Nossos ancestrais negros escravizados trouxeram o Candomblé de Irene dos Santos Passos.
O Candomblé é uma religião afro-brasileira derivada de cultos tradicionais africanos, na qual a crença em um ser supremo Olorum, Mawu ou Nzambi, dependendo na nação e culto dirigido as forças da natureza personificadas na forma de ancestrais divinizados: Orixás ou Voduns. É fortemente combatida e sofre preconceitos até hoje, mas é tolerada pela igreja católica em razão do respeito que a mesma tem a ancestralidade. Bem como a séculos de sincretismo religioso.
Oxalá é o pai dos homens, criador da humanidade é o pai de todos os Orixás e da humanidade.
“Oxalá meu pai,
Tem pena de mim, tem dó.
As voltas do mundo é grande
Seus poderes inda maió”
Iemanjá ela tem diferentes nomes: Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaina, Maria, Princesa do mar, Rainha do mar, Sereia do mar…
Iemanjá é a padroeira dos pescadores, ela que decide o destino de que entra no mar.
Hoje conheceremos a religião de Irene que é conhecida na religião como Dofanitinha de Oxaiufãn, que se dedica unicamente a sua religião.
Irene dos Santos Passos – Fisioterapeuta aposentada – Nova Iguaçu – RJ
Qual sua religião e qual o nome de sua igreja?
“…Sou candomblecista, da nação Jêje, vinda da Umbanda, onde formei minha convicção religiosa. Nossos templos são comumente chamados de “barracão” e na nação Jêje recebem o nome de “Ilê”. O nosso chama-se “Ilê Omi de Oxalá”…
Com que frequência você reza?
“…Eu rezo diariamente, pois a responsabilidade de um Sacerdote é muito grande e precisamos nos manter fortalecidos para podermos fortalecer aqueles que caminham conosco e podermos auxiliar a quem venha nos pedir auxílio…”
Você se considera comprometido com seus ensinamentos? Possui uma representação no seu barracão?
“… Sim, o candomblé exige comprometimento, temos que ter compromisso com os nossos Orixás, para que tenhamos condições de estabelecer comunicação com o Divino e com Ifá, que é o dono dos búzios. Se não formos comprometidos a leitura não acontece, a comunicação não se estabelece e não conseguimos ter uma visão nítida da situação daqueles que recorrem a nós em busca de orientações.
Em nossa casa sou a “Doné”, o que comumente se chama de “Mãe de santo” e como tal, tenho a incumbência de zelar pelos Orixás. Os meus e os dos meus filhos, que é como tratamos todos aqueles que cuidamos, sejam iniciados ou não…”
Quantas vezes por semana você participa de cultos religiosos?
“…A dedicação no Candomblé é diária, contudo o culto aos Orixás, chamados de “sessões”, acontecem uma vez ao mês. Mas há ainda os atendimentos individuais, que são realizados cerca de 3 a 4 vezes por semana…”
O que você pensa sobre Deus e como descreveria Ele?
“…Deus é a essência vital de tudo. Ele está presente em tudo ao nosso redor. Está manifestado em todos os seres e a natureza é sua obra perfeita. Por isso valorizamos cada folha que nasce, cada raiz que adentra ao solo e todos os seres vivos existentes. Deus é a expressão do amor incondicional. No Candomblé ele se multiplica através dos Orixás, para que nossa comunicação com Ele seja mais rápida, eficaz e eficiente…”
Você lê sobre sua religião e qual parte mais gosta de ler?
“…A maior parte dos ensinamentos candomblecistas é passado verbalmente aos iniciados e seus adeptos, porém existem estudiosos da religião que publicam estudos maravilhosos a respeito de nossa mitologia e aos fatos históricos que envolvem o desenvolvimento de nossa crença e sua disseminação pelo Brasil. É muito importante lermos sobre a trajetória da nossa religião, que está diretamente ligada à trajetória do negro no nosso país. Tendo sofrido e sofrendo até hoje com o preconceito, que é uma batalha constante em nossas vidas.
No Candomblé não existe um livro sagrado, são rituais, preceitos, códigos morais e éticos, e tradição cultural passados de forma verbal e intuitiva…”
Você contribui monetariamente com seu barracão e por que?
“…No Candomblé não existe uma norma sobre contribuições monetárias, porém toda casa precisa de manutenção, além de que nossos rituais envolvem gastos, pois ebós e oferendas demandam alimentos, ervas, velas e outros elementos que precisam ser adquiridos. Assim toda a contribuição é revertida na manutenção do Ilê e na execução dos trabalhos ritualísticos. É importante salientar que quando falamos em contribuição, não estamos nos referindo a dinheiro propriamente dito, porque pode ser recebida em materiais.
Então, contribuímos voluntariamente, porque depende dessa contribuição a realização dos nossos trabalhos e a manutenção do Ilê…”
O que você pensa sobre a morte? Acha que vamos para onde depois que morremos?
“…Vemos a vida como uma passagem, uma estrada na qual o ser humano tem a oportunidade de se aperfeiçoar. É um exercício que temos que praticar diariamente para completarmos um ciclo da vida. A existência do corpo físico é uma só, mas o espírito tem vários ciclos a serem completados e depois temos a morte do corpo físico. Aí, dependendo do nível de aperfeiçoamento em que o espírito se encontre, ou inicia-se um novo ciclo ou o espírito volta a sua origem. A coisa toda é bastante complexa, exigiria muitas páginas para uma explicação do fundamento que nos leva a entender vida e a morte…”
“…Gostaria de salientar que o Candomblé é uma religião milenar, trazida pelos nossos ancestrais negros escravizados. É uma religião complexa, com uma história rica, repletas de batalhas contra diversos tipos de preconceitos, até hoje marginalizada. Uma religião que exige muita devoção, não dá pra descrever em tão poucas linhas a riqueza cultural que envolve nossa religião, que possui raízes milenares…”

