REPORTAGEM ESPECIAL: GUERRAS PELO MUNDO
Entre guerras prolongadas, rivalidades históricas e alianças que mudam o equilíbrio mundial, o Oriente Médio segue como a região mais volátil e estratégica do planeta
Por Beatriz Costa, Editora-chefe
O Oriente Médio permanece como o tabuleiro geopolítico mais complexo do mundo. Uma região onde passado e presente se chocam diariamente, onde disputas territoriais, rivalidades religiosas, ambições políticas e interesses internacionais se entrelaçam em uma teia quase impossível de desfazer. Aqui, cada conflito local reverbera globalmente, moldando economias, rotas energéticas, agendas diplomáticas e, principalmente, o destino de populações inteiras.
As guerras que atravessam o Oriente Médio não são apenas crises isoladas. São capítulos diferentes de uma mesma narrativa, marcada por décadas de ocupações, intervenções externas, insurgências, colapsos estatais e disputas por influência regional. Gaza, Iêmen, Líbano, Síria, Iraque, nenhum desses territórios existe à margem da história, mas todos enfrentam níveis crescentes de destruição humanitária, instabilidade e incerteza.
Em meio à escalada de tensões, novos episódios se somam a conflitos já enraizados. Os ataques em Gaza reacenderam o risco de uma guerra regional envolvendo Israel, Palestina, Irã e o Hezbollah. No Iêmen, a guerra civil se prolonga e se cruza com disputas internacionais que transformam o país em um campo de batalha por procuração. No Líbano, a crise política e o colapso econômico alimentam temores de uma nova espiral de violência. Cada fronteira, cada cidade, cada grupo armado carrega uma história que exige ser contada e compreendida.
Mais do que mapear as batalhas, este especial revela os impactos humanos que se acumulam sob as estatísticas, famílias deslocadas, cidades destruídas, crianças que crescem sem conhecer a paz. Em um mundo cada vez mais polarizado, olhar para o Oriente Médio é olhar para o centro da instabilidade global e para a urgência de um debate mais profundo sobre as raízes e as consequências dessas guerras.
Israel e Palestina (Gaza): guerra, destruição e a escalada regional com o Irã e o Hezbollah
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O conflito entre Israel e Palestina nunca deixou de existir, mas os acontecimentos recentes, especialmente desde outubro de 2023, transformaram a crise em Gaza no episódio mais letal e devastador da história da região. O ataque coordenado do Hamas desencadeou uma resposta militar massiva de Israel, abrindo caminho para um ciclo de violência que rapidamente ultrapassou as fronteiras da Faixa de Gaza. Autoridades da ONU classificaram a situação como “catástrofe humanitária sem precedentes”, com bairros inteiros destruídos, infraestrutura colapsada e um bloqueio total que impede a entrada regular de água, alimentos e combustível. Segundo relatórios do OCHA, milhões de palestinos enfrentam risco de fome severa, enquanto Israel afirma que suas operações têm como objetivo eliminar a capacidade militar do Hamas.
As causas estruturais do conflito remontam à divisão territorial pós-1948, à ocupação de 1967 e ao fracasso sucessivo de negociações de paz. Nos bastidores, atuam múltiplos atores: o Hamas controla Gaza desde 2007; a Autoridade Palestina governa partes da Cisjordânia; Israel mantém o controle militar e territorial; e, regionalmente, Irã, Egito, Catar, Hezbollah e Estados Unidos exercem influência direta. Documentos do International Crisis Group apontam que cada ofensiva gera uma nova camada de radicalização, alimentada por décadas de desigualdade, cerco e ausência de um projeto político unificado para o futuro palestino.
A dimensão humanitária do conflito é o maior alerta para a comunidade internacional. Estimativas recentes apontam centenas de milhares de mortos e feridos desde o início da ofensiva de 2023, além de deslocamentos internos que atingem mais de 2 milhões de pessoas, praticamente toda a população de Gaza. Israel, por sua vez, contabiliza vítimas de ataques do Hamas e vive sob a constante ameaça de foguetes e drones disparados não apenas de Gaza, mas também do Líbano e da Síria. Organizações como Médicos Sem Fronteiras relatam hospitais sem capacidade de funcionamento, enquanto dados do UNICEF alertam para o colapso total da infraestrutura de saúde pediátrica.
A escalada regional tornou-se inevitável à medida que Hezbollah e Irã intensificaram ataques diretos e indiretos contra Israel. Em 2024, o Oriente Médio assistiu ao primeiro confronto direto entre Israel e Irã em décadas, com ataques aéreos cruzados que colocaram em risco toda a arquitetura diplomática da região. Analistas da Chatham House e Carnegie Middle East afirmam que qualquer erro de cálculo pode transformar disputas localizadas em uma guerra multinacional, envolvendo desde milícias xiitas no Iraque até atores estratégicos como Estados Unidos e Arábia Saudita. A região está presa entre a busca de Israel por “dissuasão total”, o fortalecimento militar do Hezbollah e a tentativa do Irã de expandir seu eixo de influência.
Cronologicamente, o ciclo atual pode ser resumido assim: ataque do Hamas (outubro de 2023), resposta militar em Gaza (2023–2024), expansão dos confrontos para a Cisjordânia, tensões crescentes com Hezbollah no sul do Líbano, ataques a refinarias e bases militares no Mar Vermelho e confrontos diretos entre Israel e Irã em 2024–2025. Hoje, o cenário é de estagnação militar, pressão internacional por um cessar-fogo duradouro e debates sobre um possível modelo de governança pós-guerra em Gaza algo ainda distante, diante das profundas divergências políticas. Especialistas concordam em um ponto: sem uma solução diplomática consistente e internacionalmente garantida, o conflito tende a se perpetuar, alimentando ciclos de violência que impactam todo o Oriente Médio.
Iémen: a guerra esquecida que continua matando silenciosamente

A guerra no Iémen, iniciada em 2014 e intensificada a partir de 2015, tornou-se um dos conflitos mais negligenciados da atualidade, apesar de ser descrita pela ONU como “a pior crise humanitária do mundo”. A disputa começou quando os rebeldes houthis (apoiados pelo Irã) tomaram a capital, Sana’a, derrubando o governo reconhecido internacionalmente. A Arábia Saudita e seus aliados lançaram uma campanha militar massiva para restaurar o governo deposto, transformando o país em um tabuleiro onde se enfrentam interesses regionais e rivalidades religiosas. O colapso institucional abriu espaço para facções armadas, grupos jihadistas e milícias locais que continuam se expandindo em meio ao caos.
As causas do conflito combinam rivalidade sectária, desigualdades históricas e a fragmentação política de um Estado já frágil. Entre os principais atores envolvidos estão os rebeldes houthis, o governo internacionalmente reconhecido, a coalizão liderada pela Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, além da presença de grupos afiliados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Relatórios do International Crisis Group e da ONU mostram que a intervenção externa prolongou e complexificou a guerra, aumentando a dependência das partes de apoios estrangeiros e impedindo avanços diplomáticos sustentáveis. A disputa por portos estratégicos, oleodutos e rotas marítimas no Mar Vermelho também se tornou um elemento essencial da guerra.
O impacto humanitário é devastador: mais de 377 mil pessoas morreram direta ou indiretamente desde o início do conflito, segundo estimativas do UNDP. A fome extrema atinge milhões de crianças, enquanto doenças como cólera e dengue se espalham devido ao colapso total do sistema de saúde. Cerca de 4,5 milhões de iemenitas estão deslocados internamente, vivendo em campos improvisados sem saneamento ou alimentação adequada. Agências humanitárias alertam que 2024–2025 podem representar uma piora, à medida que o bloqueio, a inflação e a destruição da infraestrutura impedem qualquer retomada econômica. A ONU calcula que 80% da população depende de ajuda externa para sobreviver.
A guerra no Iémen também se conecta a um tabuleiro geopolítico maior. Com a escalada regional envolvendo Gaza, Israel, Irã e Hezbollah, os houthis intensificaram ataques contra navios comerciais no Mar Vermelho em 2024–2025, justificando suas ações como retaliação ao apoio ocidental a Israel. Isso provocou a formação de uma coalizão naval liderada pelos EUA e Reino Unido, que passou a realizar ataques aéreos contra posições houthi no território iemenita. Especialistas da Chatham House afirmam que o conflito já extrapolou fronteiras e se tornou uma “guerra por procuração”, em que todas as potências regionais e globais têm algo a perder ou a ganhar.
Mesmo com tentativas de cessar-fogo temporário e negociações indiretas entre Arábia Saudita e Irã, o cenário atual permanece incerto. A divisão territorial continua clara: os houthis controlam grande parte do Norte, enquanto o Sul se fragmenta entre o governo oficial e forças apoiadas pelos Emirados. Para 2025, analistas do Carnegie Middle East concluem que o Iémen continuará sendo um dos conflitos mais complexos do mundo, com poucas perspectivas de paz duradoura sem uma reestruturação política profunda e um compromisso internacional muito mais sólido. Até lá, milhões de civis seguem presos entre o silêncio global e a destruição diária.
Líbano: entre o colapso econômico e a ameaça de um novo front de guerra

O Líbano entrou em 2025 profundamente marcado por uma confluência de crises que pressionam seu tecido social, econômico e político. A guerra no vizinho Oriente Médio (especialmente entre Hezbollah e Israel) escancarou vulnerabilidades de um Estado já corroído por anos de instabilidade e colapso institucional. Depois de meses de combates e bombardeios, a população viu seu cotidiano virar ruína, casas destruídas, escolas e hospitais danificados, e milhares de famílias obrigadas a fugir do Sul e da periferia de Beirute.
Organizações humanitárias relatam que mesmo após o cessar-fogo de novembro de 2024, o retorno à normalidade permanece distante. Mais de 82 mil pessoas continuam deslocadas internamente, e o sistema de saúde do Sul do país foi fortemente abalado, hospitais vazios, falta de insumos, destruição de unidades médicas e interrupção de atendimento. O colapso econômico, pré-existente, se agravou. A agricultura e o turismo (pilares da economia local) foram fortemente afetados, enquanto o desemprego e a insegurança aumentaram, expandindo o sofrimento a grande parte da população.
No plano político, 2025 marcou uma tentativa de reestruturação do governo: após dois anos de impasse, o país elegeu presidente e formou um novo gabinete, com a promessa de reformas econômicas e reconstrução nacional. Mas a fragilidade institucional permanece, o desafio de desarmar milícias, retomar o controle estatal sobre o território (particularmente o Sul) e impor a soberania do Estado enfrenta a resistência do Hezbollah, que continua a se declarar como “resistência” e ameaça retaliação caso seja pressionado a entregar seu arsenal.
A comunidade internacional, por sua vez, monitora com apreensão: a persistência de violações do cessar-fogo, os ataques esporádicos, a presença de grupos armados e o colapso dos serviços essenciais mantêm o Líbano no limiar de uma nova escalada de violência. Para além dos números e da geopolítica, quem sofre são cidadãos comuns, famílias inteiras que perderam tudo, refugiados internos, crianças fora da escola e uma geração marcada pela instabilidade.
O Líbano 2025 é imagem viva de como conflitos adjacentes podem arruinar nações: uma economia em ruínas, estados falidos, disputas de poder e, no centro, o ser humano. Essa crise exige mais que negociações diplomáticas: requer urgência nas respostas humanitárias, reconstrução institucional e compromisso internacional com a paz e a dignidade da população.
Entre ruínas e resistência: o preço humano de um Oriente Médio em guerra

No fim, quando todas as análises geopolíticas são colocadas sobre a mesa, o que resta não são mapas, linhas de fronteira ou discursos de líderes, são pessoas. O Oriente Médio, tantas vezes interpretado pela ótica da estratégia e da geopolítica, é antes de tudo um território de vidas interrompidas, de famílias que vivem entre o som das explosões e a esperança quase teimosa de um amanhã diferente. Gaza, Sana’a, Beirute, Jerusalém, Hodeidah, Tiro. Nomes que o mundo repete, mas raramente escuta. Sob cada uma dessas cidades existem histórias que não chegam às conferências internacionais, crianças que aprenderam a identificar o som de mísseis antes mesmo de saber escrever o próprio nome; mães que enterram filhos e voltam ao trabalho minutos depois; idosos que viram a paz apenas como lembrança distante.
A região segue presa entre interesses globais, rivalidades regionais e lideranças que muitas vezes tratam seu povo como peças substituíveis em um tabuleiro de disputas intermináveis. A comunidade internacional oscila entre indignação superficial e silêncio conveniente, enquanto o cotidiano das populações em conflito segue marcado por medo, fome, deslocamento e luto. O impacto real da guerra não aparece nos relatórios, traumas transmitidos entre gerações, identidades culturais fragmentadas, cidades que dificilmente serão reconstruídas, infâncias moldadas pela violência.
E, ainda assim, há resistência, silenciosa, cotidiana, profundamente humana. Ela se manifesta nos voluntários que atravessam linhas de fogo para distribuir comida; nos médicos que permanecem em hospitais sem energia; nos professores que transformam porões em salas de aula; nas mulheres que sustentam famílias inteiras em meio ao caos; nos jovens que insistem em sonhar com um futuro que lhes foi roubado antes mesmo de começar. A força que brota sob os escombros talvez seja a prova mais clara de que, apesar de tudo, a dignidade resiste.
Esses conflitos nos obrigam a refletir sobre o tamanho do prejuízo causado pelo egoísmo humano, líderes que disputam poder enquanto milhares pagam com a própria vida; interesses econômicos que valem mais que a infância de uma geração; decisões políticas que se traduzem em morte para quem não tem sequer voz. Quantas vidas serão interrompidas até que o mundo enxergue o peso real dessas guerras? Quantas vezes a história vai se repetir enquanto seguimos assistindo de longe? A resposta para isso não está apenas nos governantes ou nas potências internacionais, mas na capacidade coletiva de não aceitar a guerra como destino inevitável.

