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Saberes que brilham no céu: constelações indígenas Guarani revelam a conexão entre natureza, território e ancestralidade

Enquanto a astronomia ocidental organiza o céu a partir de figuras da mitologia grega, os povos indígenas brasileiros desenvolveram, ao longo de milhares de anos, suas próprias formas de observar, interpretar e se relacionar com os astros. Entre os povos Guarani, as constelações não são apenas desenhos no céu: elas fazem parte de um complexo sistema de conhecimentos que orienta os ciclos da vida, da agricultura, da pesca, da caça e das relações com a natureza.

 

Esse patrimônio cultural e científico ganha destaque na obra O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso, lançada pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). O trabalho reúne imagens em alta resolução e estudos sobre as constelações indígenas, valorizando saberes ancestrais frequentemente invisibilizados pela ciência tradicional.

 

Diferentemente das constelações conhecidas pela astronomia ocidental, as constelações indígenas são formadas não apenas pelas estrelas brilhantes, mas também pelas regiões escuras da Via Láctea. A partir dessas observações, os povos originários identificam figuras que representam animais, seres humanos e elementos fundamentais para a vida em seus territórios.

 

Entre as principais constelações da tradição Guarani está a Ema, uma das mais conhecidas. Sua aparição no céu está relacionada à chegada da estação seca em parte da Amazônia e do inverno nas regiões do Sul do país. Segundo a tradição, o Cruzeiro do Sul segura a cabeça da ave para impedir que ela beba toda a água da Terra.

 

Outra importante referência celeste é o Homem Velho, figura associada ao período das chuvas e ligada a narrativas ancestrais sobre transformação e espiritualidade. Sua presença no céu marca mudanças importantes nos ciclos naturais observados pelas comunidades.

 

A Anta do Norte também ocupa lugar de destaque na cosmologia Guarani. A constelação está associada à Via Láctea, conhecida por muitos povos indígenas como o “Caminho da Anta”, e sua observação ajuda a indicar períodos de transição entre as estações.

 

Já a constelação do Cervo anuncia a chegada do outono e de um período conhecido pelos Guarani como “Tempo Velho”, momento de preparação para mudanças no ambiente e nas atividades comunitárias.

 

O Colibri, por sua vez, está relacionado ao início da primavera e ao florescimento da vida. Na tradição indígena, o pequeno pássaro possui forte simbolismo espiritual e está associado à renovação dos ciclos naturais.

 

Mais do que conhecimento astronômico, as constelações indígenas representam uma forma de compreender o mundo baseada na observação cuidadosa da natureza e na transmissão de saberes entre gerações. Elas demonstram que os povos originários desenvolveram sistemas próprios de ciência, profundamente conectados aos territórios e à manutenção da vida.

 

Em um momento em que a valorização dos conhecimentos tradicionais se torna cada vez mais importante para os debates sobre meio ambiente, mudanças climáticas e conservação da biodiversidade, olhar para o céu através das constelações indígenas é também reconhecer a riqueza cultural e científica dos povos que habitam a Amazônia e outros biomas brasileiros há milhares de anos.

 

Créditos e fonte de pesquisa: Jornal da USP – O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso. Adaptação e contextualização para divulgação dos saberes tradicionais indígenas.

 

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