Amazonas aposta em pesquisa para desenvolver cadeias produtivas do setor primário

Programa da Fapeam financia estudos voltados aos desafios da produção rural amazonense e prevê início da contratação dos projetos aprovados a partir de setembro

A ciência deverá ganhar maior participação na busca por soluções para os desafios enfrentados pelo setor primário do Amazonas. O estado avança em 2026 com o Programa Estratégico de Desenvolvimento do Setor Primário Produtivo Amazonense (Prospam), iniciativa voltada ao financiamento de pesquisas capazes de gerar conhecimento e tecnologias aplicáveis às cadeias produtivas regionais.

Executado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), o programa chegou em setembro à etapa prevista para divulgação do resultado final e início da contratação das propostas aprovadas.

A iniciativa aproxima dois setores que nem sempre caminham na mesma velocidade: a pesquisa científica e a produção rural. O objetivo é estimular estudos relacionados aos problemas encontrados no campo e contribuir para o desenvolvimento sustentável do setor primário amazonense.

Pesquisa direcionada à realidade do Amazonas

O Prospam foi estruturado para apoiar projetos desenvolvidos por pesquisadores vinculados a instituições públicas de ensino superior ou pesquisa localizadas no Amazonas.

Essa exigência permite direcionar os recursos para grupos que atuam diretamente no estado e conhecem particularidades que influenciam a produção regional.

Produzir no Amazonas envolve condições muito diferentes das encontradas nos grandes polos agropecuários brasileiros. Características dos solos, regime de chuvas, elevadas temperaturas, distâncias entre municípios e mercados consumidores, transporte predominantemente fluvial e dificuldades de acesso a determinados insumos interferem diretamente nos custos e na produtividade.

Por isso, tecnologias desenvolvidas para outras regiões nem sempre podem ser simplesmente transferidas para a realidade amazônica.

Ciência pode reduzir gargalos no campo

A pesquisa aplicada ao setor primário pode atuar em diferentes etapas da produção.

Isso inclui desenvolvimento e avaliação de cultivares adaptadas às condições amazônicas, manejo e fertilidade dos solos, sanidade animal e vegetal, sistemas agroflorestais, aproveitamento de resíduos, beneficiamento de alimentos e tecnologias capazes de melhorar produtividade e qualidade.

Também existe espaço para pesquisas relacionadas à logística, conservação pós-colheita e agregação de valor.

No Amazonas, esses últimos pontos são especialmente importantes. Uma produção pode apresentar bom desempenho no campo e, ainda assim, perder competitividade devido às dificuldades para armazenar, transportar ou beneficiar o produto antes que ele chegue ao consumidor.

Desenvolvimento sem ampliar fronteira agrícola

A busca pelo aumento da produtividade também está relacionada à estratégia ambiental adotada pelo estado.

O Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas, instituído em 2026, estabelece entre seus setores prioritários a agricultura sustentável e os sistemas agroflorestais. A política prevê estimular práticas capazes de melhorar a produtividade em áreas já abertas, sem necessidade de expansão da fronteira agrícola.

Essa diretriz coloca pesquisa e inovação em posição estratégica.

Aumentar a produção por meio de melhor manejo, variedades adequadas, recuperação de áreas degradadas e sistemas produtivos mais eficientes permite buscar crescimento econômico sem necessariamente converter novas áreas de floresta.

O plano estadual também contempla bioenergia e biocombustíveis produzidos a partir de resíduos agrícolas e florestais, além do uso de tecnologias digitais para fortalecer a gestão dos recursos naturais e as cadeias da bioeconomia.

Setor primário encontra espaço na bioeconomia

A relação entre agricultura e bioeconomia aparece de maneira cada vez mais explícita nas políticas estaduais.

O Amazonas considera cadeias como açaí, castanha-do-Brasil, cacau, pirarucu manejado, seringueira nativa, óleos vegetais e fibras entre as atividades com potencial dentro da economia baseada no aproveitamento sustentável da biodiversidade.

Nesse contexto, a pesquisa pode contribuir não apenas para produzir mais, mas para produzir melhor e agregar valor dentro do próprio estado.

Uma fruta comercializada in natura, por exemplo, pode originar polpas, concentrados, alimentos processados ou ingredientes para outras indústrias. Resíduos agrícolas podem ser aproveitados na produção de novos materiais ou energia. Espécies e variedades regionais podem ganhar mercados diferenciados quando suas características são estudadas e comprovadas cientificamente.

Essa transformação depende de conhecimento técnico, investimento e capacidade de transferir os resultados da pesquisa para quem efetivamente produz.

Próxima etapa começa em setembro

O edital do Prospam foi lançado em janeiro. As propostas foram submetidas entre março e abril e passaram posteriormente pelas etapas de enquadramento e avaliação técnico-científica.

O cronograma estabelece a divulgação do resultado final a partir de setembro de 2026, seguida pelo início da contratação dos projetos aprovados.

A expectativa agora se volta para quais pesquisas serão selecionadas e, principalmente, para a capacidade de seus resultados alcançarem produtores, técnicos e empreendimentos do setor.

Esse é um ponto decisivo para programas de pesquisa aplicada. Produzir conhecimento científico é a primeira etapa; transformá-lo em tecnologia acessível ao agricultor é o que determina seu impacto sobre a atividade econômica.

Para o Amazonas, onde agricultura familiar, pesca, extrativismo e cadeias da sociobiodiversidade possuem peso relevante na economia do interior, aproximar laboratório, assistência técnica e produtor rural pode ajudar a enfrentar gargalos históricos de produtividade e agregação de valor.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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