Com 25 anos de atuação, cooperativa reúne produtores de cinco comunidades, comercializa guaraná para a indústria nacional e o mercado europeu e aposta em novos produtos; Núcleo Feminino busca dar visibilidade às agricultoras que participam da produção
Em Urucará, município com forte tradição na produção de guaraná, a organização dos agricultores em torno do cooperativismo tem ajudado a transformar o cultivo realizado nas comunidades rurais em uma atividade com acesso a mercados dentro e fora do país. Há 25 anos, a Cooperativa Agrofrutífera dos Produtores de Urucará (Agrofrut) trabalha com agricultores familiares do município, tendo o guaraná como principal produto de sua atuação.
A cadeia começa nas propriedades. Os cooperados cultivam e colhem o fruto e entregam a produção à cooperativa, responsável pela etapa de comercialização. Segundo Antônio Carlos, diretor-presidente da Agrofrut, a maior parte do guaraná é negociada em grãos e destinada principalmente à indústria de bebidas.
“A cooperativa tem 25 anos e o nosso produto principal é o guaraná. Os produtores fazem o cultivo, colhem e entregam na cooperativa, e a cooperativa comercializa. A comercialização é feita em grãos, principalmente para atender empresas e fábricas de refrigerantes”, explicou.
Parte da produção segue ainda para o mercado internacional.
“Uma parte a gente exporta para a Europa, onde é utilizada para fazer extratos que atendem laboratórios de cosméticos, fármacos e também o segmento de energéticos”, acrescentou.
Durante a 48ª Expoagro, a cooperativa apresentou parte desse trabalho e também uma iniciativa que procura fortalecer outro elo fundamental da cadeia: as mulheres das famílias produtoras de guaraná.
Guaraná conecta produtores de cinco comunidades
A atuação da Agrofrut alcança produtores distribuídos por cinco comunidades do interior de Urucará.
Embora essas famílias mantenham uma produção rural diversificada, característica comum da agricultura familiar, o guaraná é o produto trabalhado em maior escala pela cooperativa.
“A Agrofrut tem cooperados em cinco comunidades que ficam no interior do município. São produtores de guaraná. Na verdade, eles produzem outros produtos também, mas o produto de escala é o guaraná”, explicou Antônio Carlos.
A organização coletiva permite concentrar a produção de diferentes propriedades e buscar compradores em mercados que seriam mais difíceis de alcançar individualmente.
Nesse processo, a cooperativa funciona como elo entre quem produz nas comunidades e quem compra a matéria-prima em maior escala.
Cooperativa também busca diversificar a produção
Embora o guaraná permaneça como carro-chefe, a Agrofrut desenvolve iniciativas voltadas à diversificação e ao fortalecimento das propriedades.
Antônio Carlos citou experiências com piscicultura, acerola e produção de mudas, além do trabalho com cumaru.
Na piscicultura, a cooperativa mantém tanques que ajudam a gerar informações sobre a atividade para os produtores. Com a acerola, são testadas variedades para avaliar o desempenho da cultura nas condições do Amazonas.
Outro trabalho está relacionado à produção e distribuição de mudas, especialmente para atender agricultores que precisam renovar ou ampliar áreas de cultivo.
Entre as espécies trabalhadas está o cumaru, que começa a ganhar espaço como produto de interesse comercial.
Segundo Antônio Carlos, milhares de mudas já foram distribuídas aos produtores e parte das plantas começa a entrar em produção.
A estratégia de diversificação não substitui o guaraná. Pelo contrário: busca criar novas possibilidades dentro das propriedades e aproveitar outros produtos que fazem parte dos sistemas produtivos das famílias.
Mulheres que sempre estiveram na produção ganham visibilidade
É justamente dentro dessas propriedades que existe um trabalho que, durante muito tempo, nem sempre apareceu formalmente na estrutura do cooperativismo.
As mulheres participam do cultivo, da organização das propriedades e das atividades desenvolvidas pelas famílias, mas muitos dos cooperados formalmente registrados são seus maridos.
A criação do Núcleo Feminino da Agrofrut busca mudar essa realidade.
Clícia Almeida, extensionista e técnica agrícola da cooperativa, que atua no suporte a projetos socioambientais e na coordenação do Núcleo Feminino, explica que a iniciativa nasceu com o propósito de aumentar a participação das agricultoras nas decisões e nos negócios da organização.
“O núcleo feminino começou com capacitação, formação e informação das mulheres agricultoras que vivem nas comunidades. Elas são protagonistas das próprias histórias, mas antes estavam muito nos bastidores”, afirmou.
A proposta é fazer com que a presença feminina deixe de estar concentrada somente na etapa produtiva e avance também para espaços como assembleias, capacitações, projetos e decisões relacionadas aos negócios da cooperativa.
“O objetivo era que a mulher participasse dos negócios da cooperativa também”, destacou Clícia.
Do trabalho nos bastidores ao protagonismo
Segundo Clícia, muitas dessas mulheres trabalham há anos diretamente nas propriedades e nas áreas onde o guaraná é cultivado.
“Elas já vêm há muitos anos cuidando dessas famílias e trabalhando no guaraná. A maior parte dos cooperados são os esposos, os maridos. Então, apesar de elas fazerem todo esse trabalho, ficavam invisibilizadas”, explicou.
O Núcleo Feminino surge justamente para reconhecer essa participação e criar condições para que as agricultoras ocupem outros espaços dentro da cooperativa.
Atualmente, o projeto Mulheres do Guaraná reúne 15 participantes diretamente envolvidas nessa iniciativa, embora o universo feminino ligado à cooperativa seja maior.
De acordo com Clícia, entre 30 e 40 mulheres mantêm algum vínculo com esse processo, enquanto as 15 integrantes estão comprometidas especificamente com o desenvolvimento do projeto.
Capacitação para participar também dos negócios
Antônio Carlos explica que a formação das mulheres é uma das bases do núcleo.
A intenção é ampliar o conhecimento sobre cooperativismo e fazer com que elas compreendam melhor a estrutura da organização da qual suas famílias já participam por meio da produção.
“Nós pensamos em capacitar essas mulheres para que tenham um conhecimento maior do cooperativismo, se envolvam no processo e ajudem a desenvolver a cooperativa”, afirmou.
Para o dirigente, a necessidade dessa inclusão ficou evidente ao observar a dinâmica das propriedades familiares.
“Toda a família participa do processo de produção, mas geralmente a família não participa tanto da cooperativa. Por isso foi criado esse projeto para as mulheres”, explicou.
A iniciativa contou com incentivo do Sistema OCB/Sescoop-AM e avançou também por meio de capacitações e parcerias voltadas ao fortalecimento das agricultoras.
Um passo importante ocorreu quando o grupo participou de um edital destinado a apoiar iniciativas com mulheres e conquistou o primeiro lugar com uma proposta relacionada ao fortalecimento, empoderamento e empreendedorismo feminino entre agricultoras de guaraná.
Mulheres do Guaraná desenvolvem produto próprio
O trabalho do núcleo começa agora a ganhar também uma expressão comercial.
As participantes estão desenvolvendo um sachê de guaraná saborizado, pensado como um produto associado diretamente ao trabalho das mulheres.
“Nós estamos desenvolvendo o sachê de guaraná saborizado. A ideia é que tenha algo da mulher, porque elas já vêm fazendo esse trabalho há muito tempo. Saborizar o guaraná com produtos da agricultura familiar é uma alternativa para que a gente tenha algo feminino e fortaleça cada vez mais a nossa cooperativa”, explicou Clícia.
A proposta aproveita justamente a diversidade encontrada nas propriedades.
O sistema produtivo não é composto exclusivamente por áreas de guaraná. As famílias também trabalham com outros cultivos e produtos extrativistas, criando possibilidades de combinação entre a principal matéria-prima da cooperativa e sabores amazônicos.
O projeto ainda está em desenvolvimento e prevê diferentes formulações, além da busca por uma embalagem biodegradável.
Segundo Clícia, o guaraná e o mel formam a base das combinações que estão sendo trabalhadas, com possibilidades de incorporar ingredientes como cacau, canela e, futuramente, cumaru, entre outros produtos presentes na agricultura familiar.
Produto representa mais do que uma nova mercadoria
A criação do sachê tem uma função que vai além de aumentar o portfólio da Agrofrut.
Ao desenvolver um produto identificado com o Núcleo Feminino, as agricultoras passam a participar de uma etapa que envolve concepção, beneficiamento, apresentação e perspectiva de comercialização.
Isso significa sair de uma condição em que o trabalho feminino estava presente na propriedade, mas pouco visível na organização econômica da cooperativa.
Para Clícia, o projeto está apenas em uma segunda etapa e ainda deverá avançar.
“Estamos apresentando o que temos, mas o objetivo é sempre melhorar”, afirmou.
Cooperativismo que começa na propriedade
A trajetória da Agrofrut mostra como uma cadeia produtiva pode se expandir para além da comercialização de uma matéria-prima.
O guaraná continua sendo o eixo econômico da cooperativa e conecta agricultores de cinco comunidades de Urucará a compradores da indústria nacional e também ao mercado internacional. Ao mesmo tempo, projetos de diversificação procuram aproveitar outras possibilidades das propriedades familiares.
Agora, o Núcleo Feminino acrescenta outra dimensão a esse processo.
As mulheres que já plantavam, cuidavam das propriedades e participavam da produção começam a conquistar maior espaço também na capacitação, nas decisões e no desenvolvimento de produtos.
Na Agrofrut, fortalecer a cadeia do guaraná passa, portanto, não apenas por ampliar mercados para aquilo que sai das propriedades de Urucará, mas também por reconhecer quem sempre esteve por trás dessa produção e criar condições para que as mulheres ocupem seu espaço dentro do próprio negócio cooperativo.

