Exército e índios Kubeo constroem Escola Estadual Nossa Senhora Imaculada Conceição em Querari

A instituição de ensino é a mais distante do país e fica a 4h30 de avião de Manaus até a fronteira com a Colômbia

ANTONIO XIMENES
 
SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA – A comunidade dos índios kubeo, na fronteira com a Colômbia, no 2º Pelotão Especial de Fronteira Querari, construiu a nova Escola Estadual Nossa Senhora da Imaculada Conceição (padroeira do Exército brasileiro) com sete amplas salas para 180 alunos. A participação do Exército transportando praticamente todo o material escolar e na construção da escola foi fundamental. 
 
A instituição de ensino conta com 18 professores, dos quais a maioria bilíngues Português/Kubeo. Há 25 anos, os indígenas reivindicavam uma escola definitiva para a educação dos seus filhos. Em 2019 um temporal levou a antiga escola improvisada em um galpão da Comara (Comissão de Aeroportos da Região Amazônica).
 
Em um ano ela foi construída e a inauguração no dia 9 de dezembro contou com a presença de toda a comunidade e o comandante do 5º Batalhão de Infantaria de Selva, Sylvio Doktorczyk . “Nossa missão era construir a escola para oferecer o melhor aos jovens que moram aqui, na região mais distante do Brasil. Missão cumprida”, disse o comandante Doktorczyk.

PILOTO

O estudante Kubeo Gerson da Silva Lan, 14, disse “que seu sonho é ser piloto de aeronave e que com a escola até o ensino médio, vai poder se preparar para um dia, quem sabe, poder fazer as provas para ser piloto. Meus pais não tem condições de pagar meus estudos fora, mas vou me preparar para ser piloto estudando aqui na aldeia”, comentou. Como ele, dezenas de outros estudantes kubeo tiveram seus sonhos renovados com a construção da escola.

A professora Kubeo Roseni Gomes Torres, 34, que também é socióloga e especialista em Educação Escolar Indígena, disse “que há 25 anos esperava uma escola deste nível, com infraestrutura, qualidade pedagógica e boas condições materiais. Nós ganhamos mais dignidade, aqui na fronteira no meio da floresta”.
Professora Kubeo socióloga e o esposo com o filho

Com mais de trezentas pessoas na comunidade, onde o 2º Pelotão Especial de Fronteira Querari é o núcleo de defesa da soberania nacional, em uma região onde há rotas do narcotráfico do outro lado da fronteira e atuação de grupos guerrilheiros, que não aceitaram o acordo de paz colombiano;  a escola Nossa Senhora Imaculada da Conceição, é um símbolo de cidadania, através da educação, e a melhor forma de evitar que os jovens sejam cooptados pelos grupos que cometem crimes transnacionais.

UNIÃO

O tenente Uerlei Nivaldo da Costa Moreira, 29, comandante do 2º PEF Querari, disse que a escola uniu ainda mais a comunidade aos militares, porque todos construíram juntos o sonho de várias gerações, que estão em uma das áreas mais distantes do Brasil (de Manaus até Querari são 4h30 de avião Caravan). “Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e continuaremos fazendo, porque acreditamos que a Educação nos ajuda no fortalecimento do caráter dos jovens e permite que eles sonhem de uma maneira concreta, porque dá pra vencer na vida com os estudos”.

LIDERANÇA

O ‘capitão’ da aldeia Kubeo Osvaldo José Torres, 37, disse “que a escola representa mais do que esperança, mas a certeza que os jovens terão um futuro melhor com o ensino que será dado de forma bilíngue respeitando a cultura local”. Ele destacou ,também, que com o ensino médio, os jovens vão ficar mais tempo com os pais o que fortalece a formação deles, sem ter que ir para a cidade, onde há riscos que na aldeia não há, como a delinquência e às bebidas. É uma grande conquista para nós”.

AGRADECIMENTO

A professora Janaína Souza da Silva, 34, esposa do sargento Felipe Gonçalves Martins, 36, está há dois anos e meio no 2o PEF Querari. Seu carisma e capacidade de trabalho com a comunidade faz a diferença. Ela é uma referência pela sua dedicação e envolvimento com a educação das crianças e jovens em geral. Seu discurso no ato da inauguração foi emocionante e comoveu os kubeo e os militares. 
 
Ela disse: “A história da nossa escola começa no ano de 1973, e foi fundada com o nome de Escola Marechal Rondon. desde então passou a atender crianças da comunidade de Querari e das vizinhanças, que vinham em embarcações e a pé por dentro da floresta. Em 1990, a escola passou a ser conveniada com a Secretaria Estadual de Educação (SEDUC), mudando seu nome para Escola Estadual Nossa Senhora Imaculada Conceição, a padroeira do Exército brasileiro. Ao longo desses 47 anos de história vários alunos e professores partilharam seus saberes”.
Professora Janaína Souza

Aplaudida por alunos, professores, lideranças indígenas e militares, se emocionou, mas continuou sua fala dizendo: ” Infelizmente em 2019, o prédio onde funcionava a escola, e que estava deteriorado, não resistiu a uma tempestade e foi pelos ares, impossibilitando, assim, a realização das aulas. Diante disso, a comunidade de Querari, que sempre acreditou na educação, encontrou no Exército o apoio que precisava. Encontrou um comandante que não mediu esforços para proporcionar uma escola mais digna para nossas crianças e jovens. Obrigado Comandante Sylvio  Doctorczyk. Obrigado Cláudia sua esposa e a todos do 2º PEF e da comunidade Kubeo, que não mediram esforços para que este sonho fosse concretizado”.

Professora Janaína com menino nos braços, esposa do tenente do PEF, esposa do comandante e a mãe dele

Post Author: Victória Rosas

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