Pequenos agricultores enfrentam custos crescentes de produção e transporte. Organismos internacionais projetam pressão sobre os preços dos alimentos nos próximos meses, sobretudo em países de baixa renda.
A insegurança alimentar global voltou ao centro das discussões internacionais após as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas em outubro de 2026, em meio aos impactos econômicos do conflito no Oriente Médio. O aumento dos preços da energia, dos combustíveis e dos fertilizantes tem elevado os custos da produção agrícola e ampliado os riscos para as populações mais vulneráveis.
O alerta é reforçado por organismos das Nações Unidas, que apontam para a possibilidade de uma nova rodada de inflação dos alimentos. O cenário preocupa especialmente países que dependem da importação de combustíveis, insumos agrícolas e produtos alimentícios, além de famílias que destinam grande parte da renda à alimentação.
Em declaração conjunta divulgada em abril, dirigentes do FMI, do Banco Mundial e do Programa Mundial de Alimentos (PMA) advertiram que a alta dos preços da energia e dos fertilizantes, somada aos gargalos de transporte, tende a pressionar os preços dos alimentos e agravar a insegurança alimentar.
Pequenos agricultores estão entre os mais afetados
Os produtores de menor escala enfrentam dificuldades para absorver o encarecimento dos combustíveis, dos fertilizantes e dos serviços de transporte. Diferentemente de grandes empresas agrícolas, muitos dispõem de crédito limitado, menor capacidade de armazenamento e pouca margem financeira para enfrentar períodos prolongados de instabilidade.
Em entrevista à Agência France-Presse (AFP), o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Álvaro Lario, afirmou que os preços agrícolas mundiais aumentaram 13% no terceiro trimestre de 2026. Segundo ele, a tendência pode continuar nos próximos meses, com consequências mais severas para as famílias com menor poder de compra.
O aumento dos custos também modifica as decisões dos agricultores. Diante da incerteza, alguns podem reduzir a aplicação de fertilizantes, diminuir a área plantada ou substituir culturas que exigem mais investimento por outras com retorno financeiro mais rápido. Essas mudanças podem comprometer a produtividade e limitar a oferta de determinados alimentos.
Conflito no Oriente Médio pressiona a cadeia de abastecimento
A crise geopolítica tem repercussões que ultrapassam as fronteiras do Oriente Médio. As restrições ao transporte marítimo pelo Estreito de Hormuz afetam o comércio internacional de petróleo e fertilizantes, enquanto o aumento dos custos de energia encarece a fabricação de insumos e a movimentação de mercadorias.
A ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados no mundo, está entre os produtos expostos às interrupções logísticas. Quando o fornecimento diminui ou o transporte fica mais caro, os agricultores precisam pagar mais pelos insumos, o que pode afetar o planejamento das safras.
O problema é agravado por outros fatores, como as dificuldades de transporte no Mar Negro, as incertezas comerciais e os riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño. A combinação dessas pressões aumenta a vulnerabilidade dos sistemas alimentares e dificulta a recuperação de países que já enfrentam crises econômicas e humanitárias.
Em outubro, uma autoridade da ONU alertou que a falta de um acordo para viabilizar a passagem segura de fertilizantes pelo Estreito de Hormuz poderia provocar uma crise de segurança alimentar em partes da Ásia e da África, especialmente se o atraso comprometer o calendário de plantio.
Famílias de baixa renda podem sentir os efeitos primeiro
A elevação dos preços agrícolas não chega de maneira uniforme aos consumidores. Em países de baixa renda, onde os gastos com alimentação representam uma parcela expressiva do orçamento familiar, aumentos relativamente pequenos podem obrigar as famílias a reduzir a quantidade ou a qualidade dos alimentos consumidos.
A pressão inflacionária pode atingir produtos básicos como arroz, trigo, óleos vegetais e outros itens essenciais. Quando a alta dos preços ocorre simultaneamente à redução da renda ou ao aumento do desemprego, cresce o risco de agravamento da desnutrição e de outras formas de privação alimentar.
O Banco Mundial também advertiu, em relatório publicado em março de 2026, que a crise no Oriente Médio elevava os riscos para os mercados agrícolas. O documento destacou o aumento expressivo dos preços dos fertilizantes e a possibilidade de que a redução de seu uso prejudicasse a produtividade das lavouras nos meses seguintes.
A situação é particularmente delicada em regiões que dependem de importações para abastecer seus mercados internos e que possuem recursos fiscais limitados para financiar subsídios ou programas de proteção social.
FMI e Banco Mundial enfrentam pressão por respostas
As reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, realizadas em Bangkok, na Tailândia, discutiram os efeitos dos conflitos internacionais, dos custos da dívida e dos choques econômicos sobre os países em desenvolvimento.
Apesar das discussões, uma análise da Reuters publicada em 18 de outubro apontou que as reuniões terminaram sem respostas novas e abrangentes para muitos dos problemas enfrentados pelas economias de baixa renda. O aumento do custo do endividamento e a inflação continuam limitando a capacidade de governos de financiar medidas de proteção à população.
O desafio das instituições é conciliar a estabilidade econômica com respostas emergenciais à crise alimentar. Entre as medidas discutidas internacionalmente estão o apoio financeiro direcionado às famílias vulneráveis, a ampliação do acesso dos agricultores a insumos e crédito e o fortalecimento das cadeias locais de produção e distribuição.
Perspectivas para os próximos meses
A evolução dos preços dos alimentos dependerá da duração das tensões geopolíticas, da normalização do transporte marítimo, da disponibilidade de fertilizantes e do comportamento das próximas safras. Condições climáticas desfavoráveis e eventuais restrições às exportações podem intensificar a pressão sobre os mercados.
Para reduzir os impactos, organismos internacionais defendem investimentos em irrigação, armazenamento, processamento local e acesso dos pequenos produtores aos mercados. A ampliação de programas de proteção social também é considerada importante para evitar que o encarecimento dos alimentos comprometa a nutrição das famílias de menor renda.
O alerta das Nações Unidas indica que a crise não se limita à inflação: ela envolve a capacidade de produzir, transportar e distribuir alimentos a preços acessíveis. Se os custos permanecerem elevados, os efeitos poderão se estender até 2027, ampliando a pressão sobre governos e organizações humanitárias.
A resposta à insegurança alimentar dependerá da combinação entre cooperação internacional, apoio aos pequenos agricultores e políticas públicas capazes de proteger o poder de compra das famílias mais vulneráveis.

