Instituição localizada na BR-174, em Manaus, capacita por ano 140 alunos do interior do Amazonas com cursos técnicos
A Escola Agrícola Rainha dos Apóstolos atravessa gerações cumprindo a missão de capacitar crianças e adolescentes, de diversos municípios do Amazonas, com o ensino médio e técnico. Localizada no quilômetro 23 da BR-174, desde 1974 até os dias de hoje, a instituição foi responsável pela formação de cerca de 3.500 pessoas ao redor do Estado.
Segundo o diretor da instituição, Celso Batista, em 2020 a escola vai atender 140 alunos do ensino médio que vão ter ensinamentos teóricos e práticos no curso técnico de agropecuária. O número de meninos é mais expressivo que a quantidade de meninas. 105 rapazes e 35 moças compõem o quadro de discentes do ensino técnico e 10 professores auxiliam no processo didático.
No período de três anos, os discentes ficam internados na instituição. Aqueles que moram em municípios próximos da capital, como Presidente Figueiredo (distante 107 quilômetros de Manaus), podem passar o final de semana com os familiares nos municípios de origem e retornarem às atividades na segunda-feira.
Há também os alunos matriculados no ensino fundamental, que não são internos, e ficam somente um período na escola, por morarem em ramais próximos da instituição. Cerca de 450 discentes do ensino básico são levados diariamente para a Rainha dos Apóstolos por meio de um ônibus da própria instituição. Eles contam com 35 professores.
“O aluno vem para ficar longe do convívio familiar e acabamos nos tornando a família dele. No curso, eles recebem técnicas de zootecnia e agricultura. Na parte de animais, o aluno vai aprender desde o manejo de minhocas, até o manejo de bois e cavalos. Já na agricultura, eles realizam atividades na parte de hortaliças. Nós temos a agricultura orgânica e convencional, além do contato com toda a parte de culturas regionais como a pupunha, o cupuaçu e a laranja”, explicou o diretor.
Escola no meio da floresta
Variadas flores chamam a atenção de quem entra pela primeira vez no local. Dentro de vasos, no pátio principal, as flores trazem cor ao ambiente e separam dois grandes pavilhões, que são os locais onde ocorrem as aulas. O pavilhão direito é dividido, por paredes de concreto, em três classes onde os alunos do 1º ao 3º ano cursam o ensino médio e técnico. Do outro lado, o pavilhão esquerdo tem quatro divisões, onde as aulas do ensino básico são realizadas e cada divisória dos pavilhões têm a capacidade para 45 alunos.
Cada compartimento da escola expressa a fé católica. Nos corredores do local onde a parte administrativa da instituição é realizada, como a sala dos professores e direção, há estátuas de santos e também a bíblia sagrada. A escola é repleta de pinturas religiosas, feitas pelos próprios alunos, que dão a identidade visual da instituição. Antes das refeições, os discentes devem se posicionar de pé e se dirigir para a imagem da Nossa Senhora para rezar em voz alta no refeitório.
Esperança para ribeirinhos e indígenas
A aluna Raíssa Aguiar, de 18 anos, que é finalista do curso técnico disse que vai se tornar uma médica veterinária. Raíssa contou que se identificou com os conhecimentos na área de zootecnia, porque pode aplicá-los onde mora, em Santa Isabel do Rio Negro (distante 631 quilômetros de Manaus).
No término do período de três anos, os alunos precisam apresentar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para toda a instituição. Segundo Raíssa, apesar do nervosismo em saber que a apresentação do TCC dela será neste ano, tem como principal sentimento a sensação de vitória por ter concluído uma etapa.
“Quando a gente entra aqui, já criamos um laço de família com os nossos colegas e com professores. Com certeza vou sentir muitas saudades. O que a gente leva são boas lembranças e aprendizado”, disse a aluna.
Diogo Lima, de 14 anos, contou à FLORESTA BRASIL que também sonha em ser um médico veterinário. Ele veio de Barcelos (diante 400 quilômetros de Manaus) e disse que os conhecimentos adquiridos ao longo de dois anos na instituição já fizeram a diferença na vida dos familiares dele.
“Com o que aprendi no primeiro ano, já consegui dar algumas orientações para a minha avó, para ajudar nas plantações dela. Eu gosto muito da suinocultura e do estudo das abelhas. Pretendo contribuir para o município, pois Barcelos está precisando de mais técnicos”, ressaltou Diogo.
A maioria dos alunos é do interior do Estado e de áreas indígenas. Os principais municípios representados são de Novo Airão, Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro. No baixo Amazonas, vem adolescentes de Parintins, Itacoatiara, Novo Remanso, Iranduba, além de tribos indígenas como Sateré Mawé e Tucanos. A escola já recebeu alunos de outros estados brasileiros como Roraima, Maranhão, Amapá, dentre outras localidades.
Joilton da Silva, de 16 anos, que é da tribo Sateré Mawé, situada entre os municípios de Nhamundá e Barreirinha, disse que o manejo correto das terras foi uma das áreas que mais despertou o desejo dele em aprender a área técnica. Além dele, três irmãos estiveram na escola e abriram caminho para novas dimensões de aprendizado.
“Dentro da zootecnia eu gosto das abelhas. E no ensino regular eu prefiro estudar história e geografia. No final de semana eu não retorno para a comunidade porque é distante, mas sou grato aos meus irmãos pelo caminho que eles mostraram para eu chegar até aqui”, disse o jovem.
Depois do horário de almoço, os alunos têm um intervalo de aproximadamente duas horas. Em seguida, retornam para as atividades práticas. Eles caminham por cerca de 10 minutos em direção às áreas reservadas para agricultura e zootecnia. Devido ao calor intenso e muito tempo de exposição ao sol, eles utilizam blusas de mangas compridas, calças jeans e botas de borracha.
No terreno onde ficam os animais, é possível avistar aproximadamente 100 porcos, além de mais de 30 gados e cavalos. A escola também reservou uma área para recreação dos coelhos, onde os alunos, diariamente, limpam o local e alimentam os bichos.
Na área de agricultura, os discentes constroem o sistema de Horta Mandala, que consiste em formar um círculo com todas as plantações ao redor de uma área de irrigação. O sistema é organizado e o plantio de alfaces e outros vegetais também são de responsabilidade dos alunos que, ainda, fazem a limpeza do local.
Após a aula prática, os alunos retornam para os dormitórios onde descansam e se preparam para a última aula do dia que é do ensino médio regular. Às 22h eles se recolhem para dormir e descansam até às 6h, onde a rotina se repete.
Herança de padres italianos
O diretor Celso Batista contou que a escola surgiu após alguns padres italianos, ao evangelizarem as pessoas que viviam nas proximidades da BR-174, constatarem a necessidade de educação básica para os comunitários.
Ele disse que, na década de 1970, a instituição foi conduzida por Alessandro Rigamonte, responsável pela implementação do curso profissionalizante de zootecnia aos alunos matriculados no ensino fundamental e também pela expansão do local.
Atualmente, a escola enfrenta o desafio de custear os salários dos professores técnicos e arcar com as despesas na infraestrutura. De acordo com Celso, a instituição registra cerca de R$ 700 mil de despesas anuais e ressaltou que apesar de captar recursos oriundos do município, conta com doações para continuar.
“Temos uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), que nos ajuda muito com alimentação e remuneração dos professores do ensino básico. No Estado, conseguimos alguns recursos do Fundo de Promoção Social (FPS) nos últimos anos, o que nos auxilia com equipamentos, mas não temos um convênio oficial com Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Estamos abertos para toda ajuda”, disse o diretor.
Aqueles que quiserem contribuir com doações de alimentos, material didático e dentre outros itens, podem acessar as informações no www.escolaagricolamanaus.org.br ou entrar em contato pelo telefone (92) 99113-7644.
Em números
Ensino médio profissionalizante – técnico em agropecuária:
Ensino médio: 140 alunos – 105 homens e 35 mulheres
Corpo docente: 10 professores
Ensino fundamental: 450 alunos
Texto: Izaías Godinho / Fotos: Izaías Godinho

