Feira reúne produtores, instituições e especialistas em uma programação que conecta melhoramento genético, qualificação profissional, inovação, agroindústria e acesso a novos mercados
Animais de genética selecionada dividem espaço com queijos maturados, produtos de agroindústrias, capacitações e novas tecnologias. Na 48ª Exposição Agropecuária do Amazonas (Expoagro), a diversidade das atividades revela uma feira que vai além da tradicional apresentação de rebanhos e se consolida como ponto de encontro entre produção, conhecimento e mercado.
Durante a cobertura da exposição, representantes da FAEA/Senar Amazonas, Sebrae e especialistas ouvidos no evento apontaram diferentes caminhos para aumentar a competitividade da produção rural amazonense. Entre eles estão qualificação profissional, melhoramento genético, assistência técnica, agregação de valor à matéria-prima e incorporação de tecnologias capazes de aumentar a produtividade.
Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas (FAEA) e vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Muni Lourenço, a Expoagro também carrega um significado histórico para o setor primário.
O dirigente destacou a homenagem a Eurípedes Lins, que dá nome ao Parque Multiuso de Exposição Agropecuária, e ressaltou sua contribuição para a atividade rural amazonense.
“É algo que orgulha muito a todos nós, produtores rurais amazonenses, que conhecemos de perto a enorme contribuição do Dr. Eurípedes Lins ao setor primário”, afirmou.
Lourenço, que sucedeu Eurípedes Lins na presidência da FAEA, considera que manter o nome do produtor ligado ao parque ajuda a preservar parte da própria história do setor.
“Ele, com o seu nome, serve permanentemente de uma inspiração constante para todos nós”, acrescentou.
Expoagro como porta de entrada para o mercado
Se para o setor produtivo a feira representa um espaço de encontro, para pequenos empreendedores ela também funciona como oportunidade de apresentar produtos diretamente ao mercado.
A diretora técnica do Sebrae Amazonas, Lamisse Said Cavalcanti, informou que a instituição levou 26 empresas de diferentes segmentos do agronegócio para a edição deste ano.
“A estratégia é trazer acesso ao mercado dos nossos clientes. Estamos com 26 empresas dos mais diversos setores que a gente trabalha dentro do agronegócio”, afirmou.
Segundo Lamisse, parte dos empreendimentos chega à exposição com produtos que vêm sendo desenvolvidos ao longo do ano.
“Aqui é uma vitrine para que eles mostrem esses produtos, acabem divulgando e tenham maiores possibilidades de venda e geração de renda”, explicou.
A estratégia não se limita às vendas realizadas durante os dias de exposição. Para a diretora, um resultado mais importante é fazer com que os empreendimentos consigam sobreviver e crescer depois da feira.
“O maior legado que você pode ter para essas empresas é que elas cresçam, se desenvolvam e permaneçam no mercado, porque abrir é muito fácil. Agora, manter é o que é mais difícil”, ressaltou.

Tecnologia chega ao campo
A inovação aparece como outro elemento presente na Expoagro.
No Sebrae, uma das ferramentas citadas por Lamisse é o Sebraetec. Segundo a diretora, a instituição subsidia 70% dos serviços contratados por meio do programa, enquanto o empresário assume os outros 30%.
O objetivo é permitir que pequenos negócios tenham acesso a soluções de inovação e tecnologia que podem envolver diferentes necessidades da empresa.
O trabalho também passa pela preparação do empreendimento para comercializar além do município de origem, com atenção a aspectos como normas técnicas, exigências sanitárias, apresentação e adequação dos produtos.
Para Lamisse, o potencial do agronegócio precisa ser desenvolvido considerando a vocação de cada município. A diretora destacou que o Sebrae atua nos 62 municípios do Amazonas e citou atividades como piscicultura, cafeicultura, pecuária bovina e bubalinocultura entre as cadeias acompanhadas.
Produzir mais sem ampliar a área
Na pecuária, a tecnologia assume uma função estratégica: aumentar a produtividade dos rebanhos utilizando de maneira mais eficiente as áreas já destinadas à atividade.
Erivan Oliveira, analista de agronegócios do Sebrae Amazonas, explicou que o trabalho realizado com os produtores envolve qualidade das pastagens, alimentação e melhoramento genético.
“Esse animal com potencial genético maior de produção, tanto de carne quanto de leite, possibilita que o produtor, sem a necessidade de abrir novas áreas, utilize aquela mesma área com alimentação adequada, mas com um animal com potencial de produção melhor”, afirmou.
O planejamento da alimentação também ganha importância diante dos períodos mais críticos do verão amazônico. Entre as alternativas utilizadas estão a produção de silagem de milho e o cultivo de forrageiras como o capiaçu, permitindo ao produtor formar reserva alimentar para o rebanho.
A avaliação é compartilhada pelo médico-veterinário e consultor José Ribeiro, que acompanha a evolução da atividade leiteira na região.
Segundo Ribeiro, a incorporação de tecnologia e genética pode permitir ganhos de produtividade sem que o aumento da produção esteja necessariamente associado à expansão territorial.
“Se você conseguir levar esses recursos para o produtor, nós melhoramos a genética dos animais, o manejo e a produção, mantendo a mesma área ou até diminuindo”, afirmou.
Para o especialista, os avanços precisam envolver não somente genética, mas instalações, alimentação e todo o sistema produtivo.

Capacitação dentro da feira
A formação profissional também ocupa espaço relevante na programação.
O Sistema FAEA/Senar estruturou atividades para públicos distintos: algumas destinadas especificamente a produtores e profissionais das cadeias produtivas e outras abertas aos visitantes na área externa.
Entre elas estão ações relacionadas a queijos maturados, cafeicultura, olericultura, apicultura, ergonomia e saúde no campo. A programação também inclui atividades da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG).
O superintendente adjunto do Senar Amazonas, Marcos Pinheiro, destacou o acompanhamento oferecido aos produtores por meio da ATeG.
“Ele fica por dois anos sendo acompanhado pelos nossos técnicos do Senar”, explicou.
Na avaliação de Pinheiro, o acesso aos cursos também contribui para profissionalizar quem já atua no campo.
“Quando o produtor participa dos cursos e treinamentos do Senar, ele já segue certificado, realmente preparado para trabalhar, preparado para se profissionalizar e enriquecer o conhecimento dele”, afirmou.
Do leite ao queijo de maior valor
Um dos exemplos mais visíveis de agregação de valor durante a Expoagro está na transformação do leite.
A especialista em queijos maturados Iris Parizotto conduziu uma capacitação destinada a produtores e profissionais do setor. O treinamento incluiu conteúdo teórico e uma etapa prática com análise, degustação e debate.
Para Parizotto, maturar corretamente significa conduzir as transformações do produto para desenvolver características específicas.
“Qualquer queijo matura. Agora, saber maturar é o diferencial”, afirmou.
Durante o processo, sabor, textura e aroma se modificam, permitindo desenvolver produtos com características próprias. A especialista também chamou atenção para a qualidade da matéria-prima encontrada no estado.
“Nós temos aqui um dos melhores leites. Não é fácil produzir leite com boa qualidade. É muito empenho e dedicação com a alimentação e a água, e isso faz toda a diferença”, avaliou.
A proposta é também incentivar o desenvolvimento de produtos autorais, capazes de incorporar elementos locais e construir uma identidade ligada ao território.

Uma cadeia que precisa chegar ao consumidor
As diferentes experiências apresentadas na 48ª Expoagro convergem para um mesmo desafio: fazer com que aumento de produtividade e melhoria da qualidade sejam acompanhados por capacidade de comercialização.
Isso significa conectar genética, alimentação e manejo à agroindústria; transformar matérias-primas em produtos de maior valor; profissionalizar os empreendimentos; e criar condições para que a produção local ocupe uma parcela maior do mercado consumidor amazonense.
A Expoagro reúne esses diferentes elos em um mesmo espaço. De um lado, animais que demonstram o avanço da seleção genética. De outro, produtores e empreendedores apresentando o resultado da produção. Entre eles, instituições, técnicos e especialistas oferecendo conhecimento, assistência e ferramentas para transformar atividade rural em negócio.
Mais do que mostrar o que o Amazonas já produz, a 48ª Expoagro coloca em evidência o desafio que permanece depois que a feira termina: fazer tecnologia, capacitação e acesso ao mercado chegarem cada vez mais às propriedades e se converterem em produtividade, renda e desenvolvimento para o setor rural amazonense.
Texto e fotos: Beatriz Costa

