Antigamente, na cidade de Quaraí que faz divisa com Artigas (Uruguai), não tinha ainda a ponte que ligava uma cidade a outra na fronteira. As pessoas precisavam passar para o outro lado pela planchada, onde passava carro, ônibus, carroça e pessoas de a pé, e pelo rio atravessavam de barco e canoa. Naquela época, tinha muitas enchentes e mesmo assim a travessia no rio deveria ser feita, até mesmo para comprar mantimentos do outro lado do rio, por vezes uma travessia de barco muito perigosa, com a correnteza bem forte do rio Quaraí, até porque a correnteza do rio passava por cima da planchada e perdiam o acesso por terra firme.
Temos alguns relatos de pessoas que viveram na cidade de Quaraí, nos contando como era difícil a vida, as enchentes e a travessia, nos anos de 1950 a 1960.
BRANCA NÉLIDA XIMENES NUNES – Santa Maria – RS
…”Hoje, pensando na minha infância, lá no meu Quaraí, lembrei de várias coisas que aconteceram na década de 50, nas cheias do rio Quaraí, foram muito marcantes naquela época. Nós, os quaraienenses, tínhamos o hábito de comprar na cidade vizinha Artigas, é uma fronteira, Quaraí e Artigas, Brasil/Uruguai, e comprávamos vários produtos lá que a nossa moeda estava desvalorizada, rendia muito nas compras no Uruguai. E me deparei com as lembranças, a nossa moeda estava desvalorizada para nós, mas no Uruguai ela era bem valorizada, porque o peso era muito baixo, e acontecia de irmos fazer compras lá. Eu tinha 8 a 9 anos, já fazia compras com meus pais. Sou filha de quaraienses, minha mãe Ramona Silveira Ximenes, meu pai Sérgio Matias Ximenes, conhecido como Nito, era um construtor, tem várias casas no meu Quaraí, na qual ele que reconstruiu. Sou a terceira filha, éramos cinco meninas e um menino, e como eu era a filha do meio, seguidamente fazia as compras pra minha mãe lá no Uruguai. A gente pegava o ônibus, na rua hoje em dia chamada Sete de setembro, íamos ao Uruguai e fazíamos as compras necessárias. Na primeira e segunda rua de Artigas, era só comércio, comprávamos massa, pão, gajeta, carne, verduras e batatas. Quando vinha a enchente do rio Quaraí, na qual a planchada era coberta pela água, a gente passava de bote. Um bote que ia com várias pessoas, aquele bote cheio de gente sentada e em pé, até bicicleta, eu lembro que levavam para ser mais rápido o caminho para Artigas. Eu era pequena, não sabia nadar, sem saber me cuidar, eu dizia: eu vou mãe, eu ia para fazer as compras, porque nós éramos várias crianças, éramos pobres, eu ia com a mão tocando na água. E, hoje me deparando com isso, pensando, e se aquele bote virasse, quase todos morreriam. Talvez o barqueiro fosse o que soubesse nadar, que levava a gente, mas era comum isso, não é atípico da época. Mas foi a mais marcante de todas minhas lembranças. E também foi muito marcante as escolas que eu estudei, D’Artagnan, Tubino e Prof.Diehl, eu tinha um professor muito rígido, que veio a ser meu amigo, o professor Poser era nosso diretor e Paulo era o meu professor de francês. Eu entrei para a primeira série com dez anos de idade, eu não fiz o quinto ano. A gente podia fazer a prova e passar da quarta série para a primeira série do ginasial, que era na época. Eu era uma criança, foi muito marcante, essa época para mim, sempre fui muito estudiosa, não precisava estudar em casa, eu aprendia só prestando atenção, amava matemática, como até hoje, tanto que a minha profissão é administradora, pedagoga e professora de Economia.”…
Sidnei Bilar Cardoso – Osório – RS
…”Uma lembrança que eu tenho das enchentes é que nós íamos para o pátio de casa, porque a enchente passava no fundo da minha residência. Era comum passar na correnteza que se formava no rio, telhados de casa, por exemplo, casas de capim, então a enchente chegava e levantava à casa de capim e ia na correnteza rio abaixo, a gente subia a planchada, quando chegava mais ou menos ali perto, a casa começava a pegar mais o meio do rio, a gente saía de cima e voltava para a margem. Era comum a gente fazer esse tipo de brincadeira nas enchentes, porque passava… todo o telhado de casa era comum passar, tinha muita casa de sapé, e passava boiando ali, a gente se atirava na água e lá nadávamos e subíamos até mais ou menos ali perto da planchada, porque a planchada já estava cheia, e logo ela não aparecia mais.
A casa onde eu morava, era pertinho do rio, quando a planchada enchia, então tinha muita gente, tinha os boteiros que transportavam o pessoal lá para a Artigas e vice-versa. Era comum isso tudo, mas à noite, às vezes tinha gente que queria vir para o outro lado da margem e tinha que gritar pelo boteiro lá do outro lado do rio, no Uruguai, para que o boteiro fosse, às vezes era meia-noite, nove horas da noite, tudo dependia da necessidade que cada pessoa tinha e atravessava o rio em determinado horário na noite. E eu me lembro que às vezes a gente estava deitado e ouvíamos aquela voz do boteiro. Então, gritava, gritava, e o boteiro respondia que estava indo. logicamente, era um ganha pão dele, mas não era fácil. Atravessava o rio à noite de bote, só que a correnteza do rio Quaraí ali era muito forte. Mas existia, era comum isso, muita gente passava. Eu não sei quem é que passava, se era namorado que ia ver a namorada em Artigas, ou se era gente que precisava vir à Quaraí, ou vice-versa. Então, era uma característica das enchentes, aquela voz na madrugada do boteiro.
Essa imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, achei ela num dia de enchente. A casa Naly era uma das casas mais fortes que tinha no porto. Ficava a mais ou menos uns 50 metros da pranchada e a casa tinha sido alagada. O armazém todo do Jorge Naly tinha sido alagado. Eu sei que eu fui, nós chegamos e a enchente já tinha tapado a porta da entrada da loja. Já tinham recolhido muita coisa, alguma coisa foi perdida. Então, eu mergulhei para entrar na casa, tinha que mergulhar e passar a porta. Eu pisei numa coisa lisa, e aí eu peguei essa imagem que me acompanha desde então. São 64 anos que ela me acompanha, essa é uma das coisas, uma das passagens da minha vida, que não deixa eu me esquecer das enchentes em Quaraí.”…
Quaraí (em castelhano: Cuareim)é um curso de água que marca o limite da parte norte do Uruguai junto da fronteira Brasil-Uruguai. Ao início de seu curso corre com direção noroeste, para logo dirigir-se para oeste, desembocando finalmente no rio Uruguai. A palavra Quaraí é uma composição de origem indígena que na linguagem tupi significa: “rio das Garças”, ou ainda “rio do Sol”. Antigamente na língua portuguesa a cidade se escrevia Quarahy, mas se pronunciava da mesma maneira que a atual.
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