PPBio amplia conexão entre recursos da Zona Franca e negócios da bioeconomia amazônica

Programa coordenado pelo Idesam direciona investimentos obrigatórios em pesquisa e desenvolvimento para projetos capazes de transformar biodiversidade, ciência e conhecimento regional em produtos, tecnologias e novos negócios

Transformar a biodiversidade amazônica em produtos, tecnologias e negócios capazes de gerar renda sem depender da destruição da floresta exige mais do que conhecimento científico. Um dos principais desafios está em fazer o recurso financeiro chegar a pesquisadores, empreendedores e iniciativas capazes de transformar esse conhecimento em soluções comercialmente viáveis.

É justamente nessa conexão que atua o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), iniciativa idealizada pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e atualmente coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

O programa capta recursos provenientes dos investimentos obrigatórios em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) realizados por empresas beneficiárias dos incentivos da Lei de Informática da Zona Franca de Manaus e os direciona para projetos relacionados à bioeconomia amazônica.

A proposta é utilizar parte da capacidade tecnológica e financeira construída em torno do Polo Industrial de Manaus para estimular uma segunda frente de desenvolvimento regional baseada em biodiversidade, inovação e sustentabilidade.

Da biodiversidade para novos produtos

O campo de atuação do PPBio é amplo. Entre as áreas previstas pela Suframa estão a prospecção de princípios ativos e novos materiais derivados da biodiversidade amazônica, biotecnologia, bioinformática, desenvolvimento de produtos e serviços, tecnologias aplicadas a sistemas produtivos sustentáveis e soluções para tratamento e reaproveitamento de resíduos.

Também podem ser contemplados negócios de impacto social e ambiental, além da implantação ou aperfeiçoamento de incubadoras e parques de bioindústrias.

Na prática, isso permite que os investimentos alcancem projetos que buscam transformar recursos e conhecimentos da região em soluções de maior valor agregado.

É uma lógica diferente da simples comercialização de matéria-prima.

Em vez de retirar um produto da floresta e vendê-lo com baixo nível de processamento, a bioeconomia busca incorporar pesquisa, tecnologia, beneficiamento, propriedade intelectual e conhecimento tradicional para ampliar o valor que permanece na própria Amazônia.

Essa estratégia pode alcançar segmentos como alimentos, cosméticos, fármacos, bioinsumos, novos materiais e tecnologias voltadas aos sistemas produtivos regionais.

Zona Franca como fonte de investimento

Uma das particularidades do PPBio está justamente na origem dos recursos.

Empresas beneficiadas pela política de incentivos da Zona Franca de Manaus possuem obrigações de investimento em pesquisa e desenvolvimento. Os Programas Prioritários constituem uma das modalidades pelas quais esses recursos podem ser aplicados em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento regional.

Atualmente, a Suframa mantém três Programas Prioritários ativos: Bioeconomia, Indústria 4.0 e Modernização Industrial e Formação de Recursos Humanos.

No caso específico da bioeconomia, o Idesam atua na coordenação do programa e na articulação entre projetos, instituições científicas, empreendedores e empresas interessadas em realizar os aportes.

O plano de trabalho do PPBio para o período de 2024 a 2028 estabelece como uma de suas direções transformar a bioeconomia em vetor do desenvolvimento econômico associado à responsabilidade social e à conservação da biodiversidade na Amazônia.

Ciência busca aproximação com setor produtivo

Em 2026, uma das frentes do programa tem sido justamente aumentar a aproximação entre instituições de ciência e tecnologia e o setor empresarial.

Em maio, pesquisadores, analistas e pós-graduandos da Embrapa Amazônia Ocidental, em Manaus, participaram de uma apresentação sobre as possibilidades de captação de recursos por meio do PPBio.

A iniciativa buscou identificar projetos científicos com potencial para receber investimentos provenientes das empresas do Polo Industrial de Manaus.

Durante o encontro, a coordenação do programa apresentou o PPBio como uma ponte entre os investimentos obrigatórios em P&D das indústrias incentivadas e iniciativas relacionadas ao uso sustentável da biodiversidade.

A aproximação é estratégica porque a Amazônia concentra instituições com décadas de conhecimento acumulado sobre floresta, agricultura tropical, alimentos, recursos genéticos e biodiversidade, mas nem sempre uma descoberta científica consegue avançar até as etapas de desenvolvimento tecnológico e mercado.

Bioeconomia entra no planejamento para 2026

O fortalecimento do PPBio aparece entre as prioridades anunciadas pelo Idesam para 2026.

Segundo o instituto, a estratégia é ampliar oportunidades para startups, empreendedores locais e iniciativas relacionadas às cadeias produtivas sustentáveis, especialmente aquelas com potencial para ganhar escala e chegar ao mercado.

O movimento ocorre em um momento de maior institucionalização da bioeconomia no Amazonas.

Neste ano, o Estado também estabeleceu sua Estratégia Estadual de Bioeconomia, que coloca entre os setores prioritários o agroextrativismo e os produtos florestais não madeireiros, além de biotecnologia e bioindústria.

A estratégia estadual cita cadeias como açaí, castanha, óleos vegetais, plantas medicinais e outros bioativos e prevê estímulo ao desenvolvimento de produtos farmacêuticos, cosméticos, alimentos e bioinsumos baseados na biodiversidade amazônica.

Desafio é transformar conhecimento em negócio

Apesar do potencial científico e da diversidade biológica da região, transformar pesquisa em atividade econômica continua sendo um dos gargalos da bioeconomia amazônica.

O próprio planejamento do PPBio identifica a necessidade de conectar instituições de ciência e tecnologia, incubadoras, aceleradoras, startups, fundos de investimento, órgãos públicos e empresas instaladas na Zona Franca de Manaus.

Essa articulação é importante para atravessar uma etapa particularmente difícil da inovação: fazer com que um conhecimento desenvolvido dentro de universidades, institutos ou comunidades resulte efetivamente em um produto, processo ou serviço capaz de chegar ao mercado.

Para a Amazônia, há ainda outro componente. O desenvolvimento desses negócios precisa combinar viabilidade econômica com conservação da biodiversidade e geração de benefícios para quem vive nos territórios onde estão os recursos naturais e conhecimentos associados.

Nesse contexto, o PPBio procura utilizar uma estrutura já existente — os investimentos em pesquisa e desenvolvimento associados à Zona Franca de Manaus — para estimular uma economia baseada em ativos que também são próprios da região.

O desafio é fazer com que floresta, ciência, indústria e capital deixem de funcionar como universos separados e passem a integrar uma mesma estratégia de desenvolvimento amazônico.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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