As mudanças geopolíticas globais e seus impactos sobre a Amazônia estiveram no centro dos debates do primeiro dia do II Seminário Internacional de Gestão de Áreas Protegidas (SIGAP), realizado em Manaus. Especialistas apontaram que a região vive um momento estratégico, marcado pelo aumento do interesse internacional e pela necessidade de fortalecer a soberania brasileira.
O avanço de pautas como transição energética, mudanças climáticas e segurança alimentar tem colocado a Amazônia no centro das decisões globais, o que exige, segundo os participantes, um novo posicionamento do Brasil.
Uma região estratégica no cenário mundial
A secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Rita Mesquita, destacou que o Brasil possui vantagens estratégicas únicas no cenário internacional, especialmente por sua base de recursos naturais.
“O país tem segurança alimentar, autonomia energética e uma das matrizes mais limpas do mundo. Além disso, possui uma biodiversidade de altíssimo valor, que precisa ser melhor aproveitada de forma sustentável”, afirmou.
Segundo ela, esse conjunto de fatores coloca o Brasil em uma posição privilegiada, mas também aumenta a responsabilidade sobre a gestão desses recursos.

Pressões externas e desafios internos
O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira, ressaltou que o debate sobre a Amazônia muitas vezes é conduzido a partir de visões externas, o que pode gerar distorções em relação à realidade da região.
Para ele, é necessário fortalecer a capacidade de decisão local. “A Amazônia precisa deixar de apenas responder a pressões externas e passar a construir suas próprias soluções, considerando sua diversidade e seus desafios reais”, destacou.
Esse cenário reflete uma tensão crescente entre interesses globais e demandas locais, especialmente diante do avanço de agendas internacionais sobre clima e biodiversidade.

Integração regional como resposta estratégica
Representando o ICMBio, Heliton Ferreira destacou que uma das respostas a esse cenário está na integração entre os países amazônicos.
Segundo ele, a cooperação internacional dentro da própria Pan-Amazônia é essencial para fortalecer a conservação e garantir maior autonomia nas decisões. “A articulação entre os países da região é fundamental para consolidar estratégias comuns de proteção da biodiversidade”, afirmou.
Ele também reforçou que as áreas protegidas desempenham papel central nesse processo, ao garantir a manutenção dos ecossistemas e dos modos de vida tradicionais.

Globalização e limites do modelo econômico
O professor da Universidade de Vermont, Jon Erickson, chamou atenção para os impactos do modelo econômico global sobre regiões como a Amazônia.
Segundo ele, a economia mundial ainda opera com base na exploração intensiva de recursos naturais, sem considerar os limites do planeta. “Tratamos a Terra como se fosse infinita, tanto para extrair quanto para descartar resíduos. Esse modelo precisa ser revisto”, afirmou.
Para o pesquisador, a Amazônia pode oferecer alternativas, justamente por manter formas de organização econômica mais conectadas aos territórios e às comunidades locais.

Entre oportunidades e riscos
As discussões do II SIGAP indicam que a crescente centralidade da Amazônia no cenário global traz tanto oportunidades quanto desafios.
Se por um lado há maior visibilidade e possibilidade de investimentos, por outro cresce a necessidade de garantir que as decisões respeitem os interesses locais e promovam o desenvolvimento sustentável da região.
O seminário segue até o dia 17 de abril, aprofundando o debate sobre o papel das áreas protegidas e da Amazônia diante de um cenário internacional em transformação.
Texto e fotos: Beatriz Costa

