Elas tiveram papéis importantes na construção dos povos por séculos e muitas nos surpreenderam com suas conquistas, competências e exemplo de vidas

As propriedades rurais são responsáveis pela maior parte dos alimentos que chegam nas mesas dos alegretenses e brasileiros em geral. As produtoras rurais passam por muitas dificuldades, principalmente na comercialização dos seus produtos, por não produzirem em grande escala, acabam ainda adquirindo insumos com preços elevados devido ao seu baixo poder de barganha.
Temos como agricultura de pequeno porte, a mistura de produtoras rurais, que trabalham com menores produções e usam a mão de obra familiar, o que incluímos produtores de verduras, frutas, legumes, leite, mel, pães.
A mulher brasileira sempre teve importante papel na sociedade e a cada dia ganha mais espaço dentro dela. A presença das mulheres ao longo do tempo, ganhou espaço no meio de uma sociedade um pouco machista. Elas tiveram papéis importantes na construção dos povos. Aqui temos exemplos de mulheres corajosas, persistentes, que por séculos e gerações nos surpreenderam com suas conquistas e exemplo de vidas
CORAGEM E COMPROMETIMENTO COM A LUTA
ANA LUISA FLORES (1835 a 1845)
Durante a Revolução Farroupilha (1835 a 1845) ela doou 400 novilhos à causa. Em alguns momentos da revolução, a parceria entre o governo dos rebeldes e as mulheres fazendeiras se dava pela compra de gado. As mulheres que ficaram tocando as fazendas durante toda a revolução, cuidando de seus campos, gados, cavalos e aprenderam a se virar na coragem e no comprometimento com a revolução.

ANTÔNIA “JOVITA” ALVES FEITOSA (1848-1867)
Cearense, cujo apelido era Jovita, queria se alistar no exército brasileiro e lutar na Guerra do Paraguai.
Não podia porque era mulher e, então cortou os cabelos e se vestiu de homem, em 1865 foi aceita, mas logo foi descoberta.
Exemplo de mulher corajosa e destemida.

CLARA CAMARÃO (século XVII)
Nascida do Rio Grande do Norte, casou-se com o também indígena Antônio Felipe Camarão.
Clara acompanhou o marido nos combates contra os holandeses, no contexto das invasões da região nordeste. Afastou-se dos trabalhos domésticos e criou um pelotão de índias potiguares para participar das batalhas.
Foi uma grande guerreira em busca de seus princípios.

DANDARA
Foi a esposa de Zumbi dos Palmares, lutou ao lado dele pela libertação de negros no período colonial. Sua história é rodeada de mistérios, mas sabe-se que ela não fugia de uma briga, jogava capoeira, sabia manejar armas e caçava. Suicidou-se em 1694, junto com vários quilombolas, durante a tomada de Palmares. Mulher exemplo de luta, persistência coragem e amor a causa.
Agora seguimos com o exemplo de vida das nossas mulheres guerreiras, parceiras e comprometidas.
DETALHISTAS E FORTES

ROSÉLI ZACARIAS LOPES DE LOPES
…”meu nome é Roséli, tenho 45 anos, sou pequena produtora rural, vivo com minha família na propriedade rural. Após o falecimento do meu sogro, meu marido assumiu a parte de produção da chácara com minha sogra, moramos e produzimos aqui, um trabalho familiar onde todos pegamos juntos no pesado.
Minha sogra Gelsa Lopes, produz há muitos anos fazendo delícias com nossa produção, fizemos doce de leite, doce de abóbora, doce de figo, goiabada, ambrosia, geléias, rapaduras de leite e de abóbora, pães caseiros, tudo feito com produtos da nossa terra. Temos horta com verduras e legumes que vendemos na feira juntamente com os outros produtos.
Meu sogro era apaixonado por apicultura e piscicultura, seguimos fazendo o trabalho dele com venda de mel e de peixes. Produzimos alface, couve, cenoura, beterraba, espinafre, mostarda, rúcula, tempero verde, cebola, batata doce, abóbora, brócolis, mandioca, também picamos e vendemos já embalados, prontos para colocar na panela. Também temos pomares de laranjas, pêssegos e bergamotas.

Como mulher, hoje já somos reconhecidas e muitas propriedades rurais são administradas por elas. Na atual situação muitas coisas deveriam melhorar. Acho que as pessoas deveriam fazer o hábito de comprarem os produtos locais.
Um ponto positivo do agronegócio é que produzimos um alimento de ótima qualidade e com responsabilidade, às vezes os consumidores nos agradecem. Um ponto negativo são as linhas de crédito para o pequeno produtor, a burocracia é muito grande e dificulta muito.
Como representa pra mim ser uma mulher do agronegócio, acredito que toda mulher que vive e trabalha nessa área, deve ter muito orgulho dela mesma.
Apesar de só termos sido reconhecidas a pouco tempo, fizemos a diferença entre os homens, penso que somos mais detalhistas e perfeccionistas. Apesar de não ser uma vida nada fácil, gosto muito de ser uma empreendedora rural.
ÍRIS MADALENA GARAIALDE PERES
Íris tem 56 anos e é uma professora rural….”trabalho desde 2008 na zona rural, atendendo o Ensino Fundamental e o Ensino Médio com as disciplinas de história, geografia, sociologia e filosofia. Amo trabalhar na zona rural, a comunidade é muito receptiva, os alunos são bem comprometidos.
Sou formada em história e especialista em educação, comecei a trabalhar na rede municipal de ensino em 2005, na zona urbana e em 2008 fui designada pra trabalhar na EMEB Murillo Nunes de Oliveira, Polo da Conceição, distante 47 km da cidade. Em 2015 fui eleita pela comunidade escolar vice diretora do Polo, com mandato de 3 anos. Atualmente trabalho na EMEB João André Figueira-Polo do Durasnal.
A profissão de professor é muito exigida, trabalhamos com vidas, educamos e orientamos as crianças e os adolescentes para que tenham um futuro melhor. Ser professor na zona rural é ressignificar vidas, apontar caminhos e possibilidades. Educar na zona rural é ampliar horizontes. Os órgãos públicos e as autoridades poderiam investir mais na educação da zona rural, para que essas crianças e jovens com tantas disparidades sócio econômicas, possam ter as mesmas oportunidades que os alunos da cidade


O salário dos professores é baixo, falta estrutura nas escolas, não temos internet, trabalhamos com muita deficiência, os transportes escolares em péssimas condições, muitas vezes nosso trabalho é feito com recursos nossos.
Penso que os colégios rurais precisam muito melhorar o aspecto físico, com ginásios cobertos, equipados com recursos tecnológicos, com mobiliário adequado, biblioteca com espaço físico maior. Os alunos chegam na escola 8.30hs, tomam café da manhã, às 9hs entram pra sala de aula, ao meio dia servem o almoço, depois voltamos as aulas e às 16hs retornam para suas casas. Trabalhamos com o turno integral, as aulas são de segunda a sexta, com 8 períodos de aula por dia.
A escola de zona rural propicia aos alunos que moram distantes dos colegas a sociabilização, a escola acaba se tornando o espaço também de lazer para eles, visto que passam boa parte do tempo na escola. Eu tenho um papel social muito importante, através do conhecimento posso empoderar crianças, jovens e suas famílias, para que elas assumam e tenham consciência da importância da mulher no campo.
ZILÁ LEITE
“…Meu nome é Zilá, nasci no Alegrete, tenho 69 anos, sou produtora rural, pedagoga e ceramista. Meu pai era médico e sempre vivemos na cidade, mas com um pé na campanha, pois ele era um apaixonado pelo campo. Minha infância foi marcada pelos fins de semana e férias na fazenda de meu avô materno, onde ajudávamos na lida campeira. Quando casei fui morar no meio rural e durante muitos anos vivi as alegrias e dificuldades que esse estilo de vida nos proporciona.
É um aprendizado em resolver problemas e superar situações que só quem vive no campo compreende, mas que nos fortalece e nos faz crescer. As alegrias de viver no campo não tem preço. É uma vida plena de beleza! Hoje meu filho mora no campo e minhas filhas também tem suas vidas ligadas ao meio rural.
O nascer do sol, o ritual do nosso chimarrão, o fogo na lareira, o trabalho com o gado, sair para camperear ou tropear com os filhos, passando o encantamento e o amor pela querência, olhar o horizonte e encher o peito de ar puro, sentindo o orgulho de viver nesse paraíso, é a mais pura sensação de liberdade que eu já senti. Concordo quando eu ouço dizer que o campo é para os fortes!
VÂNIA GUERRA
…”sou Bacharel em letras, com habilitação em português e inglês, Bacharel em Direito, professora estadual aposentada e produtora rural. Tenho 65 anos e sou apaixonada por Alegrete e pelo campo. Moro na fazenda Várzea do Inhanduy, no km 634 da BR 290, já há 7 anos.

Minha rotina no verão começa entre 6.30hs e 7hs, no inverno entre 8hs e 8.30hs. Até 2018 quando me envolvi na política, fazia todo o trabalho de campo de administração da fazenda, cuidava dos animais e campereava todo o nosso campo, a partir daí passei o campo para meu filho mais velho, atualmente também residindo na fazenda, o que no momento me permite cuidar de meus assuntos políticos.
Adoro andar à cavalo, comer pitanga no mato, o cheiro do campo, o canto dos passarinhos e as lidas campeiras.
Cuido de todas as tarefas domésticas, arrumo a casa e leio muito. Sou uma leitora voraz desde criança. Adoro o silêncio dos campos, para mim um fogo na lareira, um cálice de vinho e um bom livro são ingredientes para um dia perfeito. Se não estou trabalhando, estou lendo.
Administro minha fazenda, realizo minhas tarefas domésticas e depois rezo, sou devota de Nossa Senhora de Fátima e sempre que posso agradeço a ela. Fui educada para o casamento e para as responsabilidades dele. Tudo que fiz, seja no trabalho, no estudo, no campo eu sempre coloquei minha família em primeiro lugar.
Hoje faço o que gosto, cuido do gado, saio à cavalo. Hoje meu tempo e minha vida são realmente meus, também faço política e me envolvo nos assuntos do campo e da cidade. Divido minha vida com meu marido, que nem sempre vê com bons olhos a minha intensa atividade. Sempre tenho projetos, planos e ações que me envolvem muito. Aqui na fazenda já levanto feliz e planejando mil coisas ao mesmo tempo, quanto mais tenho coisas pra fazer, mais criativa me sinto. É assim que entendo a vida, sou útil e produtiva, sou naturalmente otimista e adoro a vida!
Não vejo o trabalho como um sacrifício, vejo o trabalho como a mola mestra da nossa vida. Ele além de nos dar dignidade, nos ajuda a superar as dificuldades e problemas ao longo da vida. Quem tem que trabalhar no outro dia, tem que deixar de lado os problemas para seguir em frente. E, assim, as coisas vão se ajeitando e os problemas sendo superados. Por isso sempre digo que o “trabalho é um santo remédio…”
COMPETENTES
ELIANE VICENTINA DA SILVA LONDERO
…”sou Eliane, tenho 58 anos e sou casada. Minha mãe de origem alemã e meu pai brasileiro, somos 7 filhos. Meus pais trabalhadores rurais, ele era tropeiro. Naquela época, como um bom gaúcho gostava muito de cavalos, ele fazia tropeadas de gado e ficava até um mês fora de casa.

Nossa mãe e os filhos que tocavam a propriedade, com muitos sacrifícios adquiriram suas terras e logo começaram a construção de uma bela casa de alvenaria, com enormes janelas de vidro, isso em 1965 era a primeira propriedade daquele lugar.
Era uma casa muito visitada, porque nem os fazendeiros tinham as janelas grandes como a nossa.
O motivo das janelas enormes, é que nossa mãe era a costureira da região e só tinham como luz as lamparinas de querosene, ela fazia camisas, bombachas para os homens, vestidos de prenda, enxoval de noivas e os vestidos também.
Com os retalhos eram feitas nossas bonecas. Tínhamos muitas vacas leiteiras e fazíamos queijos, vendíamos para todas as famílias da redondeza. Nossa escola ficava 30 min de casa. Eu fui crescendo no serviço ajudando minha mãe. A escola era até o quinto ano e uns foram morar na cidade para continuar os estudos.
Eu fiquei com meus pais e cada dia que passava, aprendia mais do trabalho rural, pois fui ficando responsável pelo trabalho no campo, da plantação de batatas e mandiocas, hortas com variadas verduras e pomares com muitas frutas. No ano de 1987 casei e meu esposo era plantador de grandes áreas de arroz, fui morar longe de casa, mas em 1996 uma mudança drástica na minha vida, voltei para casa de meus pais com meus filhos porque meu pai estava doente.

Retomei aquele trabalho, tomando gosto de novo, passei a cuidar das ovelhas, do pomar, das hortas, meus pais faleceram e segui cuidando do que era nosso. O tempo foi passando e eu comecei a fazer cursos de aperfeiçoamento para trabalhar com lãs de ovelhas, fios, tecelagem, curtume e pelegos que os gaúchos usam muito nos arreios dos cavalos e para tapetes.
Faço parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alegrete, com a coordenação do grupo de mulheres, viajo muito para fazer cursos de aperfeiçoamento, seminários de liderança para mulheres rurais que acontecem pelo nosso estado. Também já participei da Marcha das Margaridas (mulheres do campo,da floresta e das águas lutando pelos seus direitos) em Brasília e faço parte do núcleo de mulheres de Alegrete, único do estado do RS, mulheres do Agro.
Estou sempre adquirindo experiências que usamos na propriedade e já com a ajuda de minha filha Milene, que também passa por grande transformação em cursos, seminários por aperfeiçoamento de lideranças jovens rurais. Dando continuidade na propriedade, hoje trabalhamos com a ajuda da EMATER, Secretaria de Agricultura do município e SENAR. Também faço parte do Conselho Agropecuário do município de Alegrete, represento a Associação de moradores de Maçambará, Alegrete e Itaqui, que tem como sigla AMMAI. Criamos essa associação para dar condições da balsa que faz a travessia Alegrete a Itaqui.
Como mulher trabalhadora rural temos que administrar e fazer o trabalho, que geralmente era feito por homens. Muitos falam que somos metidas e mandonas. Me sinto realizada no que faço e tento fazer sempre com muita qualidade, cuidando da propriedade, do pomar, do artesanato, do curtimento de pelegos, crochê e minha filha já está seguindo esse caminho que eu acho que é o certo…”
AS MULHERES TAMBEM SÃO MACHISTAS
Aqui está um pouco das histórias dessas mulheres rurais e reais. Nós vivemos numa sociedade ainda machista para o século XXI, onde nós mulheres também somos machistas, infelizmente.
Quando pensamos em quem dirige um ônibus, quem vende gado em remate, quem planta arroz, quem faz uma horta, quem cuida de pomares, quem é militar, quem é bombeiro, quem cria cavalos, quem tem porte de armas, quem é gerente bancos, quem dirige um táxi, quem tira leite…a primeira pessoa que vem na nossa cabeça é um “homem”.
Nós mulheres somos possíveis a fazer tudo isso e muito mais, às vezes até com mais perfeição e competência. Então você mulher seja corajosa, habilidosa, impulsiva, pertinente, admirada, petulante, competente, eficaz, delicada, amorosa, seja a diferença nesse mundo desigual e tão desunido, deem força uma para as outras, unam-se pela mesma causa e o mesmo propósito. Vamos fazer um mundo mais bonito e possível de vivermos.
Texto: Márcia Ximenes Nunes
Fotos: Reprodução