Limite de 1,5 °C em risco: tensão global cresce às vésperas da COP30 e Brasil busca protagonismo

Por Beatriz Costa

O alerta de que o limite de aquecimento global de 1,5 °C — estabelecido pelo Acordo de Paris como meta central para conter os impactos mais severos da crise climática — pode já ter sido ultrapassado aumentou a tensão entre grandes emissores de gases de efeito estufa às vésperas da COP30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém (PA).

Relatórios recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontam que a temperatura média global, em 12 meses consecutivos até maio de 2025, já ficou 1,52 °C acima dos níveis pré-industriais — configurando, na prática, um rompimento temporário do limite.

Bastidores de negociações tensas

Em encontros preparatórios realizados em Bonn (Alemanha) no início de junho, representantes de EUA, China e União Europeia expuseram divergências profundas sobre a atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Enquanto a UE defende mais ambição e pressiona pela eliminação acelerada do carvão, a China insiste em prazos mais flexíveis para transição energética. Já os EUA enfrentam incertezas políticas internas, com pressões do Congresso e lobby de setores fósseis, o que pode travar compromissos mais ousados.

Países em desenvolvimento, incluindo Índia e membros do G77, acusam as nações ricas de não cumprirem promessas de financiamento climático, o que inviabiliza investimentos em adaptação e transição verde nas regiões mais vulneráveis.

Brasil: entre a oportunidade e a pressão

Como anfitrião da COP30, o Brasil se encontra em posição estratégica — e delicada. O governo brasileiro, liderado pela ministra do Meio Ambiente Marina Silva e pelo embaixador André Corrêa do Lago, tem buscado mediar posições, propondo incluir metas ambiciosas de desmatamento zero e preservação da Amazônia como soluções naturais para o clima.

Por outro lado, o país é pressionado a apresentar um plano consistente para reduzir suas próprias emissões, especialmente no setor agropecuário, responsável por grande parte do inventário nacional de gases do efeito estufa. O desmatamento ilegal, apesar da redução parcial nos últimos dois anos, ainda coloca o Brasil em posição frágil no cenário internacional.

O que está em jogo

Especialistas apontam que, se os compromissos globais não forem revistos até 2025, o mundo pode entrar em rota de aquecimento acima de 2,5 °C ainda neste século — cenário que elevaria de forma catastrófica eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas, enchentes e perda de biodiversidade.

“A COP30 será crucial não apenas para reavaliar as metas do Acordo de Paris, mas para determinar se ainda há caminho viável para limitar o aquecimento a 1,5 °C”, afirma a climatologista Ana Paula Cunha, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). “A liderança do Brasil pode ser decisiva para destravar negociações.”

Caminhos possíveis

Entre as propostas em discussão para manter viva a meta de 1,5 °C estão:

  • Acelerar a eliminação global de subsídios aos combustíveis fósseis;

  • Dobrar os recursos do Fundo Verde para o Clima, garantindo suporte a países mais pobres;

  • Reconhecer e valorizar soluções baseadas na natureza, como conservação de florestas tropicais, onde o Brasil pode exercer liderança;

  • Estabelecer mecanismos legais que obriguem grandes emissores a apresentar NDCs revisadas ainda em 2025.

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