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Entrevista com o Diretor Geral da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Produção Sustentável do RS, que nos fala sobre a agricultura e as crises climáticas que sofreu e ainda sofre o Estado gaúcho

Márcio Amaral nos dá uma boa explicação sobre o clima e o agronegócio no Rio Grande do Sul, depois de dois anos seguidos de temporais, secas e estiagem

Contextualização: clima, enchentes e vulnerabilidade estrutural no RS

O RS é um dos estados mais importantes da agricultura brasileira, com destaque para culturas como soja, arroz, milho, feijão, horticultura, fruticultura, além de atividade pecuária, com a produção de leite e carnes

 A variabilidade climática, influenciada por fenômenos como El Niño, condiciona períodos de chuvas intensas — e nos ciclos recentes (2023-2024) o retorno da fase “El Niño” coincidiu com precipitações acima da média no Sul, aumentando o risco de eventos extremos.

Historicamente, muitos sistemas produtivos e logísticos (infraestrutura, armazenamento, transporte) foram estruturados para climas mais “regulares”, com menor risco de cheias intensas — o que torna o setor vulnerável quando as precipitações excedem os padrões esperados.

Essa combinação — produção agrícola intensiva + variabilidade climática crescente + infraestrutura vulnerável — cria o terreno para que temporais e cheias causem efeitos severos e multifacetados.

Mecanismos de impacto das cheias sobre a agricultura. Esse estudo sustenta que as cheias atuam sobre a agricultura por pelo menos quatro vetores principais de dano, que se reforçam mutuamente:

  1. Inundação de áreas cultivadas ou em colheita — perda direta da produção

– Campos de grãos (soja, milho, arroz, feijão) ficaram submersos no pico das cheias, destruindo lavouras prontas ou em fase final de desenvolvimento. Em muitos casos, nem houve colheita.

– Culturas de ciclo mais curto, como hortaliças e verduras, foram devastadas: há relatos de perdas de até 90% das hortaliças e 70% de outras safras sazonais em vários municípios.

– A saturação prolongada do solo compromete a saúde das plantas: excesso de água reduz a oxigenação radicular, favorecendo hipóxia, queda de frutificação e abortos de produção — o que agrava perdas mesmo em áreas não inundadas diretamente. Esse efeito foi documentado em fruticultura e cultivo de citros durante as cheias de 2024.

 

  1. Danos à infraestrutura agrícola: silos, armazenagem, logística e transporte

– O relato oficial da EMATER/RS indica que milhares de silos e armazéns foram danificados ou destruídos. Famílias rurais perderam casas, depósitos, estruturas de armazenamento — o que inviabiliza o resgate da produção mesmo se colhida.

– A logística foi profundamente afetada: estradas, pontes e rodovias foram danificadas ou destruídas, impedindo ou dificultando o escoamento da produção, transporte de insumos ou acesso de máquinas, elevando custos e atrasando safras e replantios.

– Armazenagem de grãos (principalmente soja, milho, arroz) sofreu enormes perdas — inclusive de lotes colhidos e armazenados, agravando o impacto econômico não apenas sobre a safra corrente, mas sobre os estoques estratégicos.

  1. Impactos sobre pecuária, produção animal e forragem

– Pastagens — tanto nativas quanto cultivadas — foram severamente afetadas: áreas alagadas, perda de volumoso, degradação da qualidade do solo, o que prejudicou severamente a alimentação de bovinos, ovinos e outros ruminantes.

– Silagens foram perdidas em larga escala, reduzindo reservas de alimento para a estação seca ou períodos críticos, o que comprometeu a produção de leite e carne nos meses seguintes.

– Em granjas e aviários, mortalidade de animais (aves, suínos) foi relatada, especialmente quando inundações atingiram áreas produtivas ou de estocagem de ração — o que reduziu o rebanho e comprometeu planos de produção e gerou perdas diretas.

 

  1. Efeitos socioeconômicos e estruturais prolongados sobre a agricultura e comunidades rurais

– O número de propriedades rurais afetadas foi enorme: o relatório mais recente aponta mais de 206 mil propriedades impactadas no RS entre final de abril e maio de 2024.

– Entre produtores de grãos, cerca de 48.674 foram diretamente atingidos.

– Muitas famílias rurais perderam moradias, depósitos, silos e outras estruturas fundamentais para a atividade agrícola. Isso não só representou perda de capital físico, mas comprometeu a retomada da produção no curto e médio prazo.

– A interrupção da cadeia logística (estradas cortadas, escoamento comprometido) dificultou a venda da safra remanescente, aquisição de insumos, replantio e manutenção da atividade, o que gerou retração produtiva, ainda sentida.

Evidência concreta dos impactos recentes (2024) — um caso paradigmático

A seca / enchente de 2024 no RS — marcada por chuvas intensas entre abril e maio — já é considerada por muitos técnicos como a pior calamidade climática do estado. Os dados oficiais compilados pela EMATER/RS e demais órgãos mostram:

– Mais de 206 mil propriedades rurais afetadas.

– Dos produtores de grãos, cerca de 48.674 foram prejudicados.

– A produção de soja sofreu queda importante: estimava-se 22,24 milhões de toneladas; após as cheias, a nova estimativa despencou para cerca de 19,53 milhões de toneladas, representando uma perda de 2,71 milhões de toneladas — mais de 12% da produção prevista.

– Milhares de silos, casas, armazéns, depósitos foram danificados ou destruídos, comprometendo a armazenagem e comercialização da safra — não apenas os grãos, mas insumos, sementes e estoques essenciais.

– Horticultura e produção de hortaliças sofreram devastação em várias regiões: redução de oferta, perdas de renda, abastecimento comprometido para consumo urbano.

– A pecuária — bovina, suína e de aves — também foi severamente atingida, tanto pela perda de pastagens e alimento quanto por mortalidade de animais e dificuldades de logística, com impacto direto sobre produção de leite, carne e ovos.

Além disso, os custos de reconstrução (infraestrutura, logística, armazenagem), a necessidade de replantio e a insegurança quanto ao clima futuro elevaram os riscos de insolvência para pequenos e médios produtores, com consequências sociais e econômicas de médio/longo prazo.

Interpretações — por que esse impacto é estrutural, não apenas conjuntural

Com base nessa análise e evidências recentes, podemos afirmar que:

As cheias extremas e temporais intensos, cada vez mais frequentes no Rio Grande do Sul, estão gerando um impacto estrutural e sistêmico na agricultura do estado — não apenas perdas de safra, mas a desestruturação da base produtiva, logística, armazenagem e reprodução social da atividade agrícola.

As cheias não são apenas um choque pontual: elas expõem vulnerabilidades do modelo produtivo que supunha clima e infraestrutura estáveis. Os efeitos vão desde perdas imediatas de produção até prejuízos acumulados em capital físico (silos, máquinas, moradia rural), insegurança alimentar e financeira dos produtores, enfraquecimento da capacidade de replantio e recuperação, e atrofia da cadeia logística e de abastecimento.

Esse tipo de crise tende a se repetir com a intensificação das mudanças climáticas, de modo que, se não houver adaptação estruturada, há risco real de declínio da competitividade agrícola do estado, êxodo rural, perda de capacidade produtiva e agravamento da vulnerabilidade social no campo.

Implicações para Política, Adaptabilidade e Resiliência Agrícola

Com base neste estudo, temos as seguintes proposições:

  1. O Estado e organizações públicas (agrícolas, de crédito, extensão rural) reconheçam as cheias como risco estrutural, e não apenas episódico. Isso demanda planejamento de longo prazo, seguro climático robusto e políticas de resiliência.
  2. Investimentos em infraestrutura resiliente: silos elevados/imunes a cheias, drenagem de áreas agrícolas sujeitas a alagamentos, reconstrução de rodovias com escala de resiliência hídrica, melhoria de logística para abastecimento e escoamento mesmo em crise.
  3. Diversificação de sistemas produtivos e adoção de práticas agrícolas adaptadas ao clima: rotação de culturas, uso de cultivares tolerantes à umidade, sistemas de manejo e drenagem, agricultura de baixa dependência de monoculturas vulneráveis, integração lavoura-pecuária, agroflorestas etc.
  4. Fortalecimento da assistência a pequenos e médios produtores: apoio emergencial, crédito de recuperação, seguro climático, programas de replantio com sementes adaptadas, assistência técnica para reconstrução etc.
  5. Monitoramento climático permanente e integração com políticas de mitigação das mudanças climáticas: adoção de práticas de conservação ambiental, restauração de áreas ripárias, preservação de ecossistemas naturais que atuam como amortecedores de cheias.

 Cheias como novo paradigma climático-agrícola do RS

Em síntese: o recente ciclo de cheias e temporais no Rio Grande do Sul não deve ser visto como um evento isolado ou “acidente da natureza”, mas como um sintoma de um novo paradigma climático. Esse paradigma exige repensar a agricultura, não como uma atividade estática num clima previsível, mas como um sistema dinâmico que deve incorporar resiliência, adaptabilidade e sustentabilidade. Se não houver mudanças estruturais profundas — na infraestrutura, nas práticas agrícolas, nas políticas públicas e na organização social rural —, o setor agrícola do RS corre o risco real de ver sua produtividade, estabilidade e viabilidade comprometidas a médio e longo prazo.

Com base no estudo acima, vislumbramos três cenários possíveis:

CENÁRIO 1 — “Colapso Produtivo Parcial” (tendência negativa)

Pouca adaptação, respostas tardias e repetição de desastres climáticos intensos.

 Características principais

  • Eventos extremos (cheias, ciclones, tempestades) continuam aumentando em frequência e intensidade.
  • Políticas de reconstrução são reativas, emergenciais e curtas — sem planejamento estrutural.
  • Pequenos e médios produtores perdem capital físico (casas, silos, máquinas) e não conseguem se recuperar financeiramente.
  • Há queda contínua das áreas produtivas em regiões cronicamente inundáveis (bacias do Taquari, Caí, Jacuí, Sinos e Lagoa dos Patos).
  • Êxodo rural cresce; mão de obra agrícola diminui.
  • A logística segue vulnerável: estradas e pontes são arrumadas, mas não adaptadas.

 Consequências para a agricultura

  • Perdas recorrentes de produção em culturas sensíveis (hortaliças, fruticultura, soja em áreas baixas, arroz mal manejado).
  • Redução do PIB agropecuário do RS e perda de competitividade nacional.
  • A pecuária enfrenta queda de produtividade devido a pastagens degradadas e alta mortalidade em enchentes.
  • Cada vez mais regiões tornam-se “zonas de risco agrícola permanente”.

 Resultado provável

O RS mantém produção agrícola relevante, mas perde posição estratégica no Brasil; regiões devastadas passam a ter ocupação econômica marginal. Crises sociais se intensificam.

 

CENÁRIO 2 — “Adaptação Moderada e Recuperação Gradual” (tendência intermediária)

O estado reage, mas não plenamente; há avanços, porém insuficientes diante da velocidade das mudanças climáticas.

Características principais

  • Políticas públicas de prevenção avançam, mas com implementação lenta.
  • Alguns municípios constroem infraestrutura mais resiliente (elevação de silos, estradas drenantes, contenção de encostas).
  • Programas de crédito e seguro agrícola melhoram, mas não atingem todos os produtores.
  • Parte das regiões mais afetadas redireciona sua produção: hortifruti migra para áreas mais altas; arroz melhora sistemas de drenagem.
  • A extensão rural passa a orientar manejo de solos, restauração de áreas ripárias e uso de cultivares mais resistentes.

Consequências para a agricultura

  • As perdas anuais diminuem, mas ainda ocorrem de forma significativa.
  • Produtividade média se mantém estável; não cresce, mas também não despenca.
  • A sociedade rural mantém seu tamanho, mas envelhece — jovens seguem migrando pela insegurança econômica.
  • Investidores só aplicam capital em regiões mais altas, ampliando desigualdades regionais.

Resultado provável

O RS mantém protagonismo agrícola, mas sob constante tensão climática. A economia rural torna-se mais heterogênea: algumas regiões prosperam, outras se estagnam.

 

CENÁRIO 3 — “Resiliência Profunda e Transformação Estrutural” (tendência positiva e sustentável)

O RS se reinventa como líder em agricultura adaptada ao clima extremo.

Características principais

  • O Estado implementa um plano multissetorial de adaptação climática rural (2025–2035).
  • Infraestrutura crítica é reconstruída com padrões resilientes:

. silos elevados,

. rodovias com drenagem inteligente,

. contenções naturais e artificiais,

o mapeamento e retirada ordenada de áreas de risco.

  • A pesquisa agropecuária (EMBRAPA, universidades, EMATER) passa a focar em cultivares tolerantes a excesso de umidade.
  • Expansão da agricultura regenerativa, integração lavoura-pecuária, agroflorestas e sistemas de produção mais diversificados.
  • Linhas de crédito climáticas permitem que até pequenos produtores adotem tecnologia.
  • Grandes cooperativas e cadeias agroindustriais investem em resiliência logística (armazéns descentralizados, rotas alternativas, monitoramento climático em tempo real).

Consequências para a agricultura

  • Perdas com cheias diminuem drasticamente; o impacto climático é amortecido.
  • A produtividade agrícola aumenta mesmo sob clima instável, porque solo, logística e práticas estão adaptadas.
  • A pecuária se torna mais eficiente e menos vulnerável (manejo de pastagens resilientes e confinamento estratégico).
  • Redução do êxodo rural: jovens permanecem porque há renda, tecnologia e estabilidade.
  • O RS torna-se referência nacional e internacional em agricultura resiliente ao clima.

Resultado provável

O estado alcança alta competitividade, garante segurança alimentar regional e exporta modelos de adaptação climática para outros estados e países.

Os três caminhos diante do clima extremo

Cenário Característica central Risco Resultado

1−Colapso Parcial Falta de adaptação Alto Perdas recorrentes, êxodo, queda de competitividade

2−Adaptação

Moderada Respostas insuficientes Médio Estagnação produtiva, desigualdade regional

3−Resiliência

Estrutural Inovação profunda Baixo Estabilidade, crescimento e destaque internacional

 

Escritora

Márcia Ximenes Nunes

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