Deputado federal coordenou o “Exército do Lula”, canal que chegou a quase 11 milhões de participantes no WhatsApp, e organizou ações para ampliar o alcance da campanha petista nas redes sociais
O deputado federal André Janones (Rede-MG) ganhou protagonismo na campanha presidencial de 2026 ao comandar uma ampla mobilização digital em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). À frente do chamado “Exército do Lula”, o parlamentar organizou apoiadores nas redes sociais e ajudou a estruturar a estratégia de comunicação utilizada pelo petista no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL).
A atuação de Janones ganhou reconhecimento público após a vitória de Lula, no domingo (25). Durante o discurso de comemoração, o presidente reeleito agradeceu ao deputado e o chamou de “general”, em referência à capacidade de mobilização da militância na internet.
O canal criado por Janones no WhatsApp chegou a reunir quase 11 milhões de participantes, transformando-se em uma das principais ferramentas de articulação dos apoiadores do presidente. Por meio da plataforma, o parlamentar distribuía orientações diárias para ampliar a circulação de conteúdos favoráveis a Lula e disputar espaço com publicações ligadas ao bolsonarismo.
“Exército do Lula” mobilizou milhões de apoiadores
A estratégia coordenada por Janones tinha como objetivo transformar os apoiadores do presidente em agentes ativos da campanha digital. As orientações compartilhadas no canal incluíam a republicação de vídeos, a divulgação de hashtags, a participação em tendências nas redes sociais e a realização de buscas por termos favoráveis ao candidato petista.
Uma das iniciativas incentivava os eleitores a publicar fotografias usando as cores verde e amarelo e fazendo o gesto de “L”, símbolo associado a Lula. A proposta buscava disputar com o bolsonarismo a identificação visual com a bandeira brasileira, amplamente utilizada pela direita nos últimos anos.
A mobilização também procurou alcançar eleitores indecisos e pessoas menos engajadas politicamente. Em vez de depender exclusivamente dos perfis oficiais da campanha e de publicações de grandes influenciadores, a estratégia estimulava o compartilhamento de mensagens entre amigos, familiares e grupos privados.
A atuação nas redes foi acompanhada por manifestações presenciais e iniciativas de mobilização nas ruas. Especialistas em comunicação política ouvidos pela Agência Pública apontaram que o trabalho de engajamento digital ajudou a ampliar o alcance da campanha e pode ter contribuído para reduzir a abstenção eleitoral.
Transmissão de 24 horas marcou reta final da campanha
Entre as iniciativas mais destacadas esteve uma transmissão ao vivo de aproximadamente 24 horas, organizada por Janones na reta final da disputa. A programação reuniu dezenas de convidados, incluindo artistas e apoiadores, e buscou manter a militância mobilizada durante as últimas horas permitidas para a propaganda eleitoral na internet.
Segundo reportagem publicada pelo portal JC, a transmissão registrou cerca de 21 milhões de visualizações e 2 milhões de curtidas. A iniciativa funcionou como uma espécie de convocação final para que os apoiadores mantivessem a circulação de conteúdos e incentivassem a participação nas urnas.
A campanha digital ganhou ainda mais importância depois do primeiro turno, quando Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro. Diante desse resultado, a equipe petista intensificou a comunicação nas plataformas digitais e ampliou a participação de militantes e voluntários na divulgação de mensagens políticas.
Trajetória política começou fora dos grandes centros
Natural de Ituiutaba, no interior de Minas Gerais, André Janones construiu sua trajetória pública antes de alcançar projeção nacional. Formado em Direito, ele trabalhou como cobrador de ônibus durante a juventude e ganhou visibilidade ao publicar vídeos nas redes sociais sobre temas de interesse popular.
Em 2016, disputou a prefeitura de Ituiutaba. Dois anos depois, foi eleito deputado federal, conquistando espaço na política nacional por meio de uma comunicação direta, marcada por vídeos curtos, transmissões ao vivo e linguagem popular.
Durante a pandemia de Covid-19, Janones voltou a ganhar visibilidade ao defender a manutenção do auxílio emergencial de R$ 600. Em 2022, chegou a se apresentar como pré-candidato à Presidência pelo Avante, mas desistiu da disputa para apoiar Lula.
Na campanha daquele ano, também atuou no enfrentamento de informações falsas sobre as propostas do PT, especialmente as relacionadas à religião e à continuidade de atividades de igrejas evangélicas. A experiência contribuiu para consolidar sua atuação como um dos parlamentares mais ativos na comunicação política pelas redes sociais.
Protagonismo veio acompanhado de controvérsias
Apesar do reconhecimento dentro da campanha petista, o estilo combativo de Janones também provocou críticas. Durante o período eleitoral, sua atuação em debates públicos e nas redes sociais gerou divergências até mesmo entre integrantes do campo político que apoiava Lula.
O parlamentar também enfrentou controvérsias fora da campanha presidencial. Em 2024, um pedido de cassação relacionado a acusações de prática de “rachadinha” em seu gabinete foi arquivado pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Em 2025, o colegiado decidiu suspender seu mandato por três meses após declarações ofensivas dirigidas ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
O histórico demonstra que a projeção digital de Janones convive com questionamentos sobre seu comportamento político e sua atuação parlamentar. Essas controvérsias, contudo, não impediram que ele assumisse papel de destaque na estratégia de comunicação eleitoral de 2026.
Lula promete ampliar comunicação direta com a população
Após a vitória, Lula sinalizou que pretende dar mais importância à comunicação digital durante o novo mandato. Em seu discurso, o presidente agradeceu a Janones pela mobilização dos apoiadores e afirmou que aprendeu lições com a campanha.
O petista também declarou que pretende utilizar as redes sociais com maior frequência para conversar diretamente com a população e ampliar a participação popular nas decisões do governo.
A declaração sugere que a experiência eleitoral poderá influenciar a estratégia de comunicação do próximo mandato. A utilização de canais digitais próprios, transmissões ao vivo e plataformas de mensagens poderá ganhar espaço na tentativa de aproximar o presidente dos eleitores sem depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação.
A dimensão desse protagonismo, porém, dependerá de como a estratégia será incorporada à rotina governamental e de sua capacidade de alcançar públicos para além da militância já mobilizada durante a eleição.
Desafio será transformar mobilização eleitoral em participação política
O desempenho do “Exército do Lula” colocou Janones no centro do debate sobre o papel das redes sociais nas eleições brasileiras. A experiência mostrou como canais de mensagens e a participação coordenada de voluntários podem ampliar a distribuição de conteúdo político em um ambiente marcado pela disputa de narrativas.
Ainda assim, especialistas ressaltam que o sucesso de uma mobilização eleitoral não significa, necessariamente, que a mesma capacidade de engajamento será mantida durante todo o governo. A participação digital depende de fatores como conjuntura política, identificação dos apoiadores, confiança nas lideranças e capacidade de manter o interesse público.
Para Janones, o reconhecimento de Lula representa uma oportunidade de ampliar sua influência na comunicação política nacional. Para o governo, a principal questão será transformar a mobilização construída durante a campanha em um canal permanente de diálogo com a sociedade, sem limitar a participação popular à divulgação de mensagens favoráveis ao Executivo.
Fonte: O Globo

