Poucas instituições brasileiras carregam uma trajetória tão intimamente ligada à Amazônia quanto o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Ao longo de quase sete décadas, o instituto tornou-se referência nacional e internacional na produção de conhecimento científico sobre a maior floresta tropical do planeta, reunindo pesquisadores de diversas áreas para compreender a biodiversidade, os impactos das mudanças ambientais, as relações entre sociedade e natureza e o desenvolvimento de tecnologias voltadas à região amazônica.
E esse trabalho ganha ainda mais relevância diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, da necessidade de conservação da biodiversidade e da busca por soluções sustentáveis capazes de promover desenvolvimento econômico aliado à preservação ambiental. Desde 2025, à frente da Coordenação-Geral de Pesquisa, Capacitação e Extensão desde 2025, o doutor Jorge Ivan Rebelo Porto acompanha diariamente essa engrenagem científica que movimenta centenas de profissionais e estudantes. Com quase quatro décadas de atuação no INPA, ele conhece como poucos a evolução da instituição e a dimensão do trabalho realizado em seus laboratórios, coleções científicas e programas de formação.
“O nosso papel é coordenar toda a área finalística da pesquisa do instituto”, resume. Segundo Jorge Porto, essa estrutura se organiza em quatro coordenações científicas que orientam praticamente toda a produção do conhecimento desenvolvida pelo INPA: Biodiversidade, Dinâmica Ambiental, Sociedade, Ambiente e Saúde e Tecnologia e Inovação. Cada uma possui gestão própria, mas atua de forma integrada, permitindo que pesquisas multidisciplinares sejam desenvolvidas para responder aos principais desafios da Amazônia.
Da genética de peixes à gestão da pesquisa
A história profissional do doutor Jorge Porto se entrelaça com a própria evolução científica do INPA. Natural de Santarém (PA), ele iniciou a formação em Biomedicina na Universidade Federal do Pará, ainda muito jovem. Durante a graduação descobriu a paixão pela ictiologia e pela genética, área que definiria a carreira.
Foi por indicação de professores que chegou a Manaus, em 1987, para realizar estágio no então laboratório de citogenética de peixes do INPA. O que seria uma etapa da formação transformou-se em uma trajetória de quase quarenta anos dedicada à pesquisa amazônica.
Ao longo desse período desenvolveu estudos com espécies de importância econômica, como tambaqui, pacu, matrinxã e pirarucu, acompanhando a evolução das técnicas de pesquisa, desde a citogenética até os estudos em DNA. “Foi um exercício pessoal. Eu comecei trabalhando com contagem de cromossomos e hoje atuo com bioeconomia e políticas públicas para a Amazônia”, destacou.
A própria formação também incluiu experiências internacionais, com estágio na França e doutorado-sanduíche na Texas A&M University, nos Estados Unidos, onde fortaleceu a cooperação científica internacional que caracteriza a atuação do instituto. Desde novo integrou a casa como pesquisador e hoje segue o legado na Coordenação Geral de Pesquisa, Extensão e Capacitação do INPA.
Uma ciência construída em rede
Muito além dos laboratórios, o trabalho desenvolvido pelo INPA envolve uma extensa comunidade científica. Atualmente, a instituição reúne cerca de 180 pesquisadores e tecnologistas, além de aproximadamente 170 técnicos especializados. Entre os pesquisadores, mais de 95% possuem doutorado, demonstrando o elevado nível de qualificação da equipe científica.
A esse contingente somam-se bolsistas de programas de pesquisa, pós-doutorandos e centenas de estudantes matriculados nos programas de mestrado e doutorado. Ao todo, o universo científico ligado ao instituto ultrapassa 500 pesquisadores, estudantes e profissionais, todos envolvidos em diferentes etapas da produção do conhecimento.
“O INPA não se resume aos servidores. Existe toda uma comunidade científica formada por bolsistas, pós-doutorandos e estudantes que também produz ciência diariamente”, explica Jorge Porto.
Mais de 600 pesquisas em andamento
Os números ajudam a dimensionar a importância da instituição.
De acordo com os dados mais recentes, mais de 600 projetos de pesquisa são executados anualmente pelo INPA. Esses estudos abrangem desde genética de organismos amazônicos até mudanças climáticas, recursos pesqueiros, saúde pública, bioeconomia, tecnologia, manejo sustentável e conservação da biodiversidade.
Essa produção científica resulta em uma média superior a 600 publicações por ano, incluindo artigos científicos, capítulos de livros e outras produções acadêmicas.
Dessas publicações, cerca de 400 artigos são indexados nas principais bases científicas internacionais, como Scopus e Web of Science, indicadores utilizados mundialmente para avaliar a qualidade da produção científica das instituições de pesquisa.
Cooperação internacional fortalece a Amazônia
A ciência produzida no INPA ultrapassa as fronteiras brasileiras. Ao longo dos anos, a instituição consolidou parcerias com universidades e centros de pesquisa da França, Estados Unidos e diversos países amazônicos.
Um dos principais projetos atuais reúne Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Guiana e Suriname em uma rede internacional financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), voltada para biodiversidade e bioeconomia.
A iniciativa busca fortalecer a cooperação científica entre os países da Pan-Amazônia, promovendo intercâmbio de pesquisadores, desenvolvimento tecnológico e formação de recursos humanos especializados.
De acordo com Jorge Porto, muitos pesquisadores estrangeiros formados no INPA retornam aos seus países levando consigo o conhecimento produzido na Amazônia, ampliando a influência científica da instituição em toda a região.
Ciência que transforma conhecimento em soluções
Produzir conhecimento científico de excelência continua ser uma das principais missões do INPA. No entanto, segundo Jorge Porto, a instituição vive um momento em que a pesquisa busca dialogar cada vez mais com as demandas da sociedade, aproximando os resultados científicos da realidade das populações amazônicas.
Essa visão se liga diretamente ao conceito de tecnologia social, que consiste em transformar descobertas científicas em soluções capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem na região.
“Boa parte da pesquisa que fazemos resulta em artigos científicos destinados aos especialistas. Mas também precisamos responder às necessidades de quem está no território, de quem enfrenta os desafios do dia a dia na Amazônia”, explica. Na prática, isso significa desenvolver tecnologias que contribuam para o tratamento da água consumida por comunidades ribeirinhas, para o controle de doenças transmitidas por insetos, para o aumento da produtividade agrícola e para a criação de alternativas sustentáveis de geração de renda.
“Quem está no território quer saber como melhorar a produção, como proteger a saúde da família, como aproveitar melhor os recursos naturais. É para essas pessoas que parte das nossas pesquisas também precisa oferecer respostas”, afirma.
Essa aproximação entre ciência e sociedade tem orientado uma série de iniciativas desenvolvidas pelo instituto, fortalece o papel do INPA como produtor de conhecimento aplicado às necessidades da Amazônia.
Inovação e empreendedorismo impulsionam novas oportunidades
Outra frente estratégica coordenada por Jorge Porto é a área de inovação e empreendedorismo, responsável por estimular a transformação de pesquisas em produtos, processos e negócios capazes de gerar impacto econômico e social.
Por meio da incubadora de empresas, o INPA oferece suporte a empreendedores que desenvolvem soluções baseadas no conhecimento científico produzido na instituição. Atualmente, diversas startups encontram-se em processo de incubação, atuando em áreas como bioeconomia, biotecnologia, manejo florestal, turismo sustentável e crédito de carbono.
Entre os exemplos citados encontramos o desenvolvimento de um bioplástico produzido a partir de resíduos da mandioca, alternativa sustentável aos polímeros derivados do petróleo. Outro projeto transforma resíduos da indústria madeireira em painéis compactados de alta resistência, agregando valor a materiais que antes eram descartados.
“O objetivo é fazer com que a pesquisa saia do laboratório e chegue à sociedade, gerando desenvolvimento e novas oportunidades para a Amazônia”, destaca o coordenador. Ao longo dos últimos anos, o instituto também consolidou um importante patrimônio de inovação, com mais de 70 produtos e processos patenteados, resultado direto das pesquisas desenvolvidas por seus cientistas.
Conforme Jorge Porto, o desafio atual é ampliar a transferência dessas tecnologias para o setor produtivo, aproximando pesquisadores, empresas e investidores. “Nós queremos que esse conhecimento seja utilizado pela sociedade. Não basta produzir uma patente; é preciso fazer com que ela gere benefícios concretos para as pessoas”, completou.
Bioeconomia como estratégia para o desenvolvimento amazônico
A experiência acumulada na pesquisa científica levou Jorge Porto a ampliar a atuação para além dos laboratórios. Nos últimos anos, passou a contribuir diretamente com a construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Entre essas iniciativas está a participação na elaboração do Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas, documento que reúne estratégias para incentivar atividades econômicas baseadas no uso sustentável da biodiversidade.
Para o pesquisador, a bioeconomia representa uma oportunidade de transformar o conhecimento científico em desenvolvimento regional, conciliando conservação ambiental, geração de renda e inovação tecnológica.
“É uma mudança importante. Eu comecei trabalhando com cromossomos de peixes e hoje também atuo na construção de políticas públicas voltadas para a bioeconomia”, resume.
Quatro décadas dedicadas à Amazônia
Prestes a completar quatro décadas de atuação no INPA, Jorge Porto observa que a trajetória foi acompanhada pela própria transformação da instituição. Do jovem pesquisador que chegou a Manaus para estudar a genética de peixes amazônicos ao gestor responsável por coordenar centenas de projetos científicos, ele testemunhou a expansão da pesquisa, da pós-graduação e das parcerias internacionais.
Hoje, ao lado de pesquisadores, técnicos, estudantes e colaboradores, participa da construção de um instituto cada vez mais conectado aos desafios contemporâneos da Amazônia.
Mais do que produzir artigos científicos, o INPA consolida-se como uma instituição que forma pesquisadores, gera inovação, fortalece políticas públicas e amplia o diálogo entre ciência e sociedade.
Em um cenário em que a Amazônia ocupa posição estratégica nas discussões globais sobre biodiversidade, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, o instituto reafirma a missão de produzir conhecimento de excelência e contribuir para soluções que ultrapassam os limites da região, projetando a ciência amazônica como referência para o Brasil e para o mundo.
Repórter Especial: Isabelle Valois

