Trânsito de Manaus registra alta de 41% nas mortes no início de 2026; motociclistas e pedestres são as principais vítimas

Por Beatriz Costa

Dados dos primeiros meses de 2026 revelam aumento da violência no trânsito e reforçam a necessidade de melhorias na mobilidade urbana de Manaus.

O trânsito de Manaus voltou a acender um alerta preocupante nos primeiros meses de 2026. Levantamento referente aos meses de janeiro e fevereiro aponta que 41 pessoas morreram em acidentes na capital, um aumento de 41% em relação ao mesmo período de 2025. As estatísticas mostram que os grupos mais vulneráveis continuam sendo motociclistas e pedestres, que juntos representam 88% das vítimas fatais.

Os dados fazem parte de um levantamento técnico repassado pelo engenheiro Manoel Paiva, especialista em mobilidade urbana, que analisa o comportamento do trânsito e o crescimento da frota na capital amazonense.

Chuvas, retorno das atividades e aumento da frota

De acordo com o especialista, vários fatores contribuem para o crescimento das ocorrências no início do ano. Entre eles estão o retorno das atividades após o período de férias, as fortes chuvas e o aumento do fluxo de veículos nas vias da cidade.

Segundo Manoel Paiva, o período chuvoso agrava problemas estruturais do sistema viário e aumenta os riscos para quem circula pela cidade.

“O início do ano, com o retorno das atividades após as férias e a intensificação do período de chuvas e alagamentos nos bairros e vias das áreas mais populosas, contribui diretamente para o aumento das ocorrências de acidentes e sinistros de trânsito”, explicou.

Ele destaca ainda que o estado de conservação de muitas vias dificulta a trafegabilidade e aumenta a probabilidade de acidentes. Outro fator apontado é o crescimento do transporte individual.

“O volume muito maior de veículos de transporte individual de passageiros, como motocicletas e automóveis, que representam mais de 88% da frota registrada em Manaus, aumenta a probabilidade de acidentes”, afirmou.

Mudanças no comportamento da mobilidade

Para o especialista, o aumento da frota de automóveis e motocicletas, aliado à mudança de comportamento da população em relação ao transporte coletivo, também tem impacto direto no trânsito da capital.

Segundo ele, desde a pandemia houve aumento significativo no uso de veículos particulares e também de serviços de transporte por aplicativos.

“O aumento geométrico da frota de automóveis para o transporte individual, somado à maior utilização de veículos e motocicletas de transporte por aplicativos, além da degradação da qualidade e da atratividade do transporte coletivo urbano, tem provocado congestionamentos e elevado os níveis de estresse no trânsito”, destacou.

Esse cenário, de acordo com o engenheiro, contribui para o aumento dos acidentes e também pressiona a rede pública de saúde.

Motociclistas lideram estatísticas de mortes

O levantamento mostra que 22 motociclistas morreram em acidentes nos dois primeiros meses de 2026, representando 54% das mortes registradas no período. Em comparação com 2025, quando foram registradas 14 mortes entre motociclistas no mesmo período, houve aumento de 57%.

Manoel Paiva explica que os motociclistas estão entre os grupos mais vulneráveis do sistema de mobilidade urbana.

“Eles representam cerca de 35% da frota registrada em Manaus, com mais de 361 mil motocicletas circulando em vias muitas vezes mal conservadas e com sinalização insuficiente”, afirmou.

Outro problema apontado pelo especialista é a falta de qualificação adequada de parte dos condutores, além da fiscalização considerada insuficiente.

“A esmagadora maioria dos condutores não passou por um processo adequado de qualificação, treinamento específico ou requalificação para atividades profissionais. A fiscalização preventiva e o monitoramento também são insuficientes”, disse.

Segundo ele, a tendência é que o número de motocicletas continue crescendo nos próximos anos, podendo chegar a 50% da frota da cidade, cenário semelhante ao de algumas cidades asiáticas.

Pedestres continuam entre os mais vulneráveis

Os pedestres também aparecem entre as principais vítimas do trânsito. O levantamento aponta 14 mortes por atropelamento entre janeiro e fevereiro de 2026, aumento de 40% em relação ao mesmo período de 2025.

Além disso, foram registrados 142 atropelamentos no período, número que reforça a vulnerabilidade de quem circula a pé pela cidade.

Para Manoel Paiva, o problema está diretamente ligado à infraestrutura urbana.

“O trânsito de Manaus não é apenas caótico, é letal e hostil. A cidade continua apresentando riscos elevados para quem circula, especialmente pedestres e motociclistas”, afirmou.

Ele aponta ainda a falta de calçadas adequadas, passarelas suficientes e sinalização eficiente como fatores que aumentam o risco de acidentes.

“Pedestres continuam se deslocando por vias inseguras, muitas vezes sem calçadas adequadas, com passeios públicos inacessíveis e passarelas insuficientes ou mal conservadas”, destacou.

Segundo o especialista, é urgente melhorar as condições de caminhabilidade e acessibilidade, com investimentos em calçadas, passarelas, faixas de pedestres sinalizadas e iluminação adequada.

Vias mais perigosas da capital

O estudo também identificou as vias com maior número de mortes no trânsito, considerando dados acumulados entre 2024 e fevereiro de 2026.

A Rodovia Torquato Tapajós lidera o ranking, com 32 vítimas fatais no período. Em seguida aparecem:

  • Rodoanel Metropolitano – 31 mortes

  • Alameda Cosme Ferreira – 24 mortes

  • Avenida Autaz Mirim – 24 mortes

  • Avenida Governador José Lindoso – 23 mortes

  • Avenida Rodrigo Otávio – 18 mortes

  • Avenida Noel Nutels – 15 mortes

  • Avenida Brasil – 14 mortes

  • Avenida Coronel Jorge Teixeira – 13 mortes

  • Avenida Max Teixeira – 8 mortes

Somente nessas vias foram registradas 15 mortes em 2026.

Segundo Manoel Paiva, essas vias concentram grande fluxo de veículos e alta velocidade média.

Ele explica que corredores como Constantino Nery e Torquato Tapajós, por exemplo, concentram grande parte das linhas de transporte coletivo e fluxo intenso de veículos.

“Por esse corredor trafegam diariamente mais de 60% das linhas do transporte coletivo urbano e mais de 70% dos ônibus intermunicipais e interestaduais, além de milhares de veículos por hora nos horários de pico”, destacou.

O especialista também alerta para o impacto da velocidade nos acidentes.

Dados citados por ele indicam que aumentar a velocidade permitida em apenas 5% pode elevar em até 20% o número de mortes, segundo estudos da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Pressão sobre o sistema de saúde

Os impactos do trânsito também são sentidos diretamente na rede pública de saúde.

Em janeiro de 2026, 2.412 pessoas deram entrada em hospitais da rede pública após acidentes de trânsito, sendo 61% motociclistas.

Dados do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) também apontam aumento nas ocorrências: 1.325 atendimentos relacionados a acidentes de trânsito em janeiro, crescimento de 11,08% em relação ao mesmo mês de 2025.

Para Manoel Paiva, o cenário já pode ser considerado um grave problema de saúde pública.

“Os números de acidentes, de vítimas lesionadas e fatais, apontam para uma situação caótica, com ocupação de leitos hospitalares e UTIs em um cenário que se assemelha a uma situação de guerra”, afirmou.

Medidas urgentes

Entre as soluções apontadas pelo especialista estão ações de engenharia de tráfego, melhoria da infraestrutura viária, ampliação da sinalização e investimentos no transporte coletivo.

Ele também defende programas de capacitação para motociclistas profissionais, campanhas educativas e maior fiscalização no trânsito.

Caso medidas estruturais não sejam adotadas, o especialista faz um alerta.

“Se nenhuma medida for tomada para reorganizar o sistema de mobilidade urbana da cidade, a tendência para os próximos anos é o agravamento da violência no trânsito”, concluiu.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilittação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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