Bioeconomia ganha vitrines de negócios e amplia mercado para produtos da floresta no Amazonas

Feiras e encontros realizados em Manaus aproximam produtores, empreendedores, investidores e consumidores; EcoAmazônia reuniu mais de 70 estandes e novos eventos previstos para 2026 reforçam ambiente de negócios sustentáveis

Castanhas, farinhas, óleos vegetais, biojoias, artesanato, cosméticos, alimentos e produtos desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica estão deixando de ocupar apenas espaços de discussão sobre sustentabilidade para ganhar cada vez mais vitrines comerciais e ambientes de negócios.

Em Manaus, eventos realizados ao longo de 2026 vêm aproximando produtores comunitários, pesquisadores, startups, empresas, investidores e consumidores em torno de uma questão central para o desenvolvimento da bioeconomia: como fazer os produtos e conhecimentos da floresta chegarem ao mercado e gerarem renda para quem vive na Amazônia.

Um dos exemplos foi a segunda edição da EcoAmazônia, realizada em junho, no Centro de Convenções Vasco Vasques. A feira reuniu mais de 70 estandes e empreendedores de 13 Unidades de Conservação do Amazonas, com comercialização de produtos da sociobiodiversidade.

A programação incluiu ainda palestras, oficinas, rodas de conversa, exposições e atividades voltadas a temas como manejo sustentável, mudanças climáticas, inovação, empreendedorismo e conservação da biodiversidade.

Produtos das comunidades chegam diretamente ao consumidor

Um dos diferenciais desses eventos está justamente na possibilidade de colocar o produtor em contato direto com o mercado.

Na EcoAmazônia, comunidades e empreendedores comercializaram produtos como biojoias, cestarias, peças artesanais, itens de decoração e biocosméticos, além de alimentos e outros produtos derivados da sociobiodiversidade.

O movimento registrado durante a feira superou as expectativas da organização. Segundo o secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira, alguns comunitários chegaram a esgotar os produtos levados para o primeiro dia e precisaram organizar uma nova logística para transportar mercadorias do interior até Manaus.

O episódio evidencia um dos principais desafios da bioeconomia amazônica: muitas comunidades já possuem produtos com potencial comercial, mas enfrentam dificuldades relacionadas a escala, transporte, distribuição e acesso contínuo aos consumidores.

Feiras desse tipo funcionam, portanto, como uma ponte temporária entre territórios produtores e mercados urbanos.

Bioeconomia precisa ir além das feiras

O crescimento desses encontros também expõe outra questão: vender durante alguns dias de evento não é suficiente para consolidar uma cadeia produtiva.

Para que os negócios da sociobiodiversidade consigam crescer, é necessário transformar contatos feitos em feiras e rodadas de negócios em contratos, canais permanentes de distribuição, acesso a financiamento e relações comerciais de longo prazo.

Essa preocupação já aparece em programas desenvolvidos na região.

O EcoAm, por exemplo, trabalha na aproximação entre empreendedores, investidores e territórios amazônicos. Em 2026, o programa abriu uma jornada de desenvolvimento comercial para selecionar negócios da sociobiodiversidade de Tefé, no Amazonas; Rio Branco, no Acre; e Ji-Paraná, em Rondônia.

A iniciativa pretende apoiar empreendimentos que já possuem potencial para atender demandas comerciais identificadas e ampliar seu acesso a mercados e investimentos.

A meta do programa para este ano é chegar a R$ 5 milhões investidos e alcançar 30 negócios acelerados ao longo de sua trajetória, além da criação de três Bio Hubs nos territórios atendidos.

Startups também buscam espaço na indústria

Outra frente envolve empresas de base tecnológica.

Em agosto, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) reuniu representantes de 17 startups de bioeconomia da Amazônia Ocidental e do Amapá para apresentar possibilidades de industrialização de negócios baseados na biodiversidade.

A iniciativa abordou incentivos fiscais, procedimentos para cadastramento de empresas e apresentação de projetos industriais.

Essa aproximação é importante porque parte dos empreendimentos amazônicos enfrenta dificuldades justamente na passagem entre uma produção artesanal ou experimental e uma operação capaz de atender mercados maiores.

Industrializar sem romper a relação sustentável com os territórios e sem excluir produtores e comunidades da distribuição dos benefícios está entre os desafios dessa nova economia.

Manaus receberá festival de investimentos em novembro

A agenda da bioeconomia continua nos próximos meses.

Entre 3 e 5 de novembro, Manaus receberá a quarta edição do Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), organizado pelo Idesam e pelo Impact Hub Manaus.

O evento terá como tema “O futuro aponta para o Norte” e pretende reunir empreendedores, investidores, pesquisadores, lideranças comunitárias e representantes dos setores público e privado.

A programação prevê oficinas, debates, apresentações de negócios, rodadas de negociação e experiências imersivas, além de um mercado dedicado aos produtos da sociobiodiversidade.

Criado em 2018, o FIINSA busca justamente enfrentar uma das lacunas existentes no setor: aproximar quem desenvolve soluções na Amazônia de quem possui capital e interesse em investir nesses negócios.

Da floresta ao mercado

O avanço da bioeconomia amazônica depende de uma cadeia que começa muito antes da prateleira.

Ela envolve comunidades produtoras, associações, cooperativas, pesquisadores, universidades, startups, indústrias, investidores, governos e consumidores.

Eventos como a EcoAmazônia dão visibilidade ao que já é produzido nos territórios. Programas de aceleração tentam preparar os empreendimentos para crescer. Encontros com investidores procuram resolver o gargalo do capital. E iniciativas de industrialização buscam aumentar o valor agregado dos produtos.

O desafio está em conectar todas essas etapas.

Para o Amazonas, onde distâncias, custos logísticos e acesso limitado a mercados ainda representam barreiras para produtores do interior, transformar essas conexões em relações comerciais permanentes será determinante para que a bioeconomia deixe de ser apenas uma promessa de desenvolvimento e passe a ocupar uma parcela maior da economia regional.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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