Por Antonio Ximenes
Era uma chuva diferente, com grãos negros tocando a copa das árvores.
O peso das lágrimas dos pássaros em migração fazia do céu de Tefé uma interrogação.
Haverá fé depois que os botos morreram sufocados pela água quente provocada pela seca?
Ou os incêndios na floresta profunda são o início de uma cavalgada apocalíptica, movida pelo vento quente da batida das asas dos anjos caídos como ogivas nucleares?

Remando em sua canoa noite adentro pelo rio Solimões, Pedro Tikuna procurava abrigo do fogo e, com a respiração sincopada, antevia que algo aconteceria ao nascer do dia.
O céu estava manchado de escarlate com a debandada das araras.

Quando ele chegou na aldeia da Missão e jogou-se na areia escurecida, havia pupunhas e dois peixes moqueados para comer.
Mas, com três dias em fuga, queria apenas dormir, para não ter que ver novamente a floresta em agonia, com os macacos queimados nos galhos retorcidos pelo fogo incontrolável da ignorância e da cegueira.

