A Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas é uma empresa pública que tem como missão ajudar na comercialização dos produtos do setor primário. À frente da instituição há dois anos, Flávio Antonio Filho, engenheiro de formação, conta na entrevista abaixo como os programas da agência estão melhorando a qualidade de vida dos produtores rurais; e as estratégias para alavancar a economia do Amazonas no setor primário.
FLORESTA: Presidente Flávio Antônio Filho, como a ADS está se reinventando para ampliar suas atividades com retorno social e econômico ?
FLÁVIO: A ADS se reinventa, a partir do seu novo orçamento (em 2019 foi de R$ 28 milhões). Quero destacar o exemplo da criação da nossa subvenção da juta e malva que desde 2014 havia atraso no pagamento da safra e em 2019 e início de 2020 nós pagamos mais de R$ 5,7 milhões de reais. Fizemos algo inédito que não se fazia nos governos passados, nós pagamos a safra no ano em que ela acontece. Isso é uma forma de você fomentar a economia, isso é uma forma de você gerar emprego e renda no interior.
FLORESTA: E na piscicultura o que a ADS tem feito?
FLÁVIO: Lançamos um edital para aquisição de aeradores, que são equipamentos que você coloca dentro da água (tanque escavado) para oxigena-la em um processo de aceleração, e, com isso, fazer com que a capacidade de reprodução dos peixes praticamente dobre, então fomentamos a piscicultura.
FLORESTA: E quais serão os desdobramentos desta iniciativa?
FLÁVIO: A ADS comprou mil aeradores e estamos subsidiando 80%. Nós pagamos a totalidade dos aeradores e estamos vendendo esse aerador por 20% do valor adquirido. Nós entramos com 80% e o piscicultor, que tem que preencher um cadastro, tem que comprovar determinados critérios que estão constantes no edital, compra e paga 20% do valor, a mesma coisa para os nossos produtores rurais, para as nossas cooperativas e para as nossas associações.
FLORESTA: Em um cenário mais amplo, observamos que a China, país mais populoso do mundo, com mais de 1,3 bilhão de habitantes, intenciona comprar a produção do Amazonas de peixes e de outros produtos da região. Como estamos nos preparando para um fornecimento de alimentos e uma escala mundial?
FLÁVIO: Nossa prioridade é a compra de alimentos dos produtores rurais para fornecer alimentos para a merenda escolar, mas também olhamos mais amplamente, e isso passa pelo aumento da nossa piscicultura, as subvenções e aumento de áreas plantadas da malva e juta; bem como da borracha, onde estamos investindo. Estamos nos preparando para algo maior e com tecnologia e capacidade de escala.
Então, hoje, o chinês que vem aqui, ele não vem para comprar um contêiner, ele vem para comprar uma produção de 10 anos, mas ele precisa saber que você vai produzir isso.
FLORESTA: A ADS também está trabalhando para melhorar a capacidade de transporte e de embalagem dos alimentos, que são comercializados nas feiras e nos mercados, de que forma?
FLÁVIO: Nós adquirimos de uma fábrica em uma licitação cerca de 800 mil caixas e vamos vender essas caixas para os produtores com um valor bem abaixo do que hoje é praticado no mercado, permitindo a eles melhor capacidade de armazenamento e transporte dos alimentos. Temos que levar em consideração que movimentamos R$ 21 milhões em 30 feiras existentes, sendo 21 no interior e 9 em Manaus.
FLORESTA: Os mercados da borracha, da malva e da juta estão adormecidos e podem retornar com mais força, com as medidas que estão sendo adotadas pelo governo. Como podemos retomar essas culturas em maior escala?
FLÁVIO: A economia está relacionada a três elementos: o primeiro é o preço, o segundo é a capacidade embarcada de extrair e o terceiro é o mercado. E estamos trabalhando para fortalecer as fibras e a borracha, nesta direção.
Não apenas, com a borracha, mas com todos os produtos relacionados ao setor primário, toda a cadeia produtiva do Estado. Tudo que possa ser produzido nós temos total interesse em fomentar e exportar e sermos alto suficientes, porque temos um potencial gigantesco.
FLORESTA: Quando a ADS, que precisa de mais quadros, vai realizar um concurso a exemplo do que aconteceu no Idam e na Adaf?
FLÁVIO: No primeiro momento, precisamos destacar que nunca houve concurso público desde a criação da agência; nós herdamos isso de outras administrações, outras gestões. Somos uma empresa pública regidos pela lei 13.303, somos uma estatal. Então, temos a possibilidade de termos concursados, temporários e celetistas. A ADS para o ano de 2019 fechou um contrato com a AADES (Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social) e contratamos aproximadamente 40 novos funcionários.
FLORESTA: Mas o concurso incentiva mais os funcionários, como realizá-lo então no curto e médio prazo, para melhor a performance da ADS?
FLÁVIO: Se você me perguntar: Flávio, você queria fazer concurso na ADS? Eu falo, para amanhã, sem dúvida alguma. Mas existem as implicações da lei de responsabilidade fiscal e nós temos que ter os pés no chão. Eu só prometo aquilo que eu posso cumprir. Então, como é que eu vou sonhar com concurso, antes de se nomear os concursados dos últimos dois concursos do sistema Sepror? Então, não só a ADS, que é por quem eu posso responder, mas a própria Sepror tem interesse no concurso e nós vamos trabalhar dentro da responsabilidade, dentro do limite que a lei de responsabilidade fiscal nos garante, para, tão logo seja possível, nós fazermos esse investimento, porque eu trato concurso público como investimento para o Estado.
FLORESTA: Eu gostaria de saber do senhor como a ADS está impulsionando as ações para criação de mais agroindústrias?
FLÁVIO: Fundamentalmente tentando fortalecer os programas operacionalizados pela ADS e ajudando na comercialização. Nós temos no âmbito, especificamente, para as agroindústrias, o programa Preme, que cuida da regionalização da merenda. Ele é um programa para o setor primário e serve cooperativas, associações, agroindústrias e produtores individuais. Então, a forma de fortalecer essas agroindústrias (o ideal seria que as agroindústrias não precisassem do governo no mundo que a gente vive hoje). O ideal seria que o governo pudesse olhar apenas para os pequenininhos ou para as agroindústrias menores; mas hoje apenas os pequenos produtores, apenas os agricultores familiares não conseguem suprir a demanda do governo. Por isso, estamos aumentando a participação das agroindústrias dentro da regionalização da merenda escolar.
FLORESTA: O Exército brasileiro precisa de alimentos para a tropa do Amazonas. O que está sendo feito para fornecer alimentos para as forças armadas via os produtores rurais que fornecem alimentos para a ADS?
FLÁVIO: O Amazonas saltou do 18° lugar para o 1° lugar nas compras institucionais das Forças Armadas em 2019, foram quase R$ 50 milhões, apenas para a agricultura familiar. Então, teve uma sementinha da ADS que foi plantada. O Exército, através do nosso cadastro, acessou os produtores rurais e teve retorno. Vamos intensificar essa relação em 2020 e nos próximos anos.
FLORESTA: Quantas feiras no Estado e quanto movimentaram?
FLÁVIO: São 9 feiras na capital e 21 no interior. As nossas feiras regionais, elas já movimentaram aproximadamente R$16 milhões de reais só na capital. De Janeiro à novembro de 2019.
FLORESTA: O que isso tem a ver com a agroindústria?
FLÁVIO: Nas nossas feiras, a gente só vende produto certificado a gente só vende produtos com selo de inspeção, a gente só vende produtos que estejam devidamente regularizados eu acho que com isso a gente privilegia a agro indústria.
FLORESTA: Presidente, como é que se pode alavancar de 9,25% para acima de 10% do PIB do setor primário no Amazonas e se tornar uma alternativa ao polo industrial?
FLÁVIO: Vamos ser bem realista, não vamos vender ilusão. Não existe nada a curto prazo que se consiga fazer para substituir o modelo da Zona Franca de Manaus, não vamos aqui vender ilusão, já teve Zona Franca Verde, já teve Terceiro Ciclo, já tiveram diversos outros programas que foram implementados por governos e todos morreram no meio do caminho. O quê que a gente aprendeu com isso? que a gente não pode mais errar, a gente já aprendeu o que deu errado então vamos colocar os pés no chão. Nada substitui a curto prazo o modelo Zona Franca de Manaus.
FLORESTA: A gente pode superar os 10% em mais ou menos cinco anos?
FLÁVIO: A gente vai trabalhar fortemente para que isso se torne uma realidade o quanto antes, agora estipular… veja esse ano por conta de promessas feitas que eram impossíveis de serem cumpridas por outros governos, nós fizemos um corte no orçamento, então não adianta nós falarmos que em cinco anos nós vamos fazer que a gente não sabe o que vem de crise e o que nós vamos ter de orçamento.
FLORESTA: Mas quanto ao seu feeling?
FLÁVIO: O meu feeling é que entre 4 a 5 anos a gente consiga superar esses 10% é o nosso objetivo é para onde nós vamos trabalhar e a semente ela tem que ser plantada agora.
FLORESTA: Avançando no nosso roteiro pragmático, como ADS que tem nas feiras uma plataforma de entrega de alimentos de qualidade e com menor custo para o consumidor pode ampliar no município de Manaus as suas atividades saindo de 9,10,12 a 15 feiras, bem como do interior?
FLÁVIO: O que vai se fazer e o que está se fazendo para melhorar a performance das feiras na capital e interior?
Nós estamos licitando esses kits feiras que nós distribuímos para o interior do Estado e capital. No que consiste esses kits? tenda 10 por 10, mesas, cadeiras, expositores de pescado e o fardamento que é boné e colete. Fazemos uma parceria com o Idam nos municípios para que gerencie essas feiras, aí nós vamos inaugurar até o final dessa gestão mais algumas feiras. A nossa ideia é interiorizar 100% a ADS até o final da nossa gestão, mas na medida do possível nós vamos inaugurando. Nós já temos 21, a previsão para o ano que vem é inaugurar pelo menos mais 10 feiras no interior do estado e da capital. A gente já está conversando com alguns locais porque nós não temos. Eu não posso colocar feira que vai concorrer com outras feiras da ADS.
FLORESTA: Em quantos municípios hoje a ADS está presente?
FLÁVIO: Somente em um município, Lábrea. Agora com essa nova interiorização, com esse projeto contratado no contrato de gestão juntamente a Aades, nós vamos ampliar 16 a 17 novos municípios e aí é claro que eu quero estar presente em todos os municípios…
FLORESTA: 16 a 17 novos municípios com sede da ADS em 2020?
FLÁVIO: Não haverá sede, apenas funcionários da ADS de uma composição com Idam, Adaf e Sepror.
FLORESTA: O senhor pode apresentar um balaço da sua gestão à frente da ADS?
FLÁVIO: Posso tratar em números né?! R$ 28 milhões de orçamento dos R$ 56 milhões previstos, mais R$ 40 milhões de PREME, mais R$ 5 milhões de PROMOVE, mais R$ 21 milhões em feiras e R$ 4 milhões no balcão do agronegócio. Esse é o balanço da nossa gestão. Tem muito mais coisa para se fazer.
FLORESTA: Quais são as projeções para 2020?
FLÁVIO: Criação da subvenção do pirarucu. Nós vamos pagar aproximadamente R$ 1 real por quilo. Vamos criar a lei de subvenção do pirarucu no Estado do Amazonas. A gente espera que o setor primário fique sempre na prioridade que o governador Wilson Lima tem tratado.
Texto: Antonio Ximenes / Fotos: Divulgação/ADS

