Primeira médica do povo Kambeba alia ciência e tradição para transformar a saúde indígena na Amazônia

Depois de deixar Manaus e percorrer cerca de 4 mil quilômetros para estudar Medicina em Belo Horizonte, a indígena Adana Omágua Kambeba conquistou um feito histórico, tornou-se a primeira médica do povo Kambeba formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Agora, após concluir a graduação e retornar à Amazônia, ela vive uma nova etapa de sua missão: tornar-se também pajé e fortalecer a integração entre a medicina científica e os conhecimentos tradicionais indígenas.

A trajetória de Adana é marcada por desafios, resistência e compromisso com seu povo. Ingressar em uma das mais prestigiadas faculdades de Medicina do país significou deixar para trás a família, a floresta e a realidade amazônica para enfrentar quase uma década de estudos, adaptação cultural e superação de preconceitos em uma cidade distante de sua origem.

Foram nove anos de dedicação à formação médica, período que acabou sendo prolongado pela pandemia de Covid-19. Durante a crise sanitária, Adana atuou como voluntária em hospitais de Belo Horizonte e também em Manaus, experiência que reforçou sua convicção de que a saúde indígena precisa ser construída a partir do diálogo entre diferentes formas de conhecimento.

Uma missão que começou antes da universidade

Segundo a médica, sua escolha pela profissão nunca esteve ligada ao prestígio ou ao retorno financeiro. Desde muito jovem, ela compreendia que sua missão seria cuidar da saúde de seu povo, mas sem abandonar a espiritualidade e os saberes tradicionais transmitidos por seus ancestrais.

Ainda durante a graduação, Adana iniciou sua preparação para se tornar pajé. Diferentemente da formação universitária, esse processo não possui prazo definido. Trata-se de um aprendizado profundo, baseado em rituais, convivência com anciãos, conhecimentos sobre plantas medicinais, espiritualidade e práticas tradicionais que atravessam gerações.

Adana Omágua Kambeba, ao centro, durante o recebimento do diploma de Medicina na UFMG, em março de 2022, após aproximadamente nove anos de formação. Crédito: Divulgação/UFMG, via The Guardian.

Retorno à Amazônia

Depois de receber o diploma e registrar-se como médica, Adana decidiu voltar para a Amazônia. Sua intenção era colocar em prática tudo o que havia aprendido, mas sem romper os vínculos com sua identidade indígena.

Para ser reconhecida oficialmente como pajé entre os Kambeba, ela iniciou uma longa jornada pelas comunidades indígenas da região amazônica. O percurso envolve visitas a dezenas de aldeias — cerca de 35 a 40 comunidades, conforme diferentes relatos — onde apresenta sua trajetória, participa de rituais, recebe orientações de lideranças espirituais e fortalece sua ligação com a ancestralidade.

A expedição também permite que ela realize atendimentos médicos, converse com famílias indígenas e identifique demandas relacionadas ao acesso à saúde, prevenção de doenças, saúde mental, violência contra crianças e mulheres e valorização da medicina tradicional.

A integração entre dois mundos

Adana defende que não existe incompatibilidade entre a medicina científica e os conhecimentos indígenas. Para ela, ambas podem atuar de forma complementar, oferecendo um atendimento mais completo e respeitoso às comunidades tradicionais.

Segundo a médica, muitos tratamentos utilizados atualmente pela ciência tiveram origem em conhecimentos desenvolvidos por povos indígenas e tradicionais ao longo de séculos. Ela destaca que plantas medicinais, estudos etnobotânicos e pesquisas farmacológicas frequentemente partem de saberes ancestrais que, muitas vezes, não recebem o devido reconhecimento.

Sua proposta é atuar como uma ponte entre esses dois universos. De um lado, utilizar exames, diagnósticos e terapias baseadas em evidências científicas; de outro, preservar práticas tradicionais que fazem parte da cultura, da espiritualidade e da identidade dos povos indígenas.

Adana Omágua Kambeba participa de uma prática ritual durante sua preparação espiritual para ser reconhecida como pajé pelas comunidades de seu povo. Crédito: Marizilda Cruppe/The Guardian.

Reconhecimento histórico

A trajetória de Adana também abriu espaço para outros avanços inéditos. Ela foi a primeira médica brasileira a obter o registro profissional junto ao Conselho Federal de Medicina utilizando simultaneamente seu nome indígena e o nome de registro civil, reconhecimento considerado um marco para a valorização da identidade dos povos originários. Posteriormente, também passou a integrar iniciativas voltadas ao diálogo entre a medicina indígena e a medicina científica no âmbito do Conselho Federal de Medicina.

Além da atuação clínica, ela tem participado de debates nacionais sobre saúde indígena, defendendo políticas públicas que respeitem as especificidades culturais das comunidades tradicionais e promovam maior participação indígena na formulação das ações de saúde.

Representatividade para as novas gerações

A história de Adana Omágua Kambeba tornou-se símbolo da presença indígena nas universidades brasileiras e da luta pela valorização dos conhecimentos ancestrais. Sua formação rompe barreiras históricas de acesso ao ensino superior e demonstra que é possível conciliar a ciência produzida nas universidades com os saberes preservados pelas comunidades tradicionais.

Enquanto conclui sua formação espiritual para tornar-se pajé, a médica segue exercendo a profissão e reafirmando um propósito que a acompanha desde antes da graduação: cuidar da saúde de seu povo sem abrir mão da cultura, da identidade e da ancestralidade que definem a história dos Kambeba.

Fonte: Click Petróleo e Gás

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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