Climatologista afirma que áreas da floresta já emitem mais carbono do que conseguem absorver, resultado do avanço do desmatamento, das queimadas e das mudanças climáticas
A Amazônia está deixando de cumprir uma de suas funções mais importantes para o equilíbrio climático global. Segundo o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do mundo, trechos da floresta já passaram a emitir mais carbono para a atmosfera do que conseguem retirar dela, um sinal preocupante do agravamento da crise ambiental na região.
O alerta foi feito durante o Web Summit Rio 2026, onde o cientista destacou que o desmatamento, as queimadas recorrentes e o aumento das temperaturas vêm alterando profundamente o funcionamento dos ecossistemas amazônicos. Como consequência, áreas da floresta que tradicionalmente atuavam como grandes sumidouros de carbono estão se transformando em fontes emissoras de gases de efeito estufa.
A capacidade de absorção de carbono é um dos principais serviços ambientais prestados pela Amazônia. Por meio da fotossíntese, árvores e plantas retiram dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, contribuindo para reduzir os impactos do aquecimento global. Quando esse equilíbrio é rompido, a floresta passa a contribuir para o agravamento das mudanças climáticas em vez de ajudar a mitigá-las.
Para Carlos Nobre, o fenômeno está relacionado à aproximação de um cenário conhecido pela ciência como “ponto de não retorno”. A hipótese, desenvolvida pelo próprio pesquisador há décadas, indica que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode levar grandes áreas da Amazônia a um processo irreversível de degradação ecológica.
Estudos coordenados pelo climatologista apontam que, caso determinados limites sejam ultrapassados, entre 50% e 70% da floresta poderão sofrer um processo de transformação profunda, perdendo características típicas de floresta tropical úmida e tornando-se ecossistemas mais secos e degradados. Essa mudança comprometeria a biodiversidade, os ciclos das chuvas e a capacidade de armazenamento de carbono da região.
Os impactos não se restringem à Amazônia. A floresta desempenha papel fundamental na regulação climática da América do Sul, influenciando o regime de chuvas que abastece áreas agrícolas, reservatórios hidrelétricos e centros urbanos em diversas regiões do continente. A degradação do bioma pode intensificar secas, eventos climáticos extremos e prejuízos à produção de alimentos.
Diante desse cenário, Carlos Nobre defende a aceleração das medidas de combate ao desmatamento, o fortalecimento da restauração florestal e a redução da dependência de combustíveis fósseis. Segundo ele, a proteção das florestas tropicais é uma das ações mais estratégicas para conter o avanço da crise climática e evitar consequências irreversíveis para o planeta.
Para os povos da Amazônia, o alerta reforça uma realidade já percebida nos territórios: secas mais severas, rios com níveis historicamente baixos, aumento das queimadas e mudanças nos ciclos naturais da floresta. O que a ciência aponta agora é que esses fenômenos podem estar indicando uma transformação estrutural do maior bioma tropical do mundo.
A mensagem dos pesquisadores é clara: proteger a Amazônia deixou de ser apenas uma questão ambiental. Trata-se de uma condição essencial para a estabilidade climática, a segurança alimentar e o futuro das próximas gerações.

