El Niño aumenta alerta para seca e níveis dos rios na Amazônia

Déficits hídricos acumulados dificultam a recuperação de rios como Negro e Xingu, enquanto previsões indicam menos chuva e temperaturas acima da média em grande parte do país

A combinação entre anos de déficit hídrico e o avanço do El Niño aumenta a preocupação com os níveis dos rios e os efeitos da estiagem na Amazônia nos próximos meses. O alerta é do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que acompanha uma situação marcada por chuvas insuficientes para recompor completamente rios, solos e reservas subterrâneas de água.

O cenário ganha importância porque o El Niño já está configurado no Oceano Pacífico Equatorial e deve continuar influenciando o clima brasileiro nos próximos meses. Segundo o monitoramento oficial, os modelos apontam que o episódio pode alcançar a categoria de El Niño muito forte, com seu período de maior intensidade entre novembro deste ano e janeiro de 2027.

Para a Região Norte, o fenômeno representa risco adicional porque costuma favorecer redução das chuvas e temperaturas mais elevadas em determinadas áreas. O Cemaden já havia alertado que o El Niño 2026/2027 poderia agravar a seca no Norte e no Nordeste e aumentar o risco de incêndios, enquanto o Sul tende a enfrentar maior possibilidade de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos.

Negro e Xingu preocupam especialistas

Na Amazônia, alguns rios já apresentam sinais de déficit antes mesmo do período projetado para a maior intensidade do El Niño.

Segundo o Cemaden, rios como o Negro e o Xingu estavam classificados em condição de seca moderada neste mês de setembro. O Xingu tem importância adicional por abrigar a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

O problema não está restrito à quantidade de chuva registrada em um único período. Especialistas chamam atenção para a sucessão de anos em que as precipitações não foram suficientes para recuperar plenamente o sistema hidrológico.

As temperaturas elevadas aumentam a evaporação e, associadas à deficiência de chuvas, reduzem a capacidade de recuperação dos níveis dos rios.

Outro fator de preocupação são as reservas subterrâneas. Elas funcionam como uma espécie de sustentação dos rios durante os períodos de menor precipitação. Quando não são suficientemente recarregadas durante a estação chuvosa, os cursos d’água chegam ao período seco em situação mais vulnerável.

Vazões podem ficar abaixo da média no Norte

O boletim mais recente do Cemaden reforça esse cenário.

Em 9 de setembro, estações hidrológicas no norte da Região Norte já apresentavam níveis dos rios abaixo ou muito abaixo da média climatológica. Em relação a agosto, houve redução adicional dos níveis em áreas da região.

As projeções para outubro também indicam vazões abaixo ou muito abaixo da média na Região Norte, em grande parte do Centro-Oeste e no interior do Nordeste.

A previsão sazonal produzida pela cooperação entre CPTEC/INPE, Inmet e Funceme aponta ainda maior probabilidade de chuva abaixo da média em grande parte do território brasileiro entre setembro e novembro.

As principais exceções aparecem na Região Sul, em São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Para todo o Brasil, a previsão indica temperaturas acima da média no trimestre.

No Norte e no Nordeste, previsões de curto e médio prazo também apontam maior probabilidade de precipitações abaixo do padrão histórico até o fim de setembro.

Seca avança em diferentes áreas do país

A situação não se limita à Amazônia.

Dados referentes a agosto mostram aumento da seca em diferentes escalas de monitoramento. No Índice Integrado de Seca de seis meses, o número de municípios classificados em seca severa passou de 51 em julho para 80 em agosto, crescimento de 57%.

Os municípios em seca moderada passaram de 533 para 586 no mesmo período.

Na análise dos três meses anteriores, quatro municípios estavam classificados em seca extrema, 153 em seca severa e 557 em seca moderada. A Bahia concentrava as situações de seca extrema, enquanto Tocantins, Bahia e Alagoas se destacavam entre as áreas atingidas pela seca moderada.

Os dados mostram que o déficit hídrico brasileiro não é uniforme. A intensidade varia conforme a região, o período analisado e o indicador utilizado.

El Niño pode atingir intensidade muito forte

O monitoramento realizado no início de setembro confirmou condições de El Niño no Pacífico Equatorial.

Na região Niño 1+2, próxima às costas do Peru e do Equador, a anomalia da temperatura da superfície do mar chegou a 3,9°C na média semanal mais recente considerada pelo boletim do Cemaden.

As projeções indicam que o episódio pode persistir até o trimestre entre março e maio de 2027. Os modelos também convergem para um evento classificado como muito forte, embora ainda exista incerteza sobre a intensidade máxima que será alcançada.

A intensidade do fenômeno, entretanto, não determina sozinha a dimensão dos impactos em cada localidade. Condições anteriores de umidade do solo, níveis dos rios, distribuição das chuvas, temperaturas e características de cada bacia hidrográfica também influenciam o resultado.

Na Amazônia, é justamente o histórico recente de déficits que aumenta a preocupação.

Impactos podem chegar à navegação e à geração de energia

A redução acentuada dos rios amazônicos tem efeitos que ultrapassam a questão ambiental.

Grande parte das comunidades da região depende dos rios para transporte de pessoas, alimentos, combustíveis, medicamentos e outras mercadorias. Níveis muito baixos podem interromper rotas, isolar localidades e elevar custos logísticos.

O cenário também pode afetar a geração hidrelétrica. O Xingu, um dos rios acompanhados com atenção pelo Cemaden, abriga Belo Monte, uma das maiores usinas hidrelétricas do país.

Há ainda riscos para abastecimento de água, pesca, agricultura e ecossistemas aquáticos.

Temperaturas elevadas associadas à redução das chuvas também podem aumentar a vulnerabilidade da vegetação ao fogo, especialmente onde a floresta já sofreu degradação ou pressão humana.

Monitoramento entra em período decisivo

Os próximos meses serão determinantes para avaliar a dimensão dos impactos do El Niño 2026/2027.

O Cemaden, o INPE e outros órgãos federais mantêm acompanhamento das condições meteorológicas, hidrológicas e oceânicas. O painel nacional do El Niño já havia alertado, no início de setembro, para a alta probabilidade de um episódio muito forte e recomendado monitoramento contínuo dos riscos associados.

Na Amazônia, a atenção está voltada especialmente para a capacidade de recuperação dos rios diante de um sistema que já carrega déficits de anos anteriores.

O risco, portanto, não decorre apenas do El Niño. O fenômeno encontra uma região na qual algumas bacias ainda não recuperaram completamente suas condições hidrológicas, aumentando a possibilidade de que uma nova redução das chuvas produza impactos mais intensos sobre rios, comunidades e atividades econômicas.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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