Por Antônio Ximenes, diretor de Redação e correspondente na COP30 em Belém-PA
Entrevista exclusiva com o climatologista Carlos Nobre
Durante entrevista exclusiva ao programa Panorama da TV encontro das águas, o climatologista Carlos Nobre, uma das principais autoridades mundiais em estudos sobre florestas tropicais, soou um alerta grave: a Floresta Amazônica está próxima do ponto de não retorno, estágio em que o bioma perderia a capacidade de se regenerar devido ao desmatamento e às mudanças climáticas.
“A Amazônia está na beira do ponto de não retorno. O que observamos é uma interação direta entre o aquecimento global e o desmatamento. As secas extremas dos últimos anos, especialmente as de 2005, 2010, 2015, 2016 e a mais severa de todas, em 2023 e 2024, mostram que o equilíbrio do ecossistema está se rompendo”, afirmou o cientista.
Segundo Nobre, mais de 95% dos incêndios registrados na Amazônia em 2023 tiveram origem humana, o que agrava ainda mais a crise ambiental. Ele destaca que três quartos da proximidade ao ponto de colapso se devem ao desmatamento e à degradação da floresta, que já alteraram o regime de chuvas em grandes áreas do bioma.
“Em regiões como o sul do Pará, norte do Mato Grosso e sul do Amazonas, a estação seca já é quatro a cinco semanas mais longa do que há 45 anos. É uma mudança drástica, e estamos perdendo a floresta em ritmo acelerado”, alertou.
Fundo Floresta Tropical para Sempre: esperança e urgência
Durante a COP30, realizada em Belém, foi anunciado o Fundo Floresta Tropical para Sempre, que já conta com aportes superiores a 6,5 bilhões de dólares. Para Nobre, a iniciativa representa uma oportunidade histórica de financiar ações sustentáveis e remunerar os serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas tropicais.
“Quando o fundo for efetivado, esperamos que até 2030, ele poderá movimentar até 125 bilhões de dólares, somando investimentos públicos e privados. Esses recursos vão financiar apenas projetos renováveis, restauração florestal e preservação ambiental. Nenhum centavo será destinado a combustíveis fósseis ou desmatamento”, explicou.
O fundo também prevê o pagamento por hectare preservado, estimado em quatro dólares anuais, beneficiando comunidades que mantêm a floresta em pé. “Pela primeira vez, o mundo pagará pelos serviços ecossistêmicos das florestas tropicais, que removem carbono, protegem a biodiversidade e regulam o ciclo das chuvas. O Brasil, se zerar o desmatamento, será o maior beneficiário desse fundo, com 20% dos recursos destinados a povos indígenas e quilombolas”, destacou.
Transição energética: um caminho sem volta
Carlos Nobre também abordou a urgência da transição global para fontes de energia limpa, condenando novas explorações de petróleo, gás natural e carvão.
“Não faz sentido explorar mais combustíveis fósseis. Se continuarmos apenas com o que já está sendo utilizado hoje, ainda emitiremos de 9 a 10 bilhões de toneladas de CO₂ em 2050, o que elevará a temperatura global acima de 2°C. Precisamos interromper novas explorações imediatamente”, defendeu.
O climatologista ressaltou que o Brasil tem potencial para liderar a transição energética mundial, já que mais de 80% de sua eletricidade vem de fontes renováveis, como hidrelétrica, solar e eólica. Ele também citou o avanço da produção de hidrogênio verde, com destaque para a fábrica que será instalada no Ceará.
“As tecnologias estão avançando rapidamente. Já existem caminhões e navios movidos a hidrogênio verde, painéis solares em veículos e embarcações. Além de ambientalmente correta, a energia limpa é três a quatro vezes mais barata do que a gerada por combustíveis fósseis”, disse.
Por fim, Nobre reforçou que acelerar a transição energética é não apenas possível, mas essencial para garantir a sobrevivência da Amazônia e do planeta.
“Estamos diante de uma emergência climática global. O futuro depende das decisões que tomarmos agora. A floresta não pode esperar”, concluiu.


