Embaixadora diz que relação entre Brasil e EUA vive “período incomum” em meio a tarifas e tensões diplomáticas

Maria Luiza Viotti afirma que recentes medidas norte-americanas colocam à prova mais de dois séculos de relações entre os países; diplomata defende diálogo e retomada de agenda pragmática

A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um “período incomum”, marcado por tensões comerciais e diplomáticas que colocam à prova uma parceria construída ao longo de mais de dois séculos. A avaliação foi feita nesta quarta-feira (9) pela embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, durante uma celebração da Independência do Brasil realizada na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em seu discurso, Viotti ressaltou a tradição de cooperação entre as duas nações, mas reconheceu que os acontecimentos dos últimos meses produziram um cenário atípico nas relações bilaterais.

“Brasil e Estados Unidos, como vocês sabem, desfrutam de mais de dois séculos de relações diplomáticas e de uma rica história de cooperação. Estamos, no entanto, atravessando um período incomum, que está colocando à prova essa longa tradição”, afirmou.

A manifestação ocorre depois de uma sequência de atritos entre Brasília e Washington, que envolve a imposição de novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros e medidas diplomáticas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump.

Apesar das divergências, a embaixadora indicou que a estratégia brasileira continua sendo manter abertas as vias diplomáticas.

“Nos últimos meses, houve uma série de medidas contra o Brasil e, ao longo de todo esse período, nossa postura tem sido consistentemente priorizar o diálogo, as negociações e a busca por soluções”, declarou.

Tarifas ampliam tensão comercial

Um dos principais pontos de atrito está no comércio exterior. Em julho, os Estados Unidos anunciaram duas novas sobretaxas que atingem parcelas das exportações brasileiras: uma adicional de 25%, decorrente de uma investigação específica sobre o Brasil, e outra de 12,5%, relacionada a uma investigação norte-americana sobre trabalho forçado nas cadeias globais de suprimentos.

Nos produtos atingidos simultaneamente pelas duas medidas, a sobretaxa acumulada chega a 37,5%.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), cerca de 16,5% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos estão sujeitas às duas medidas e, portanto, à tarifa adicional acumulada de 37,5%.

Nesse grupo estão produtos como máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Outras mercadorias estão submetidas apenas a uma das sobretaxas, enquanto 52,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos não são alcançadas pelas novas medidas da Seção 301 nem pelas tarifas setoriais da Seção 232, permanecendo sujeitas às tarifas ordinárias norte-americanas.

Entre os produtos que ficaram fora dessas novas sobretaxas estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, diversos produtos químicos e grande parte das exportações de celulose.

Comércio bilateral perde força

As tensões ocorrem em um momento de desaceleração das relações comerciais entre os dois países.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos alcançaram US$ 40,4 bilhões em 2024, mas recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, as vendas somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% na comparação com igual período do ano anterior.

Com isso, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período deste ano.

Em agosto, entretanto, houve uma reação: as exportações brasileiras aos Estados Unidos atingiram US$ 3,19 bilhões, crescimento de 12,1% em relação ao mesmo mês de 2025. Segundo o governo, o resultado foi impulsionado principalmente pela alta dos preços médios dos produtos exportados.

Tensão ultrapassa campo econômico

O momento delicado das relações bilaterais não está restrito ao comércio.

A própria Maria Luiza Viotti teve seu visto norte-americano revogado pelo governo Trump em agosto, adicionando um componente diplomático às divergências entre os dois países.

Mesmo diante da medida, a embaixadora adotou nesta quarta-feira um discurso de conciliação e evitou transformar a cerimônia em um espaço de confronto direto com Washington.

Viotti defendeu a preservação de uma relação construtiva e a retomada de uma agenda baseada em interesses comuns.

“Embora possam surgir divergências entre nós de tempos em tempos, continuamos convencidos da importância de manter uma relação construtiva, baseada no diálogo e no compromisso compartilhado de promover nossos interesses comuns”, afirmou.

Brasil e EUA mantêm negociações

Apesar do ambiente de tensão, Brasília e Washington mantêm abertas as negociações comerciais.

No fim de agosto, representantes dos dois governos retomaram oficialmente as tratativas sobre as tarifas. Os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, reuniram-se virtualmente com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

O governo brasileiro voltou a contestar as medidas norte-americanas e afirmou que pretende buscar um acordo considerado equilibrado e mutuamente benéfico. Também estão previstas novas reuniões técnicas e ministeriais.

No campo político, Lula e Trump conversaram por telefone em agosto, e há expectativa de que os presidentes possam se encontrar durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no fim de setembro.

Nesse cenário, a declaração de Viotti sinaliza a tentativa brasileira de equilibrar duas posições: contestar medidas consideradas prejudiciais aos interesses nacionais sem fechar os canais diplomáticos com um de seus principais parceiros comerciais.

Ao defender que Brasil e Estados Unidos voltem a concentrar esforços em uma agenda “pragmática e positiva”, a embaixadora reforçou a aposta na negociação como caminho para superar o atual momento de instabilidade.

O desafio será transformar a disposição para o diálogo em resultados concretos, principalmente no campo comercial, onde as novas tarifas já alteraram as condições de acesso de parte dos produtos brasileiros ao mercado norte-americano.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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