Por Beatriz Costa
Nas comunidades ribeirinhas e pequenas cidades do interior do Amazonas, empreender é muitas vezes questão de sobrevivência. Mas para tirar ideias do papel, os micro e pequenos empreendedores enfrentam um obstáculo que se repete: a dificuldade de acessar crédito. Entre burocracia, falta de agências bancárias e altas taxas, muitos ficam de fora do sistema financeiro tradicional, obrigando-se a recorrer a soluções alternativas.
A saga de quem busca crédito no interior
Em Tefé (AM), a artesã Francisca Souza, 42 anos, precisou de apenas R$ 5 mil para comprar matéria-prima e aumentar a produção de biojoias com sementes amazônicas. “Fui no banco, pediram extrato, comprovante de renda, fiador. Desisti. Eles nem sabem onde é minha comunidade”, conta. A história se repete em Tapauá, Carauari e dezenas de municípios sem presença física de bancos.
O economista e pesquisador Gilberto Nogueira, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, explica que “apenas 15% dos pequenos empreendedores do interior do Amazonas têm acesso a crédito formal. A maioria depende de parentes ou de atravessadores, que cobram juros altíssimos”.
Bancos: presença limitada e burocracia
Segundo o Banco Central, mais de 70% das cidades do Amazonas têm no máximo uma agência bancária — muitas vezes concentrada na sede do município, distante até dias de viagem fluvial para ribeirinhos. Além disso, pequenos produtores e empreendedores informais têm dificuldade em apresentar garantias exigidas pelos bancos tradicionais, como contracheques ou escritura de imóveis.
Fintechs: promessa de inclusão ainda distante
A chegada de fintechs — startups financeiras que oferecem serviços digitais — prometia democratizar o crédito na região. Porém, na prática, a falta de internet estável e de letramento digital limita o alcance dessas soluções. Mesmo plataformas como Nubank, Inter e Creditas apresentam baixos índices de concessão de crédito no interior do Amazonas, conforme apontou levantamento da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).
Alternativas que estão mudando o jogo
Entre as soluções que vêm ganhando força estão cooperativas de crédito e programas de microfinanças. A cooperativa Sicredi Amazônia, por exemplo, já atua em 40 municípios do estado, oferecendo empréstimos com juros mais baixos e menos burocracia. “Nós trabalhamos com a realidade do ribeirinho, aceitando movimentação do extrativismo como comprovação de renda”, destaca Jéssica Fernandes, gerente em Coari.
Outro exemplo é o microcrédito orientado do Banco do Povo do Amazonas, que liberou R$ 4,5 milhões em 2024 para pequenos empreendedores, principalmente em áreas de difícil acesso. Esses programas incluem capacitação financeira, ajudando a reduzir inadimplência.
O que precisa mudar?
Especialistas defendem políticas públicas específicas para o crédito amazônico. Isso inclui ampliar agências móveis e barcos-banco, flexibilizar garantias, adaptar linhas de crédito à realidade do extrativismo e do turismo comunitário, além de investir em conectividade para viabilizar fintechs.
“Sem crédito, não há desenvolvimento. E sem considerar a cultura e os desafios logísticos do Amazonas, os bancos nunca vão atender essa população de forma justa”, resume o professor de economia Luiz Amaral, da Ufam.
Em números:
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🏦 Agências limitadas: 70% dos municípios do Amazonas têm uma ou nenhuma agência bancária.
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💸 Exclusão: só 15% dos microempreendedores do interior têm acesso a crédito formal.
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🛶 Alternativas: cooperativas e programas de microcrédito crescem como opções viáveis.
O acesso ao crédito é fundamental para que o potencial econômico da floresta se traduza em renda e qualidade de vida para quem vive nela. Para isso, é preciso adaptar o sistema financeiro à realidade amazônica — e não o contrário.

