Secas mais intensas e frequentes na Amazônia comprometem ciclo da água e estoque de carbono

Secas cada vez mais severas e recorrentes na Amazônia vêm prejudicando seriamente a capacidade da floresta de recircular água e armazenar carbono, segundo estudos divulgados recentemente por pesquisadores do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e do Trees/Inpe.

Entre 2000 e 2023, observou-se uma ampliação da duração da estação seca no bioma. Em 2015, aproximadamente 63% da Amazônia enfrentou estresse hídrico; em 2016, esse índice caiu para 51%, e em 2023 voltou a subir para cerca de 61% da região. Os limites do fenômeno são mais intensos nas bordas da floresta, que já sofrem com fragmentação e pressão humana.

Para a Amazônia, a água é vital: entre 50% e 60% das chuvas que ocorrem ali têm origem na evapotranspiração da própria floresta, movimento que transporta umidade do Atlântico para o continente e redistribui-a por toda a região e até além. Contudo, a queda nas chuvas e o aumento constante das temperaturas estão afetando essa dinâmica essencial de ciclagem hídrica.

Além disso, o calor mais intenso eleva o metabolismo das árvores, intensifica a respiração das plantas e prejudica a fotossíntese devido ao aumento da fotorrespiração e danos às folhas — resultando em maiores perdas de carbono e menor armazenamento pela floresta.

O estresse hídrico também tem elevado a mortalidade de árvores, especialmente as mais antigas e de raiz profunda, que desempenham papel fundamental no bombeamento de água do solo para a atmosfera. A morte dessas árvores enfraquece o ciclo hídrico regional e altera a estrutura da floresta.

Um estudo do Inpe, apoiado pela FAPESP, mostrou que em áreas submetidas a déficit hídrico de 100 mm na seca de 2005, houve perda de até 100 toneladas de carbono por hectare. Segundo o pesquisador Luiz Aragão, a cada aumento de 1 °C na temperatura, os estoques de carbono da floresta caem cerca de 6% — cenário que se agrava com o acúmulo de madeira seca no solo, tornando a floresta mais suscetível a incêndios.

Estudos em curso indicam também que áreas com lençol freático superficial tendem a apresentar maior resiliência ao estresse hídrico do que aquelas onde o lençol está mais profundo. No entanto, grande parte das pesquisas concentra-se em ambientes menos representativos da totalidade da floresta, o que pode enviesar a percepção sobre a resposta da Amazônia às mudanças climáticas.

Post Author: Beatriz Costa

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