Pesquisa aponta árvores capazes de suportar ambientes degradados e criar condições para o retorno da biodiversidade; espécies podem ajudar a orientar projetos de restauração florestal
A capacidade da Amazônia de se recuperar após o desmatamento passa pela atuação de um grupo relativamente pequeno de árvores. Uma pesquisa brasileira identificou 18 espécies que aparecem de forma recorrente nas primeiras etapas de regeneração da floresta, desempenhando funções fundamentais para reconstruir as condições ambientais necessárias ao retorno de outras plantas.
O estudo analisou áreas de floresta secundária (vegetação que volta a crescer depois da retirada ou forte alteração da cobertura original) e constatou que determinadas espécies conseguem se estabelecer mesmo diante de condições adversas, como temperaturas elevadas, exposição direta ao sol e solos degradados ou compactados.
A descoberta pode contribuir para estratégias de recuperação de áreas degradadas na Amazônia, especialmente diante do desafio de restaurar territórios que perderam a cobertura vegetal ao longo de décadas.
Espécies preparam terreno para a floresta
Grande parte das árvores amazônicas depende de ambientes sombreados e de condições específicas para se desenvolver. Nas áreas recém-desmatadas, entretanto, essas características praticamente desaparecem.
É justamente nesse cenário que as espécies identificadas pela pesquisa ganham importância. Elas conseguem ocupar áreas abertas e iniciar um processo gradual de transformação do ambiente.
Ao crescerem, essas árvores produzem folhas que posteriormente caem e ajudam na formação de matéria orgânica e na melhoria das condições do solo. Suas copas também criam sombra e contribuem para reduzir a temperatura próxima ao chão.
Segundo o pesquisador Fernando Elias, que liderou o estudo com apoio do Instituto Serrapilheira, a diferença de temperatura entre uma área exposta diretamente ao sol e o interior da vegetação pode chegar a 3°C ou 4°C.
Com temperaturas mais baixas e um solo progressivamente enriquecido, espécies mais sensíveis passam a encontrar condições para germinar e crescer. Assim, a vegetação pioneira funciona como uma espécie de preparação do terreno para uma floresta mais diversa.
Padrão observado em diferentes regiões
Para compreender como ocorre esse processo, os pesquisadores analisaram 102 parcelas de florestas secundárias distribuídas por quatro regiões do leste da Amazônia.
Mesmo com uma distância média de aproximadamente 600 quilômetros entre as áreas estudadas, o grupo de espécies dominantes voltou a aparecer. A repetição do padrão reforça a hipótese de que essas árvores exercem um papel relevante no funcionamento da regeneração amazônica, e não apenas em determinadas localidades.
Entre as espécies com nomes populares mais conhecidos estão:
- Embaúba (Cecropia palmata);
- Araticum-bravo (Annona exsucca);
- Ingá-vermelho (Inga alba);
- Tatapiririca (Tapirira guianensis);
- Inajá (Attalea maripa).
A relação identificada pela pesquisa também inclui a castanheira-do-pará (Bertholletia excelsa), além de Attalea speciosa, Cassia fastuosa, Jacaranda copaia, Croton matourensis, Bellucia grossularioides, Inga edulis, Maprounea guianensis, Didymopanax morototoni, Sacoglottis guianensis, Himatanthus articulatus, Trattinnickia rhoifolia e Vismia guianensis.
Cada árvore desempenha uma função
Além da capacidade de resistir às condições adversas, algumas dessas espécies possuem características que aceleram a recuperação ambiental.
O ingá-vermelho, por exemplo, pertence ao grupo das leguminosas e, por meio da associação com microrganismos presentes nas raízes, contribui para a incorporação de nitrogênio ao sistema, favorecendo a fertilidade do solo.
Já o inajá exerce uma função ligada à fauna. Os frutos da palmeira atraem animais que, ao circular pelas áreas em recuperação, podem transportar sementes provenientes de outros trechos da floresta. Esse processo ajuda a aumentar gradualmente a diversidade vegetal.
Dessa maneira, a recuperação não depende apenas do crescimento individual das árvores. A vegetação modifica o microclima, interfere nas características do solo e restabelece interações entre plantas e animais.
Conhecimento pode orientar restauração florestal
A identificação dessas espécies abre possibilidades para aprimorar projetos de restauração. Como elas já demonstram capacidade natural de sobreviver nas condições encontradas após a degradação, podem servir de referência para definir quais árvores utilizar nas primeiras etapas de recuperação de determinadas áreas.
Isso não significa, entretanto, transformar o reflorestamento amazônico em plantações compostas apenas pelas 18 espécies.
Fernando Elias ressalta que elas são especialmente importantes para o funcionamento inicial da regeneração, mas a recuperação da Amazônia deve buscar a diversidade característica da floresta original.
A descoberta ganha relevância diante das metas brasileiras de restauração. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabelece como objetivo recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, considerando os diferentes biomas brasileiros.
Regeneração também ajuda no enfrentamento das mudanças climáticas
A restauração de áreas degradadas é considerada uma das estratégias para recuperar serviços ecossistêmicos e ampliar novamente a capacidade das florestas de armazenar carbono.
Dados divulgados para o período entre agosto de 2025 e julho de 2026 apontam que a Amazônia registrou 2.874 quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento, o menor resultado da série atual do sistema Deter, iniciada em 2016. Apesar da redução recente, permanece o passivo acumulado pela perda histórica de vegetação.
Nesse contexto, compreender os mecanismos naturais utilizados pela própria floresta para ocupar áreas degradadas pode tornar as ações de restauração mais eficientes.
As 18 espécies identificadas funcionam como uma espécie de linha de frente da regeneração amazônica: resistem ao ambiente hostil, recuperam gradualmente as condições do solo e do microclima e ajudam a abrir espaço para que uma floresta mais diversa volte a se estabelecer.
Mais do que revelar quais árvores aparecem primeiro, a pesquisa ajuda a compreender uma engrenagem fundamental da Amazônia: como a floresta começa a reconstruir a si própria depois da degradação.

