Comunidades do Amazonas cobram políticas permanentes para enfrentar secas extremas e crise climática

Povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais defendem acesso permanente à água, segurança alimentar e medidas preventivas diante da repetição de eventos climáticos extremos

As sucessivas secas severas registradas na Amazônia estão ampliando a pressão por políticas públicas permanentes de adaptação climática no Amazonas. Povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e outras comunidades tradicionais defendem que as ações do poder público deixem de se concentrar apenas no atendimento emergencial e passem a preparar os territórios para períodos de estiagem, fumaça, isolamento e dificuldades no abastecimento de água e alimentos.

O debate ganhou força diante da perspectiva de novos extremos climáticos na região. Para populações que dependem diretamente dos rios, da pesca, das roças e dos recursos da floresta, uma seca prolongada provoca consequências que vão muito além da redução do nível das águas.

A estiagem pode comprometer o transporte fluvial, dificultar o acesso aos serviços de saúde e educação, reduzir a disponibilidade de água potável e alimentos e afetar atividades econômicas responsáveis pela renda das famílias.

Organizações sociais que atuam no Amazonas têm chamado atenção para esses impactos e defendido maior participação das próprias comunidades na construção das políticas de adaptação.

Seca afeta água, alimento e transporte

A vulnerabilidade das comunidades amazônicas ficou evidente durante as grandes estiagens dos últimos anos.

Com os rios em níveis críticos, embarcações deixam de alcançar determinadas localidades ou precisam percorrer trajetos mais longos. O transporte fica mais caro e produtos essenciais podem demorar a chegar.

Nas comunidades mais isoladas, o problema afeta diretamente o acesso a alimentos, medicamentos, combustível e água adequada para consumo.

A produção local também sofre. A redução da água e as mudanças no calendário das chuvas interferem nas roças, na pesca e no extrativismo, atividades fundamentais tanto para a alimentação quanto para a geração de renda.

Um documento publicado em 2026 pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) mostra a dimensão dessa exposição. Em 2024, 92% das Terras Indígenas da Amazônia Legal brasileira enfrentaram algum grau de seca, percentual 37% superior ao registrado no ano anterior.

O levantamento aponta que a estiagem prolongada compromete a navegação e dificulta o acesso a água potável, alimentação, saúde e educação.

Fumaça amplia impactos sobre as comunidades

A seca também está diretamente relacionada a outro problema enfrentado pelas populações amazônicas: o aumento do risco de incêndios.

Com a vegetação mais seca e temperaturas elevadas, o fogo encontra condições favoráveis para se espalhar. Quando os incêndios avançam, a fumaça pode alcançar comunidades distantes dos locais onde as chamas começaram.

A combinação entre estiagem e incêndios agrava a vulnerabilidade das populações que já enfrentam dificuldades de deslocamento e acesso aos serviços públicos.

As mudanças ambientais também interferem nos conhecimentos tradicionais utilizados há gerações para definir períodos de plantio, pesca, colheita e outras atividades.

Estudos sobre os impactos sociais das mudanças climáticas indicam que a alteração dos padrões de chuva e a crescente imprevisibilidade das estações vêm dificultando o planejamento das atividades de subsistência em territórios indígenas e tradicionais.

Comunidades querem participar das soluções

Diante desse cenário, organizações e movimentos sociais defendem que as populações diretamente atingidas participem da elaboração das políticas públicas.

No Amazonas, entidades socioambientais vêm promovendo espaços de discussão para que comunidades urbanas, rurais, indígenas, ribeirinhas e quilombolas apresentem experiências e propostas de adaptação.

Entre os problemas apontados estão dificuldade de acesso à água potável, perdas na agricultura familiar, impactos sobre a pesca artesanal, aumento das queimadas, problemas no transporte fluvial e agravamento da insegurança alimentar.

A reivindicação é por políticas estruturantes que possam funcionar antes, durante e depois dos eventos extremos.

A discussão acompanha uma mudança na própria forma de enfrentar a crise climática. Além de responder aos desastres, medidas de adaptação buscam preparar comunidades e infraestrutura para condições que podem se tornar mais frequentes.

Água é uma das principais prioridades

Garantir acesso permanente à água aparece entre as principais demandas.

No Amazonas, algumas iniciativas já buscam enfrentar o problema. O Projeto Água Boa, desenvolvido pela Defesa Civil estadual, utiliza sistemas capazes de tratar até 5 mil litros de água por dia em comunidades ribeirinhas e rurais.

Segundo a Defesa Civil, mais de 700 purificadores já foram entregues desde o início do projeto. A proposta é permitir que comunidades tenham acesso à água potável inclusive durante períodos de seca severa e cheias prolongadas.

Em âmbito federal, uma nova iniciativa busca ampliar a infraestrutura hídrica especificamente em territórios indígenas.

A chamada pública Sanear Indígena prevê investimento de R$ 150 milhões do Fundo Amazônia para implantação de tecnologias sociais de acesso à água e iniciativas de inclusão produtiva sustentável.

A previsão é beneficiar 20.836 indígenas distribuídos em 351 aldeias do Amazonas, Acre e Pará. Os territórios foram selecionados considerando, entre outros critérios, os baixos níveis de cobertura de acesso à água.

Segurança alimentar entra no debate

Os impactos climáticos sobre a alimentação também chegaram ao Congresso Nacional.

Um projeto apresentado em 2026 propõe estabelecer diretrizes de segurança alimentar e nutricional climática para povos e comunidades tradicionais da Amazônia Legal.

Entre as medidas previstas estão fortalecimento dos sistemas tradicionais de produção diante dos eventos extremos, proteção de fontes de água e possibilidade de auxílio financeiro para reduzir situações de insegurança alimentar.

Dados citados na proposta indicam que 53,8% das pessoas consultadas em comunidades tradicionais disseram temer a falta de alimentos em razão de secas ou cheias. Outros 80% afirmaram perceber aumento dos preços dos alimentos relacionado ao aquecimento global.

A proposta ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para se transformar em lei.

Adaptação precisa ir além da emergência

Experiências desenvolvidas pelas próprias comunidades também demonstram que a adaptação pode combinar conhecimento tradicional e novas tecnologias.

Projetos recentes vêm capacitando moradores para acompanhar alterações ambientais, utilizar sistemas de monitoramento e participar diretamente da identificação de situações de risco.

No Médio Solimões, por exemplo, mais de 200 moradores passaram a atuar no monitoramento de lagos dentro de uma iniciativa científica criada após a seca extrema e a mortalidade de botos registrada na região em 2023 e 2024.

A participação comunitária permite identificar mudanças que nem sempre são captadas imediatamente por equipamentos e imagens de satélite.

O avanço dessas iniciativas reforça uma reivindicação recorrente das populações amazônicas: as respostas às secas não podem começar somente quando comunidades já estão isoladas ou sem água.

Com a intensificação dos eventos extremos, adaptação climática passa a significar garantir previamente sistemas de abastecimento, segurança alimentar, comunicação, transporte, saúde e capacidade de resposta local.

Para quem vive às margens dos rios e depende diretamente dos ciclos naturais da Amazônia, a crise climática já deixou de ser uma ameaça distante. O desafio agora é transformar as experiências acumuladas durante as últimas secas em políticas permanentes capazes de reduzir os impactos das próximas.

Fontes: organizações socioambientais do Amazonas, Defesa Civil do Amazonas, Fundo Amazônia, Câmara dos Deputados e estudos sobre adaptação climática e povos tradicionais.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *