27, marcado por custos elevados de produção e incertezas climáticas que podem reduzir as margens mesmo diante de preços mais favoráveis.
No mercado internacional, os principais contratos da soja registraram fortes ganhos nas últimas sessões. Em Chicago, o vencimento novembro chegou à região de US$ 13,30 por bushel, enquanto contratos posteriores avançaram ainda mais. A combinação entre demanda chinesa, valorização do petróleo e incertezas sobre a oferta internacional deu sustentação às cotações.
No Brasil, o impacto é reforçado pelos estoques mais enxutos e pelos prêmios pagos nos portos. Esse conjunto de fatores levou os preços físicos a novos patamares e criou condições consideradas atrativas para que produtores avancem na comercialização.
O desafio é decidir quanto vender agora e quanto manter exposto a possíveis novas altas.
Fertilizantes pesam no orçamento
Se o preço da soja traz algum alívio, o custo para produzir a próxima safra segue como uma das maiores preocupações. Os fertilizantes estão entre os principais componentes dessa pressão e boa parte das compras para o novo ciclo já foi realizada.
Até o final de julho, aproximadamente 82% da demanda brasileira de fertilizantes para a soja já havia sido negociada. Em Sorriso, Mato Grosso, uma tonelada de fosfato monoamônico (MAP) correspondia a cerca de 45,3 sacas de soja, relação de troca 27,7% superior à média dos quatro anos anteriores.
Na prática, isso significa perda de poder de compra do produtor: é necessário entregar uma quantidade maior de soja para adquirir o mesmo volume de fertilizante.
O encarecimento não começou agora. Estimativas divulgadas ao longo do ano já apontavam a safra 2026/27 entre as mais caras dos últimos anos. Além dos adubos, despesas com combustíveis, defensivos, crédito e operações agrícolas aumentam a pressão sobre o custo por hectare.
Nesse cenário, uma cotação elevada da soja não significa necessariamente aumento equivalente da rentabilidade. O resultado financeiro dependerá da relação entre produtividade, preço obtido na venda e despesas acumuladas durante o ciclo.
Clima adiciona incerteza
Outra variável acompanha o produtor desde o início do plantio: o clima. A possibilidade de atuação do El Niño durante a temporada 2026/27 aumenta a preocupação com a distribuição das chuvas nas principais regiões produtoras.
Os efeitos não são uniformes. No Sul do país, o risco está associado principalmente a volumes excessivos de precipitação, que podem reduzir as janelas disponíveis para operações no campo, dificultar o manejo e aumentar a incidência de doenças.
Em outras regiões, irregularidades na distribuição das chuvas podem interferir no estabelecimento das lavouras e na produtividade. Qualquer perda de rendimento ganha importância adicional porque as projeções iniciais apontam para uma expansão relativamente pequena da área brasileira de soja.
As primeiras estimativas indicam uma área entre 49 milhões e 49,5 milhões de hectares, crescimento de apenas 0,3% a 1,2% em relação à temporada anterior. Com pouco avanço da área cultivada, o desempenho da próxima safra dependerá ainda mais da produtividade alcançada por hectare.
Preço alto abre janela para proteger margens
O cenário coloca a comercialização no centro das decisões. Apesar das condições mais favoráveis de preço, as vendas antecipadas da safra 2026/27 correspondem a aproximadamente 15% da produção estimada. O percentual está ligeiramente acima dos 14,5% registrados no mesmo período do ciclo anterior, mas permanece abaixo da média histórica, próxima de 21%.
A combinação de Chicago acima de US$ 13 por bushel e prêmios positivos nos portos brasileiros pode, portanto, representar uma oportunidade para que produtores protejam parte da receita antes mesmo da colheita.
A estratégia ganha relevância porque boa parte dos custos já está contratada. Ao vender uma parcela antecipadamente em momentos de preços considerados remuneradores, o produtor reduz sua exposição a eventuais quedas futuras das cotações.
Por outro lado, comprometer uma parcela excessiva da produção antes da definição do potencial das lavouras também envolve riscos, especialmente em uma temporada marcada por incertezas climáticas. O desafio passa a ser equilibrar proteção financeira e flexibilidade comercial.
A safra 2026/27 começa, assim, sob um aparente paradoxo: a soja vive um dos melhores momentos de preço dos últimos anos no mercado brasileiro, mas produzir o grão também ficou mais caro e arriscado.
Com custos elevados, possibilidade de El Niño e grande parte da produção ainda sem proteção comercial, o produtor terá menos espaço para erros. Mais do que perseguir a cotação máxima, a rentabilidade da próxima temporada dependerá da capacidade de aproveitar as atuais janelas de preço, controlar custos e preservar margem antes que as condições de mercado ou de clima mudem.

